De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

03
Nov 08

«Ora então, o que sabe fazer?» - a pergunta da praxe.
Trabalho no Centro de Emprego desde que me conheço. Até, por vezes, parece que não sei fazer mais nada. Mas sei!
«Eu preciso é de pagar as contas, sabe? Veja lá uma coisa jeitosinha...»
Se eu tivesse um Euro por cada vez que ouvi isto já não trabalhava aqui. Estou farto disto. Eu também preciso de pagar as contas. Eu também preciso de “uma coisa jeitosinha”... e o que me desgraça é que já a tenho.
«Ora bem, temos aqui um contracto à experiência de seis meses para um armazém em Setúbal. É rijo, mas pagam bem. Começa por 600€ e depois logo se vê.»
Sinto sempre vómitos quando tenho de forçar esta máscara de “esmolista”. Sou nojento... vendo trabalho de merda a quem não tem alternativa de sobrevivência.
«Parece-me bastante bom!» - o homem sorri abertamente - «Acho que fico já com esse.»
Ao final de tantos anos já nem me devia surpreender - «Ah sim? De certeza que não quer ver mais nenhum?»
«Absoluta. A não ser que tenha aí algo que pague mais de 600 para quem só tem o 9º ano...»
Confirmo sumariamente no computador.
«Não há.»
«Fica essa! Eu até moro em Setúbal! Pago 250€ de quarto e ainda me sobram 350€. Daí pago a alimentação – sou homem de pouca comida – e nem preciso de comprar passe! É... esse trabalho vai dar-me uma liberdade maior. Ainda vai sobrar algum ao fim do mês.»
Repito: ao final de tantos anos já nem me devia surpreender. Ele está mesmo contente. Ele não sabe que é oprimido, ele ainda não libertou a mente! Eu sim!... Mas também tenho de pagar as contas...
Grandes cabrões... A civilização actual faz o escravo sentir-se livre e o livre sentir-se escravo...

publicado às 00:01
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