De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

23
Set 08

Ser pai em part-time quando antes o era a full-time é difícil. Estar apenas uma hora por dia com o meu filho, quando fui eu quem esteve sempre a seu lado, em todos os seus pesadelos, dando-lhe a mão, afagando-o, sussurrando-lhe palavras meigas, encostado ao meu peito até ele adormecer, é amputar parte importante de mim.

Compensá-lo da minha ausência é uma preocupação diária:
Fazer magia numa hora.
Ser o Homem Aranha ou o Batman.
Ser herói por uma hora.
Ser pai…

Há dias, estávamos a jogar ao Lencinho com uns amigos. Miguel era o número dois e eu o três. Gritaram “DOIS!” e lá foi ele, todo empenhado, mas perdeu. O seu desapontamento rasgou-me o coração que chorou. Quando gritaram “TRÊS!” decidi fazer magia, ganhar o lenço para o meu rapaz. Cheguei primeiro, arranquei o lenço e voltei para trás, vitorioso e a sorrir.

Não sei como, ao correr, tropecei e caí, mãos rasgadas pelo alcatrão arenoso, pele levantada. O meu campeão ao ver o estado em que o seu pai/herói/mágico estava, entrou em pânico, começou a correr, sem rumo, à minha volta e a gritar de aflição. A dor, o olhar dele e o silêncio dos vizinhos ruíram a barragem da minha coragem aparente e chorei, chorei como nunca antes.

Refugiei-me em casa, que antes dizia minha e fui cuidar das mãos. Tratamentos básicos de primeiros socorros. Faltava uma tesoura para cortar a pele. Pedi ao Miguel para achar uma. Ele procurou mas não a encontrou. Usei os dentes.

Regressei à minha toca, apenas uma cama e uma secretária. Passaram horas e eu continuava imóvel na cama, sem forças para fazer o quer que fosse. À noite, quase meia-noite, o telefone tocou. Do outro lado, a voz do meu campeão, a chorar, dizia:

“Pai! Vem cá! Encontrei a tesoura!!”

publicado às 00:01

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