De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

15
Out 08

Passara-se meia hora, e ele ainda não tivera coragem de sair do carro. Fitava a porta incrédulo, sem acreditar ainda que realmente ali estava.
Mas estava. E de repente, as velhas feridas reabriam-se, como se nunca se tivessem fechado. Elas iam fundo, afinal de contas. Teria preferido não voltar, limitar-se a guardar dentro de si as lições que aprendera, e seguir em frente.
Mas não podia.
As feridas estavam cravadas nos alicerces da sua alma. Por mais que ele quisesse evoluir, continuar a construção do edifício da sua mente, precisava de corrigir a estrutura básica primeiro, enfrentar as coisas de frente, parar de fugir. E parar de fingir que não pensava nos seus fantasmas, na porta, e em quem estava para além dela.
Curiosamente, quando descobrira o que precisava de fazer, sentira-se ansioso. Sentira uma vontade enorme de despachar o assunto, para poder voltar à sua vida.
Mas agora, lutava para ganhar coragem para abrir a porta do carro.
Sem saber muito bem onde, arranjou-a, e sentindo um estranho frio que o percorria do estômago à garganta, dirigiu-se à porta, e tocou à campainha.
Assim que o fez, o frio desapareceu, e o medo também. Sobrou a tal ânsia, a vontade de seguir em frente, e a certeza de que estava a fazer o correcto.
A porta abriu-se, e por trás dela, estava uma mulher com cerca de 70 anos, e pouco mais de metro e meio de altura. Ela olhou para ele.
 - Olá, mãe – disse ele – Preciso de falar com o pai. Ele está?
 - Não, não está – respondeu ela, sem emoção. – O teu pai está morto há 3 anos.
Nesse momento, ele sentiu inesperadamente o desmoronar de todos os alicerces que queria reparar. E sentiu que o seu pai lhe tinha dado uma derradeira lição.

publicado às 00:01
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Pairava no espaço já contava 3 anos.
Olhava com desdém aquele mundo que já tinha sido seu, onde tinha habitado, onde tinha alicerçado uma família, e amigos também.
Aprendera muito com a vida, e tinha também transmitido os seus ensinamentos, algumas vezes incompreendidos, mas o objectivo de seguir em frente corrigindo a trajectória era por vezes interpretado de uma forma incompreensível, onde o conflito de gerações impunha um divergir de ideias que tantas vezes o tinham confrontado, provocando-lhe alguns momentos amargos, mas a razão e compreensão falava mais alto e quase sempre acabava bem.
Ansiava por este momento, não de uma forma masoquista, mas algo que o fizesse serenar aquilo que o atormentava, que com razão ou sem razão neste momento não interessava. Interessava sim o momento e tinha chegado.
Olhava agora para a porta da casa que tinha deixado de habitar à 3 anos, e nela via o seu filho que já não via há muito mais tempo.
Viu-o bater à porta e eis que passados momentos assome a sua companheira de 3 anos antes.
Falaram, não conseguiu ouvir direito, entendeu que ele o estava a procurar.
Pelo olhar do seu filho, reparou na estupefacção que causou a resposta dada pela sua viúva. Era como que um alicerce que se estava desmoronando mesmo antes de ser erguido. Ele sabia do que se tratava, como tinha esperado este momento, mesmo nos momentos em que se finava.
Viu o filho virar costas, abeirou-se dele e passando-lhe um braço pelos ombros, tentou fazer com que sentisse o seu corpo, mas apenas sentiu o vazio. Continuou assim durante algum tempo e quando o filho se preparava para entrar no carro, acariciou-lhe o cabelo. Estava um pouco calvo, mas era o seu menino, e abençoando-o deu-lhe aquele beijo de despedida que tanto tinha almejado.

Mesmo com um nó na garganta, adorei.
Parabéns Luis

Abraço
Carlos
Anónimo a 15 de Outubro de 2008 às 16:26

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