De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

05
Set 08

Caminha à minha frente, a Rapariga-das-pernas-perfeitas. Sobe as escadas da estação de metro do Cais do Sodré, acompanhada de uma amiga, a das pernas-não-tão-bonitas. As duas vão para uma qualquer praia da linha de Cascais, ambas vestidas com calções de ganga minúsculos, a mostrar descaradamente as belas pernas que têm. Cabras!
As pernas da Rapariga-das-pernas-perfeitas não só são longas e elegantes, com a proporção perfeita de osso, músculo e tecido adiposo, como estão perfeitamente bronzeadas, com um belo tom de caramelo, que brilha na luz artificial como se coberto por purpurinas.
Dou por mim a não conseguir desviar o olhar daquele par de pernas. A deseja-lo para mim. As minhas pernas são perfeitamente terríveis: apesar de compridas, são completamente desproporcionais. As coxas são gordas e musculadas e sarapintadas com celulite. As canelas são ossudas e finas. E a pele é pálida, quase transparente, com um ligeiro tom amarelado.
Como eu odeio aquela rapariga! Ela é tudo aquilo que eu gostaria de ser, confiante e feminina, um belo par de pernas.
Sigo-as escadas acima, até ao piso -1 da estação de comboios do Cais do Sodré. Este está repleto de gente, essencialmente turistas ou miúdos nas férias escolares, que se apressam a comprar bilhetes de comboio e a chegar às plataformas no piso superior.
A Rapariga-das-pernas-perfeitas e a amiga dirigem-se à máquina de bilhetes e eu, como se fosse uma traça atraída por uma lâmpada, vou atrás. Enquanto a amiga compra os bilhetes eu agarro o pescoço delgado da Rapariga-das-pernas-perfeitas e, com os meus braços musculados e gordos, parto-o como se fosse um pau de gelado.
A Rapariga-das-pernas-perfeitas cai morta e eu, misturada na multidão, subo para a plataforma onde apanho o comboio para Cascais. Ninguém repara em mim, apenas reparam no par de pernas perfeito que se acabou de perder.

publicado às 00:01
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