De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

12
Set 08

Uma vozinha sumida que só eu sou capaz de ouvir diz:
“ É um dragão! E quer-te comer...”. - enxoto este pensamento e concentro-me em problemas mais urgentes, nomeadamente no idoso que acabou de ser alvejado no pé.
Estavamos a visitar o centro histórico de Colónia, quando se ouviram vários estouros e um cheiro forte a enxofre queimado. A metade do grupo de turistas mais versada em violência citadina tinha-se lançado ao chão, cobrindo a cabeça com os braços. A outra metade, na qual me incluo, ficou pasmada a olhar, tentando perceber o que estava a acontecer. Felizmente os únicos feridos foram os americanos, que arranharam os joelhos ao estatelarem-se no passeio e o velhote, atingido no calcanhar com um estilhaço. O homem, inglês, estava de tal forma desnorteado, que se agarrou a mim, implorando por companhia.
“É um dragão! Sai daí...” – a voz começa a ganhar intensidade e urgência. Olho em volta e estou sozinha com o velho. Este agarra-me a mão com tanta força que me começa a magoar. Levanto o pano que lhe cobre a ferida e reparo que o sangue estancou. Quero dizer-lhe isso para que ele fique mais descançado, mas a voz começa a gritar na minha cabeça:
“O VELHO É UM DRAGÃO. SAI DAÍ!!!!”
Nesta altura noto as escamas vermelho-vivo por debaixo da pele. O velho olha para mim com olhos de pupila fendida, côr-de-ambar.
Levanto-me de um salto. Estou dentro de uma gruta. O pânico toma conta das minhas pernas e fá-las correr. Corro dali para fora o mais depressa que consigo. Levanto vôo e fujo, mas continuo a sentir os olhos do dragão em mim. Então torno-me incorporea e refugio-me na Terra.
Olho para trás, o dragão retribui-me o olhar. O meu é de paz, o dele de ódio e… de desilusão.

publicado às 00:01
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comentário:
Bom dia, BT (se for daqueles que tem radar, desde já os maiores respeitos, e estanco desde já as minha palavras).
De novo os meus parabéns por nos presentearem com esta bela história, bem composta, bem idealizada, tendo um bom inicio, um óptimo intermédio, e um final que nem vou falar, mas que bem poderia ser daquelas historias de amor e ódio que um dia acabam por se transformar num grande amor, e quem sabe se um dia a historia continuar, ainda és bem capaz de vir a simpatizar com o dragão e estabelecerem laços de amizade.
Desculpa a observação, mas não nos disseste se o dragão deitava lume pelas bentas, mas deveria deitar que os dragões que conheço, deitam todos, assim bem poderia ter sido um lapso teu, ou o fogacho do dito não caberia nas 300 palavras contadas.
Mas julgo que deverias ter lido que agora os contos infantis não podem conter sinais de violência.
Então não queres ver que aquela lenga-lenga que aprendemos em pequenotes, do “atirei o pau ao gato”, agora certos experts e defensores dos bons ensinamentos e costumes, aconselham que se deve empregar “atirei o pão ao gato”.
Que parvoíce BT, já viste um miau a comer um pão? se ainda fosse um carapau ou uma sardinha, nem que fosse daquelas moídas.
Mas isto pode ter outra interpretação. E se for um pão bafioso já com uns dias? Não é violento atirar o dito ao bichano, pois estará ressequido e duro como uma rocha, logo será como atirar um pau.
Mas meus amigos, este blog esta a ficar um tanto violento.
Num dia um tiroteio do caraças, e agora um dragão perseguindo uma moçoila.
Livra, vocês vão mesmo acabar por provocar o acordar de algum super-heroi, que sairá por esse cosmo afora, bebendo xiribiti, socorrendo donzelas e caçando os foragidos da lei (aqueles xiribi’s ou seriam ziribi’s)?
Espero que esta treta do Dragão não tenha nada a ver com simpatias clubistas, que não gostaria de criar qualquer empatia, porque isto de uma lisboeta falar de dragões cheira-me a esturro, ainda se falasse de moiras encantadas, ou de gatões desdentados, ou de passarucos depenados, ainda vá que vá.
Mas o BT, não incorpores de novo, e não te refugies num outro planeta sem ser na Terra, porque afinal ainda tens muito que escrever, pois tens uma forma inventiva e de enredo da escrita excepcional, e todos agradecemos essa tua disponibilidade de comunicação.
Vê lá que até consegui incorporar-me na pele do dragão, perseguindo uma donzela moira.
Sabes que existem jovens anciões que são bem capazes de tudo, ate de se transformarem em dragões, só para caçarem donzelas indefesas.
Não é bem o meu caso que tenho cagufe que apareça algum cavaleiro de lança em riste, e já não tenho alento para defrontar pelejas.
Agora a serio, parabéns pelo excelente texto, e por favor continua este excelente exercício da mente que é a leitura e a escrita, permitindo-nos aceder a estas pequenas historias que povoaram o nosso imaginário na meninice.
Continuem…
Abraço
Carlos a 12 de Setembro de 2008 às 09:43

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