De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

05
Jan 09

"Vivo de novo."
O único conteúdo da nota deixada no correio, assinada “Alina”. Brincadeira de mau gosto. A minha amada Alina morreu há dois anos. Ainda sofro pela perda. Brincadeira de extremo mau gosto... mas eu vou lá.

Chego à morada indicada no envelope. Toco e a porta abre-se.
Olhando, caio no chão de imediato - os joelhos cedem, sem força.
«Alina?»
«Entra, querido.»
Alina olha-me ternamente, como sempre - fazendo-me sentir um rei.
A força regressa e eu entro. Sorrio e abraço-a. Depois, sentindo de novo aquele seu cheiro, beijo-a. Depois dispo-a. Um fogo acende-se em nós e eu dispo-me também.
Contra a parede, penetro-a. Beijo-a e penetro-a de pé, as suas pernas enganchadas na minha cintura.
Os nossos olhos encontram-se… mas já não é a Alina! É a minha mãe! Não consigo parar o movimento sexual, nem quando ela ralha comigo.
«Puta!» - grito enquanto a minha mão agride a face dela.
E de repente ela é novamente a Alina e chora. Eu sinto pena e culpa invadindo-me.
«Alina... desculpa...»
A minha cabeça é impelida para trás pela força do estalo da minha mãe.
«Mãe! Não! Eu sou...» - e aí consciencializo-me do momento.
Ergo-me e esmurro-a com toda a força, toda a raiva, toda a culpa...

À minha frente jaz Alina, novamente morta. Matei a menina inocente e obediente que amava, junto com a severa mulher. Por qual delas choro?
Por nenhuma. Choro por mim.
Alina morreu há dois anos de leucemia, porque existiu apenas por mim. Aprisionei-a e dei-lhe todas as respostas que queria. Nunca viveu. Apenas existiu e morreu.
Hoje morro eu. Eu que, de tanto lutar, me transformei na mãe que odiava.
Hoje sigo em frente… e deixo para trás, sem memória, o cadáver da prostituta que alguém contratou para me agradar...

publicado às 00:01
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