De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

14
Out 08

“É claro que no domingo vou almoçar contigo!”, disse ele com convicção, “No máximo, chego à uma da tarde. Está descansada, não te preocupes!”

É a história da minha vida.
No domingo fiz o almoço e esperei por sua excelência.
Uma da tarde como combinado.
Nada.
Telefone mudo…

Uma e meia, nada.
O telefone continuava mudo, provavelmente sem rede ou bateria. Não valia a pena telefonar.

Duas. Nada!

Três. Nada?!

Quatro. Ainda NADA!!!!!!!!
Pânico: Teve um acidente. Está num hospital inconsciente. Está irreconhecível, não tem identificação. Está morto!!

Afinal, não. Nada disso.
Às seis e meia o mistério foi esclarecido:
“Não imaginas no que aconteceu hoje. Saímos tarde de Braga, era quase meio-dia e depois, não vais acreditar, a carrinha avariou na A1, uns quilómetros antes de Antuã e estivemos imenso tempo à espera que chegasse o pronto socorro, o mecânico, o reboque e depois uma carrinha de substituição, uma seca, ao sol, horrível!…”
“Então porque não telefonaste a avisar?”
“Porque tive que telefonar à assistência em viagem, ao reboque e depois emprestei o telemóvel para os outros avisarem a família e fiquei sem bateria…”
“Então, … e em Antuã?”
“Ah…. Não parámos lá, porque estávamos muito, muito, muito atrasados, eles tinham que entregar a carrinha em Lisboa o mais cedo possível!!!…”
“OK…”

Mas não fiquei muito convencida.
 Fui cozinhar, mais uma vez naquele dia.
Mais uma vez, sozinha.

Oito. Jantar pronto.
“Deves estar cheio de fome, desde as onze da manhã sem comer! Coitado!!! Estás morto de fome!!!”
“Ah, não!!! Parámos em Antuã para comer qualquer coisa…”
“?...”
Engoliu em seco e disse:
“Ah!... esqueci-me… eheheh… não havia telefones públicos de moedas, só de cartão… eheheh…”

Um silêncio pesado desceu sobre a mesa do jantar e o meu coração gelou para nunca mais aquecer.

publicado às 00:01

comentário:
Ensinamentos

É claro que te levo o jantar – disse a chapeuzinho vermelho à avozinha.
Eu tenho cuidado com os lobos e andarilhos mais afoitos, não se preocupe avozinha.
Chapeuzinho Vermelho era uma menina educada segundo as normas tradicionais, onde os usos, costumes e valias faziam jus a uma tradição familiar normal.
Aprendera a confiar nos outros, a ter respeito, carinho, admiração, noções básicas para saber amar tudo e todos, e assim foi crescendo.
Mas voltemos á história.
Chapeuzinho, acondicionou o jantar preparado com mil cuidados e carinhos e lá saiu cantarolando através das veredas.
Pelo caminho cruzou-se com saltimbancos, malabaristas, engolidores de fogo, domadores de ferozes animais, jogadores, trapaceiros, e a todos cumprimentava com a graciosidade juvenil que tão bem a compunha.
Olhando para uma latada de uvas morangas, apeteceu-lhe agraciar a avozinha com um cacho, que sabia bem que ela iria apreciar.
Acontece que a latada estava alta demais para a sua altura, esticou-se, esticou-se, mas... estavam mesmo muito altas.
Foi então que surgiu na curva do caminho um jovem que ao ver a nossa chapeuzinho nestes apuros, logo se prontificou para a ajudar. Como era mais velho e logo detentor de mais altura, só precisou de subir a umas pedras e colheu logo alguns cachos com que presenteou a nossa doce menina, não deixando então de reparar no repasto que a menina acondicionava na cesta, e também em toda a graciosidade desta jovenzinha, de onde sobressaia do decote uns belos seios ainda imaculados.
Ela ficou muito agradecida, um pouco envergonhada até, e agradeceu vezes sem conta o gesto com que acabava de ser presenteada. Foi aí que reparou no olhar cândido do jovem e sentiu uma aceleração repentina no seu jovem coração.
Voltou a agradecer, pegou na cesta, e continuou vereda abaixo, não reparando que o jovem a seguia ao de longe.
Eis então que ouviu um ligeiro assobio e ao voltar-se, repara que é o gracioso jovem que a ajudou.
Faz-lhe um sinal com a mão em sinal de espera, e a chapeuzinho aguardou.
Chegado ao pé dela, diz-lhe:
- Reparei que carreguei demais a tua cesta com os cachos de uvas que tirei, assim se quiseres eu ajudo-te até ao teu destino.
- É verdade, mas não tinhas esta direcção, e não te quero dar esse trabalho, responde a chapeuzinho...
- Mas faço questão, não ficaria bem comigo mesmo, diz o nosso jovem arteiro.
Assim, chapeuzinho anuiu, e concedeu uma das asas da cesta, e lá seguiram caminho.
Chapeuzinho contou então ao jovem que o jantar era para a sua avozinha que morava não muito longe, por quem tinha grande admiração e carinho.
A vereda deparava-se agora com uma acentuada subida que os dois transpuseram com alguma dificuldade, tendo chegado ao topo um tanto ofegantes, e aí resolveram descansar à sombra de um belo choupo que ladeava o riacho que pouca água levava naquela altura.
Os pássaros chilreavam compondo um quadro bucólico que induzia qualquer um a fechar os olhos e saborear toda aquela envolvência.
E foi isso que fizeram os nossos dois jovens, ou pelo menos chapeuzinho assim agiu, e assim dormitou durante alguns minutos.
Quando acordou, olhou ao seu redor e não viu o jovem, chamou mas não obteve resposta.
Quando ia a pegar na cesta para encetar novamente o caminho, reparou que estava mais leve.
Retirou a toalha, e então a admiração que tinha nutrido pelo jovem, desvaneceu-se com o que viu.
Só restavam as uvas.
O gracioso jovem tinha-lhe roubado o jantar que tinha acondicionado com tanto amor.
De novo se meteu ao caminho, e passados uns breves minutos, chegou a casa da sua avozinha, de onde provinha uma alegre conversa.
Espreitando pela janela, arregalou os olhos e nem queria acreditar no que via.
O jovem e a avozinha estavam-se saciando com o jantar que ela tinha preparado.
Prometeu a si mesma naquela hora, que nunca mais confiaria a ninguém a outra asa da cesta.

Parabens Francesca

Carlos




Anónimo a 15 de Outubro de 2008 às 14:21

pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
blogs SAPO