De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

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Out 08

Voava de sonho em sonho, como que bebericando do seu nectar, vermelho-vivo, como a chama que deu vida ao mundo e alma aos homens. Assim era o Dragão.

  Sentia-se velho e por isso bebia dos sonhos das crianças, roubando-lhes a inocência. Sentia-se feio e roubava a sensualidade dos sonhos dos adolescentes. Sentia-se só e visitava os sonhos de juventude perdida dos homens de meia-idade.

  Estava deprimido!

  Os sintomas eram claros, mas e o tratamento? Como se cura um Dragão, primordial e mitológico, de doenças do forro psicológico? Visitou os sonhos dos psicanalistas que insistiam que a causa das suas aflições era a sua mãe. Visitou psicoterapeutas Gestalt que fixaram-se na importância do Eu num contexto. Visitou metodistas e adventistas do sétimo dia mas… Bem, um Dragão não tem progenitores. Todo ele é Infinito, logo as partes e o todo perdem sentido, e os metodistas e os adventistas eram simplesmente deprimentes. 

  Deu voltas à cabeça até descobrir a solução. “Aha! Já sei. Para desta depressão me curar, uma Alma Humana terei que roubar.” 

  E assim fez. Esvoaçou pelos sonhos das crianças, pensando que estas eram mais fáceis de roubar, mas as suas Almas eram inconstantes e muito difíceis de apanhar. Visitou os sonhos dos homens de meia-idade, mas as suas Almas estavam corrompidas, cheias de chagas por fechar. Tentou roubar a Alma aos adolescentes, mas estes, por serem egoístas, recusavam-se a partilhar. 

  Acabou por desistir e pôs-se a chorar, lágrimas de Dragão que brilham com o luar. “Oh, que triste sou! Como me vou eu curar, sem uma Alma conseguir roubar?” 

  Neste pranto foi encontrado por um qualquer Deus Humano, que lhe falou para o acalmar. Que Alma Humana já ele tinha, só dela se precisava de livrar. Que essa era a consequência de pelos sonhos dos Homens andar a voar. 

publicado às 11:25
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comentário:
Oiço um choro...

Não sei se durmo se sonho, mas oiço um choro....
Apuro o ouvido e ausculto uma ténue melodia que não se parecendo com nenhuma ladainha, auguro algo ente o choro e o queixume de um qualquer ser.
Deambulo na floresta da Alma Humana, e descubro de onde provém esses sons.
Não é nenhum ser vivo ou inerte, é algo muito mais sensível. È uma Alma que clama algo.
Abeiro-me dela e pergunto;
- O que tens Alma Humana?
Entre soluços contidos e não contidos, responde-me:
- Olha nem sei, apenas me apetece chorar...
Intrigado pergunto:
- Mas deves ter algum queixume, alguém te maltratou?
- Nem sei, – responde a alma
- Mas todas as causas devem ter um motivo – respondo
- Tens razão, mas nem sei se tenho razão em estar assim...
- Se quiseres falar eu escuto-te – digo
- Tudo bem, falarei...
A Alma limpou então a imagem, já marcada por algumas agressões que lhe sulcavam a face, e começou a falar...
- No inicio da Era, tudo foi programado de uma forma normal, os valores humanos foram estudados e testados nos melhores laboratórios. Foram séculos de estudos, desenvolvimentos, experiencias, consultamos adventistas e metodistas e todos fomos unânimes em dizer que tudo estava certo e que nunca iríamos ter consequências negativas, e eu teria tudo para fazer as pessoas felizes.
Mas algo correu mal, esquecemos um elemento que deveria ter sido deixado por acaso num tubo de ensaio que ninguém deu importância, que foi o gene da evolução. Acontece que esse gene deveria ter sido adicionado aos valores de uma forma sadia e controlada, mas ficou esquecida. Era tão pequenino que ninguém notou a sua falta, mas tinha algo, que os diferentes genes não possuíam. Era uma forma crescente que se descontrolada, poderia se tornar em algo draconiano, capaz de conspurcar os restantes genes que compunham os valores.
Assim a evolução sem controlo, foi tomando diferentes formas e dando origem a outros genes; a ganância, a ostentação, a inveja, e o ódio invadiram os todos os outros valores, formando e transformando de uma forma desmesurada, algo para que mim, a Alma não estava preparada.
- É verdade meu velho amigo, como vês tenho motivos para este choro que me impele das entranhas e me condiciona o desempenho para o qual fui criada.
- E será que não existe um antídoto? Sei lá algo que os melhores cientistas, os psicólogos, os psiquiatras, os melhores gurus possam fazer? Pergunto eu...
- Não existe, e cada dia que passa essa evolução vai acabar por me aniquilar, e transformar cada possuidor, num garimpeiro sem escrúpulos.
- Vês agora a razão dos meus lamentos?
- Sim, vejo – digo
Então com os olhos marejados de lágrimas, abraço-me á Alma na esperança que ela não me devore.


Um abraço BT

Carlos
Anónimo a 10 de Outubro de 2008 às 14:17

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