De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

25
Nov 08

Tudo começou com a compra do seu primeiro vinil, tinha ela 12 anos, lembra-se bem, o single “Portugal na C.E.E.” dos GNR. Desde então todas as migalhas que lhe sobravam da mesada eram gastas em discos. Havia dias que não lanchava e chegava a casa esfaimada tal qual um lobo, apenas para poder amealhar mais uns trocados. Um dos seus maiores prazeres era entrar numa discoteca, olhar à sua volta, dirigir-se à estante, agarrar num disco, olhar a capa, atenta aos pormenores, retirar o disco, cheirar o vinil e mirá-lo à contra-luz no ângulo certo e perder-se na espiral mágica que transporta a música.
Esse ritual tinha lugar no último dia de cada período lectivo, o que tornava o prazer ainda maior: vir do liceu, entrar na discoteca, escolher o disco, levá-lo para casa e ouvi-lo até à exaustão.
Foi assim durante alguns anos.
Foi assim até trabalhar e ter um salário certo ao fim do mês. Já não precisava de juntar as migalhas da mesada e podia comprar todos os discos que lhe apetecia.
Olhando para trás, ela pensa que foi nessa altura que começou a ser controlada por eles. Já não conseguia resistir. Sempre que passava por uma discoteca, algo a empurrava e forçava a comprar um disco, embora consciente que não o iria ouvir, porque já não tinha tempo, pois trabalhava até tarde ou as férias ainda demoravam, ou que já o tinha ouvido vezes sem conta, mas numa edição diferente e tinha que ter outra, ou que já não tinha espaço em casa para tantos discos, nada a demovia daquela compra. Comprava cada vez mais.
E os discos ocuparam toda a sua mente, vida e casa, espalhando-se pelas divisões, cada vez em maior número, afogando-a e enterrando-a, até que, desesperada, fugiu de casa.

publicado às 00:01

pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
blogs SAPO