De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

03
Fev 09

A mãe dizia-lhe:

- Tira o cabelo da frente dos olhos!

Mas ela não tirava.

 

Os professores pediam-lhe:

- Afaste o cabelo da cara, quero ver-lhe os olhos. Quero ver essa cara linda, completa!

Mas ela não satisfazia o pedido deles.

 

A todos pedidos se recusava ceder. Rotularam-na de rebelde, de mal-educada, de adolescente tresloucada (vá lá, safou-se de frequentar consultas de psiquiatria ou psicologia).

Desde os oito anos que usava o cabelo à frente do rosto. Apenas a mãe se lembrava vagamente da cor dos olhos dela. De uma mania de criança, as pessoas passaram a ver uma atitude de afirmação de personalidade, típica da adolescência.

Ninguém conhecia o seu segredo. Usava o cabelo como máscara, para que ninguém soubesse que não tinha olhos, pois não tinha alma. E não ter alma é difícil, pois implica, para algumas pessoas, não ter vida. Mas ela conseguia viver bem sem alma. Apenas não queria que tivessem dó de si e, por isso, escondia o seu vazio.

Conseguia fazer a vida normal de todas as pessoas: apercebia-se das nuances da luz, das cores e das formas dos objectos que a rodeavam, até conseguia ler e escrever. Todos os outros sentidos funcionavam na perfeição: adorava cozinhar, delirava acariciar o gato e extasiava-se com ritmos tribais.

Ainda não conseguira sentir o ar na face ao andar de mota, pois não tinha descoberto o modo evitar que o cabelo esvoaçasse rebelde e sem controle, destapando-lhe o rosto e desvendando a escuridão onde deveria haver luz.

Dançar com os amigos dava-lhe prazer. Tinha treinado até à perfeição o modo de manter o cabelo como a cortina da suas janelas para o nada.

Mas, em casa, sozinha, dançava loucamente e conseguia ser feliz, porque se esquecia que não tinha alma e por isso, não tinha olhos.

publicado às 00:01

comentário:
há um livro que tem de ler: "o Pássaro da Alma"
e' duma senhora, mas não sei o nome.
é um livro bastante simples, ilustrado, lê-se em 5 minutos, no fundo simples e eficaz, por assim dizer.
todos temos alma uma vez que todos temos um Pássaro da Alma.
Pássaro tal que possui corpo em formato de pássaro, cabeça bico etc, mas o seu corpo é constituído por gavetas que albergam todo o nosso ser sectorial (a essência individual de cada um).
Sentimos-nos sem alma porque no fundo esquecemo-nos de alimentar o tal pássaro (ou de como alimenta-lo!!!).
por isso sou da apologia de que todos têm alma, sim, uma vez que o Pássaro da Alma é imortal.
Ines a 10 de Fevereiro de 2009 às 22:29

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