De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

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Abr 09

O contador de histórias da aldeia apareceu morto. Contou-se por todo lado que a arma do crime foi uma sachola e todos sabem que as sacholas não andam por aí sozinhas a tombar em cima das pessoas. Se não estivessemos a falar do Ti Joaquim poderíamos até supor que tinha a ver com mulheres, essa causa de morte masculina que arrasa o país de uma ponta a outra.

 

Diversas pessoas lamentaram tão preciosa perda. Não sabiam muito daquele homem que choravam e não havia ninguém para contar a sua história. Lamentarem acima de tudo, ele ter morrido sem passar o seu ofício a outro. Assim muitas histórias se perderiam. E quem se lembraria dos porquês das coisas se não contassem histórias?

 

Depois do funeral, reuniram-se para pensar o que fazer. Escolheram um novo contador de histórias e este seria responsável por elaborar uma história sobre o anterior contador de histórias e ensiná-la às pessoas, para assim estas poderem continuar a ensiná-la às gerações futuras. Luísa Lúcia assumiu o manto do novo contador de histórias e nessa noite teceu a trama.

 

“Joaquim chegou a aldeia sem pais ou família; trabalhou arduamente os campos para sobreviver. Contava também histórias no centro da aldeia em troca de refeições. As suas histórias encantavam. Aprendeu a ouvir e observar. E cada dia contava algo novo a partir do seu dia. Passaram-se anos e anos, até ao dia em que ouviu e observou de mais, até hoje não sabemos o quê. Uma sachola presa a mão humanas decidiu que o contador de histórias não contaria mais histórias. Mas as verdades precisam de bocas para se expressarem e aldeia escolheu uma nova boca, que esta seja mais moderada a palavrear os actos dos homens pois há muitas sacholas no Mundo.”

 

A partir desse dia Lúcia Luísa passou a ser respeitada como a nova contadora de histórias.

publicado às 00:01
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