De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

01
Ago 08

“Esta é a ultima noite que passarei aqui.” – pensava Miguel num misto de alívio e de raiva, ao entrar na maldita divisão que o tinha abrigado durante quase um ano. Era um quarto enorme, dominado pela luz que o assaltava através de duas paredes envidraçadas. Estas davam acesso a uma vasta varanda com uma vista sôfrega sobre a foz do Tejo. O quarto estava decorado de uma forma fria e impessoal, a roçar o minimalista. Tinha uma cama suficientemente grande para conter confortavelmente três pessoas, uma chaise longue, uma mesa de café e três cadeiras de aspecto desconfortável, um tocador e um espelho de corpo inteiro que reflectia toda a divisão. Resumindo, o quarto era impressionante, enorme, luminoso e frio. E a um canto, meio perdido, pendurado no tecto, balouçava um saco de boxe vermelho.
Miguel olhava para a mala que tinha feito nessa manhã, encostada à porta do boudoir, e franziu o sobrolho em desagrado. O alvo desta censura não era a mala ou o seu conteúdo, mas sim o conceito de se ter uma divisão só para as roupas e acessórios.
- Porcos capitalistas! – refilou entre dentes.
Estava farto daquele quarto, estava farto daquela casa e da companhia. Havia algo na opulência fria que transpirava do local que ia contra a sua natureza, algo fundamental e biológico, que lhe punha os pelos do cachaço em pé.
- O que vale é que amanhã ponho-me na alheta! – suspirou enquanto vestia a T-shirt com que dormia.
Já na cama lembrou-se do saco de boxe, o seu refúgio e conforto, que ainda estava pendurado a um canto, e sorriu. Não o ia levar! Que ali ficasse, uma pequena mácula em toda aquela perfeição branca. Confortado com aquele pequeno golpe, Miguel afofou a almofada e adormeceu.

publicado às 00:01
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