De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

08
Ago 08

Matilde não era rapariga para andar sozinha, àquelas horas, a deambular pela zona mais mal frequentada do Bairro Alto. Magra e arrapazada, parecia mais nova do que na realidade era. Um aspecto que cultiva com as roupas que veste e adoptando um comportamento extrovertido, ingénuo e algo infantil. Aos 27 anos, Matilde é uma mulher insegura, desapaixonada e desinteressante.
Um par de turistas embriagados passa por ela, deixando a rua quase deserta. Ouvem-se as batidas sumidas da música dos bares lá em baixo e Matilde caminha com mais cuidado do que seria de supor necessário. Está assustada. A sua respiração sai ofegante e parece-lhe desmesuradamente sonora.
Alguém bate com uma porta atrás de si. Matilde vira-se de um salto. “Merda!”. A porta ressalta e entreabre-se. De dentro arrasta-se uma luz pesada e carmim e ouve-se um sussurrar de vozes e aplausos.
Matilde avança em direcção à porta com passos tímidos. Em frente a esta, está um chicote caído. Matilde apanha-o e segura-o com as duas mãos. Hesitante, empurra a porta que cede com uma leveza inesperada. “Ok. Coragem.” Matilde entra e a porta fecha-se.



Matilde olha-se no espelho do camarim, enquanto retira o excesso de batom. Está vestida com um corpete vitoriano de cetim preto e o cabelo está apanhado com uma cartola em miniatura. Do outro lado da porta o assistente de palco diz-lhe que tem dois minutos até entrar. Matilde levanta-se e prende o chicote à cintura. Verifica as facas presas às ligas e os atacadores das botas de salto agulha. Coloca as mãos na mesa, olha-se ao espelho e diz:
- Morte aos cobardes e aos que temem a Dor!
Matilde sai do camarim. A porta fecha-se atrás de si. Do palco vem o som abafado dos aplausos a ela dirigidos; a bela e cruel Medeia.

publicado às 00:01
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