De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

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Ago 08

«Ah! Ah... ah... a...» - a intensidade do eco evidencia que a galeria tem uma dimensão considerável.
Felizmente, o solo é regular, pavimentado pelos escravos dos sacerdotes Egípcios mediante uma planificação arquitectónica extremamente simbólica. Infelizmente, no entanto, a luz da minha lanterna começa a falhar – consome a última pilha. Caminho com cuidado para não despoletar algum dispositivo condutor da ira dos filhos de Hórus para com intrusos indesejados, pilhadores ou cientistas. Eu sou um misto de ambos e tenho de, portanto, redobrar a atenção e o cuidado. Muitas vezes considero se o pagamento justifica estes riscos, mas acabo sempre por render-me à possibilidade de ser o primeiro humano a penetrar sítios ocultados do público e até de mentes científicas há eras. Quantas peças sagradas e de valor incálculavel já eu acariciei e levei do local onde repousavam há milénios para conhecerem de novo a luz solar? Nem sinto pena quando tenho de me separar delas ao entregá-las a quem me paga estes esforços; é para mim o prazer de me saber o primeiro desta era a contemplá-las que me preenche... e o dinheiro, claro.
Tenho de prestar mais atenção. Por vezes perco-me em pensamentos e numa galeria destas, a mínima distracção pode ser fatal. Vejo o altar onde repousa a estatueta. Parece tão acessível e tão fresca, como se o tempo não influenciasse este local. Calculo os passos, agora tão próximo do meu objectivo. A luz da lanterna está no seu limite de vida. Alcanço a peça com a mão esquerda e a lanterna morre-me na direita.
Instantâneamente, surge um clarão imenso e uma luz inunda a galeria.
«Oh Abdul?! Despachas-te ou não? A estatueta é para a apresentação amanhã!»
O armazém do museu do Cairo perde muito da sua magia imerso nesta luz artificial...

publicado às 00:01
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