De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

01
Set 08

Puxo de um cigarro e acendo-o. Nem me lembro onde estou. Um empregado aproxima-se e diz:
«Desculpe, mas aqui é proibido fumar...»
Surpreendido pela minha própria falta de atenção, aprontava-me para sair do restaurante quando uma voz estridente, oriunda de uma mesa próxima, me interrompe.
«O desrespeito! Deviam era juntar os fumadores todos e matá-los para vingar os que morreram por causa do fumo deles!»
Fiquei estarrecido. Eu e o empregado viramo-nos para o local de onde a voz proveio; uma senhora de idade, mal encarada, agarrada a um fio que sustentava uma daquelas molduras portáteis.
«Dona Maria, que coisa desagradável de se dizer!» - tenta o empregado, para conter o mau estar.
«Era matá-los! Agora é que se sente a falta do Salazar!» - a mulher estava determinada a fazer sentir-me muito, mas muito mal.
No meu cérebro surge no entanto uma decisão. Olho o empregado e digo-lhe:
«Chame a polícia. Eu pago a minha e a vossa multa.»
Inesperadamente, o empregado nem debateu. Talvez o meu olhar tenha sido eloquente.
«Dona Maria, o Senhor aqui recusa-se a apagar o cigarro, descanse que eu chamo a polícia.» - diz o empregado levantando o auscultador do telefone.
A toada manteve-se durante os minutos que demorou a chegar um agente. Este entra no restaurante e, sabedor da queixa, caminha na minha direcção. Pára, olha para mim, olha para o maço na mesa, olha de novo para mim e senta-se.
«Cohiba? São os melhores do mundo! Vale a pena uma cigarrada!» - atira o agente acendendo de pronto um dos meus cigarros.
A mulher perdeu a cor. Levantou-se em murmúrios e saiu do restaurante apressada.
Afinal, sempre dá jeito o polícia que aos fins de semana faz a ronda neste quarteirão me dever dinheiro...

publicado às 00:01
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