De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

06
Out 08

Devo tanto ao Paulo. Ele soube tirar-me a máscara, revelar as cavernas profundas que existem nas traseiras de qualquer mente humana.
Pensava ser altruista e afinal vi-me masoquista. Considerava-me lúcido e compreendi que usava técnicas elaboradas - e pouco conscientes - de argumentar comigo próprio e com os outros, sem nunca de facto aprender. Pensava até que era forte, mas apercebi-me que tinha reforçado a máscara com uma estrutura muito rígida, deixando um vazio no interior de mim mesmo – esse vazio veio a tornar-se num vácuo que fez a máscara implodir quando a pressão se tornou insustentável...
No fundo, o Paulo foi capaz de me ver, de ser o espelho da projecção de mim mesmo, de mostrar aquilo que sempre esteve em mim e que nunca me atrevi a sequer olhar. Sofri muito nesta amizade e fi-lo sofrer também, mas foi através desse sofrimento que me alcancei. Do outro lado da morte que me vi forçado a enfrentar, inundado de dores e emoções, repleto de pústulas e chagas e pestilência que tinha escondido por baixo da roupa psico-social, reside, de facto, uma espécie de paraíso. Um dos degraus para lá chegar, pelo menos, um patamar. A morte, compreendi, é ciclica, mesmo dentro de uma vida biológica. Alcancei a minha consciência e hoje sou mais inteiro... nunca me senti tão bem.
O corpo do meu amigo Paulo acabou de entrar para o crematório. Talvez um dia o volte a ver, ao meu grande professor, talvez um dia ele me perdoe. Haverá uma altura em que falarei com ele de novo e ele me estenderá a mão num cumprimento.
Agora, no entanto, terei de esperar por um reencontro. Pena, que na derradeira sacudidela do meu ego, me tenha visto forçado a matá-lo...
...
...E NINGUÉM PODE SABER!

publicado às 00:01
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