De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

13
Out 08

«Oh palhaço! Estás a passar à frente?»
Lá está o Romeu a provocar. Aproveita qualquer coisa para arranjar porrada.
«Oh Romeu! Não vês que o homem está só a passar? Ele nem vem comprar o passe...» - digo, tentando acalmá-lo.
O homem tenta dizer algo mas é impedido pela insistência persistente da estupidez.
«Ele quer é levar nos cornos é o que é. Anda cá!»
O homem aproxima-se. Mais uma vez tenta dizer algo e é interrompido.
«Julgas que esta merda é assim? A mim ninguém me passa à frente, ouvistes oh palhaço?!»
As pessoas que aguardavam na fila começam a afastar-se com expressões de medo e condenação. Eu mantenho-me próximo. Talvez consiga ainda evitar que ele se meta em trabalhos outra vez.
Aproveitando um momento em que o Romeu não estava a insultá-lo, o homem conseguiu iniciar uma frase.
«Mas senhor, eu fui soldado...»
«Olha este! Achas que tenho medo disso, oh palhaço?! Eu também fui e dos bons hã!! Olha aqui!» - o Romeu interrompe-o novamente e levanta a manga da camisola para exibir a tatuagem no braço - «Aqui, ó! Guiné! Sabes o inferno que isto foi hã?! Nem te passa pela cabeça, oh soldadinho de merda! Mas eu mostro-te!»
Possesso, o Romeu afasta-me e saca da pontimola. Ataca o homem com um golpe no fígado... mas a mão atravessa-o como se ele não existisse. Tenta outra e outra vez, mas nenhum golpe se encaixa.
O Romeu acaba por deixar cair a faca, a tremer pelo choque, e cai no chão, desmaiado.
Tão incrédulo quanto ele estava eu, mas o homem finalmente conseguiu completar o que ia dizer:
«Como disse, eu fui soldado... mas na primeira Guerra Mundial. Morri numa trincheira em 1908! Quero lá saber da fila para o passe...»

publicado às 00:01
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