De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

20
Out 08

Éramos vinte, praticamente uns em cima dos outros. Agora restamos dois. Vivemos em constante medo. Quando a cela é aberta, um de nós é levado e não regressa. Não sabemos o que acontece, mas sabemos que é mau.
A cela abre-se. A luz inunda a escuridão da nossa existência.
Incandeado pela luz forte, encolho-me o mais que posso e aguardo o meu destino, dominado pelo pânico... mas a cela regressa à escuridão natural, comigo ainda lá. Estou sozinho, o último dos meus companheiros foi levado. Sou o próximo.

Passa muito tempo, mesmo que tenha sido pouco. Estou exausto. Ter medo constante é como morrer em todos os momentos.
Não aguento esta espera! Matem-me de uma vez mas não aguento estes momentos vazios de espera por um destino incontornável.
A cela baloiça vigorosamente, como quase sempre acontece, e sou projectado contra todas as paredes sem ter onde me agarrar. Quando éramos mais, apoiavamo-nos uns nos outros e resistiamos. Agora, deixo me amassar por todos as paredes, que esta tortura distrai-me ao menos do constante pânico da espera...
Finalmente, a cela abre-se e sou puxado. Há luz a toda a volta. Consigo distinguir uns dedos e uma boca gigantes. Os dedos levam-me até à boca que se fecha na minha cabeça...
Mas ainda não estou morto!
Sinto um calor nos meus pés...
um ardor...
é insuportável!
Estou a arder!
Ahhhhhhhh!
Sinto pedaços a cair do corpo e o fogo a consumir-me na direcção da cabeça!
Ahhhhh!
O fogo está muito próximo da minha cabeça!
Os dedos gigantes pegam-me novamente e esmagam-me contra uma superfície dura!
Morri... que alívio!

Do outro lado, surge um anjo que me diz com um ar paternalista:
«Vês? Bem te disse que era má ideia incarnar num cigarro...»

publicado às 00:01
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