De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

10
Nov 08


Já nem sinto os passos. As pernas movem-se por si mesmas sem que eu tenha qualquer controlo sobre elas. Os pés estão pesados, sinto, e arrastam-se pelo alcatrão duro. Está tudo calmo na rua.
Ah! Ali está a minha casa... e sinto-me mais merecedor dela que em qualquer outro momento, depois de tudo o que passei para chegar aqui. Sinto que nenhum outro homem sofreu alguma vez mais que eu.
As minhas roupas são um farrapo. Tenho frio, tenho sede, tenho fome. Percorri quilómetros sem conta, olhado com espanto por onde passava. Não vi faces conhecidas, ninguém me conheceu. Caminhei como um fantasma por pastos verdes e colinas rochosas cobertas de flores agrestes.
Vi-me forçado a atravessar o rio que desce do norte e a enfrentar o grande lamaçal de um vale adjacente. Caí rebolando ao descer uma colina cujos calhaus pontiagudos rasgavam-me como lâminas.
Estou sujo. Estou gasto. Estou perto da morte. Ao menos morrerei em casa, num local conhecido, onde o meu cadáver será identificado imediatamente.
Ainda consigo abrir o portão do jardim, que agora me parece o santuário mais belo e entrego-me a esta benção, esta dádiva a uma pobre alma em decadência. Caio de costas, moribundo, na relva do meu jardim e sinto uma brisa suave na face. Depois, como que salvo por um anjo, sinto água nos meus lábios secos, água fresca, pura, salvadora.
Abro os olhos... é a minha mulher segurando uma garrafa de água na mão.
«Ai querido... tu és sempre o mesmo desorientado! Estás todo esfarrapado! Por onde andaste desta vez? Queres ver que te tenho de oferecer um GPS para a tua corridinha de domingo? Ai ai! Vá, anda lá que o almoço está feito...»
As mulheres são sempre insensíveis ao sofrimento profundo dos homens...

publicado às 00:01
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