De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

30
Jun 08

O tapete rolante acarta as compras de mais um cliente até mim. Passo-as uma a uma pelo leitor de código de barras, expondo-as ao seu halo vermelho-vivo.
No entanto, eu sou um rei. Um povo inteiro debruça-se sobre os seus joelhos flectidos quando a minha imagem se revela ou a minha voz se faz ouvir. Enviados de países estrangeiros, com as suas democracias hipócritas, fazem-me vénias quando os recebo no meu Palácio Diplomático. Os presentes são muitos e variados, mas eu acumulo-os num armazém de luxo, devidamente catalogados por inventaristas e dispostos por decoradores de muito bom gosto que transformaram a minha dispensa no Museu da Coroa, aberto ao meu grande povo.
Eu não minto. Digo tudo o que penso e aceito que falem de mim. O meu povo sabe que não os deixo ficar mal. No meu reino não entram banqueiros, nem há publicidade. Há comércio utilitário, há lojas cheias e gente feliz. O nosso dinheiro tem a minha cara... e que belo semblante é o meu!
Ah! E as mulheres? Ah... Lindíssimas! Delicadas mas de bom espírito forte!
Ah! E os vinhos? E os licores? E o nosso tabaco? Magníficos!
Não os partilhamos. Não corremos esse risco! Não estamos nada interessados em comércio com o exterior. O meu povo está ciente das armadilhas inerentes ao contacto com o mundo nojento fora dos muros do reino. O nosso exército é o mais bem preparado e motivado de todo o mundo conhecido. Ninguém ousa meter-se connosco. Todos nos respeitam! Todos me respeitam! Todos...
«Olh'ó faxavor!»
O meu cérebro regressa ao tapete rolante e à caixa registadora.
«Vem p'áqui dormir?!»
Um dia fodo estes gajos pelo seu desrespeito. Sou um rei! Um dia rebento com esta merda toda...


27
Jun 08

Rancor, rancorosa, feia, mal jeitosa, torta, curta, rabugenta,

rigorosa, ralhosa, ralhante, ranho, ranhosa, rameira, retalho, retrato, retro, vai de retro, vais morrer. Vais morrer.

VAIS MORRER.

 

VAIS MORRER.”

 

Depois de ler aquela passagem pela terceira vez, Lena continuou sem perceber o que significava. Lembrava-se de a ter escrito. Estava no metro a preencher mais uma entrada no seu diário. Lembrava-se de segurar na caneta, enquanto esta arranhava o papel. Lembrava-se da sua mão segura e das palavras que lhe iam surgindo na mente. Tudo fazia sentido, era tudo perfeitamente racional. Mas... de onde tinham vindo as palavras? Esta era a parte que Lena não conseguia perceber. E assim, relia a passagem uma quarta vez.

 

Lena acordou do seu devaneio a tempo de sair na paragem da Alameda. Subiu as escadas e caminhou em direcção à Fonte Luminosa. A avenida estava despida de gente, devido à hora tardia, e ao mau tempo. Lena caminhava depressa para fugir à chuva, mas as palavras que não a largavam, sussurravam baixinho... “Vais morrer... Vais morrer... Vais morrer...” Virou à esquerda, numa perpendicular à Alameda Afonso Henriques. Já só pensava em chegar a casa e ao refúgio que esta lhe prometia, quando sentiu uma dor contundente e repentina na nuca, que rapidamente se alastrou pelo seu corpo. Quase sem um grito, caiu no chão e só então se apercebeu do sangue que lhe empastava o cabelo, antes de se misturar com a água da chuva que corria fora do passeio. Começou a ficar com frio, muito frio, gelada, um gelo de morte. Morte.

 

 

Lena morria devagar, como num embalo. E, antes de fechar os olhos e se entregar àquela última carícia, apercebeu-se que as palavras por ela escritas tinham sido, na realidade, um aviso.

 


26
Jun 08

- Meus senhores, apresento-vos o próximo planeta a conquistar! – Começaram as ovações e os viscosos sorrisos esverdeados – Terra! – O esperado anúncio foi recebido com grande entusiasmo pelos presentes na sala.
Uma voz ergueu-se timidamente:
- Por onde iniciaremos a nossa marcha de conquista?
- Tenho intenções de vos esclarecer do nosso grandioso plano. Começaremos por um pequeno país, Portugal! Durante anos mantivemos espiões, estamos actualmente instalados em todas as suas estruturas políticas e sociais. Continuamos a promover alterações na língua deles para facilitar a sua assimilação, conseguimos mexer os cordelinhos para assinarem um documento que corromperá a sua língua e depois os seus pensamentos.
- Será suficiente?
- Obviamente que não, por isso introduzimos outras estratégias. Todo o povo está hipnotizado com jogos de futebol, telenovelas, jogos online, fogos postos no Verão, políticos corruptos. O que lhes sobra?
Trocaram-se comentários sussurrados pelos presentes, uns acenares de tentáculos, até uma nova interrupção:
- Lamento …
- Identifique-se, por favor!
- A minha identificação não tem grande valor por estes lados, talvez vos interesse mais o que tenho para dizer. Os portugueses não vão ser passivos à conquista.
- São um povo primitivo, pouco fizeram mais do que usar a roda.
- Não é bem assim, a partir do próximo mês já temos o I-Phone – diz isto a retirar uma máscara, revelando um rosto humano – um terror percorre a sala e mais máscaras são retiradas. Das 20 criaturas 13 são humanas.
- Mas como?! Vocês nem conseguem mandar sondas até Marte…
- Meu caro, vencemos sempre. Nós portugueses iniciamos a descoberta do espaço há muito mais tempo do que vocês julgam, e temos espiões em todos os lados em que a vossa cultura toca. Basta de conversas, vamos dar cabo desta escória espacial. Tiros e gritos que não se ouvem no vazio do espaço marcaram o momento, e apenas uma série de cadáveres extraterrestres podem explicar o que aconteceu.


25
Jun 08

É estranho quando olhamos para o espelho,e a cara que vemos não parece ser a nossa.

Ás vezes estamos tão embrenhados na tarefa que estamos a fazer, que nos esquecemos completamente da nossa própria aparência. Simplesmente não pensamos nisso, e a mente arquiva essa informação.

Nessas alturas, ao passarmos num espelho, o cérebro não reconhece o rosto que vê como sendo o seu. Por um segundo, estamos livres da nossa máscara, da visão que os outros têm de nós. Por um segundo livrámo-nos da bagagem que vem com a nossa identidade.

Por um segundo somos livres.

Sempre foi fascinante para mim, esse momento. Suponho que é por isso que dediquei a minha vida a ele, ao estudo da relação entre a imagem e a identidade. Sei que um dia o meu trabalho será reconhecido, e finalmente a humanidade aprenderá a não se deixar definir pelo fisico. Aprenderá que aquele momento de não reconhecimento é o momento em que realmente somos nós próprios, sem adornos nem artificios. E iniciará finalmente o percurso em direcção à cura final da mente e do espírito. Usará a abstracção da identidade como caminho para a Iluminação. E será por minha causa.

Paro em frente ao espelho da casa de banho. Por um momento, não reconheço o rosto. Não é o meu. Por um momento, estou livre. Mas o momento passa, e o reconhecimento volta.

O rosto continua a não ser o meu.

Retiro a pele rasgada de cima da minha cara, com cuidado para não a estragar mais. Limpo o meu rosto, este sim meu, libertando-o do sangue do rosto alheio, que faço por devolver ao resto do seu dono, agora tão morto como o pedaço de pele.

Mas mudo de ideia. Atiro o rosto dele para o lixo. Mesmo morto, ele merece continuar livre.


24
Jun 08

Cristina ouviu chamar ao longe. Prestou mais atenção e, de facto, alguém a chamava. Levantou-se do sofá, onde lia e saiu. O ruído da rua não a impedia de ouvir o chamamento. Alguém, ou algo, a chamava:

Crissttttiiiiiinnnnnnnaaaaaaaaa…. Crissttttiiiiiinnnnnnnaaaaaaaaa …..

e ela foi.

Dirigiu-se para o rio, de onde vinha o chamamento.

Chegada lá, procurou, mas não viu ninguém.

Intrigada, sentou-se na margem e ficou atenta. Concentrou-se. Desapontada, apenas ouvia a água a correr entre as pedras aquecidas pelo sol. O pipilar da passarada esvoaçante também era audível.

Tão concentrada nos sons que a rodeavam, à espera de ouvir o seu nome outra vez, Cristina não reparou na magia que acontecia ao seu lado. Todas as plantas cresciam ao ritmo da sua pulsação: por cada bater do coração dela, os caules pulavam e as folhas alargavam.

Um sentimento desconhecido invadiu-a, provocando-lhe um arrepio que percorreu o seu corpo todo. Teve urgência de abraçar o mundo.

Deixou o seu corpo deslizar na erva fresca e macia e ficou deitada a olhar o céu. Um bando de gaivotas dançava em sua honra. Estonteada, voltou-se de rosto para o chão, abriu os braços lentamente e abraçou a Terra. Sentiu-se comungar com a Natureza e desejou nunca mais se separar. Este sentimento de comunhão foi tão forte que desmaiou.

Entretanto, a flora à sua volta continuava no seu crescimento desmesuradamente e começou a enrolar-se nos braços e pernas da jovem inanimada. Debaixo do seu corpo as ervas afastavam-se para dar lugar à terra limpa e esta, por sua vez, abria-se para ajeitar uma cama para Cristina que ia afundando.

Embora desmaiada, um calor apoderava-se do seu corpo e ela sentia um conforto absoluto. O prazer era tão intenso que derretia, húmida.

Cristina abriu os olhos e descobriu que estava no ventre Mãe.

 

publicado às 00:01
editado por Francesca Cortez às 16:47

23
Jun 08

O disparo projecta o tal som que me é bastante conhecido. De cada vez que o ouço, tento catalogá-lo durante o microsegundo que existe entre a sua ocorrência e a pintura abstracta em que se torna o corpo do alvo. Há quem diga que as Wasp 3A se assemelham realmente a um ninho de vespas irritado por algum intruso. Quanto a mim, fico sempre fascinado com aquele som curto que não consigo encaixar em mais nada a não ser na minha fiel Waspy.
Eu e esta arma estamos juntos há muito tempo. Fiz com ela a recruta. Suei muito com ela junto ao corpo. Tratei-a sempre bem com o amor com que retribuía aquele que sentia dela para comigo. Nela sempre pude confiar. Se no final de um dia árduo me sentia prestes a desistir, falava com ela, afagava-a, limpava-a, desincrustava a camada queimada dos contactos da turbina do seu mini-reactor, cuidava dela, no fundo, como a uma filha... e os Deuses me livrem de ser pai!...
Tornei-me Sargento com ela no coldre a meu lado, orgulhosa e lustrada. Depois veio a crise nas montanhas Wydam e a minha promoção a Tenente e a medalha de bravura. Ela sempre comigo. Sempre bem tratada. Sempre fiel. Sempre amada. Nunca poderei amar um ser humano ou um animal como amo a minha Waspy, pois só ela me entende, me aceita e me pode amar.
O alvo de hoje desfaz-se em sangue e orgãos aos pedaços como todos os outros antes. Não é em nada diferente dos outros; não para mim. Amo o meu trabalho porque amo a minha arma. Se os homens no poder precisam disto feito, eu faço-o alegremente... eu e a minha Waspy. Vivemos felizes, juntos e sem culpa.

publicado às 00:00
editado por Rui Diniz às 09:58
Autoria::

18
Jun 08

300 palavras. (Quase) nunca mais, algumas vezes menos.
Será com 300 Palavras Contadas que nós 5 vos contaremos histórias.
Faremos chegar a vós, 5 vezes por semana de segunda a sexta, as histórias diferentes que nos nossos mundos vão sendo criadas.
Somos diferentes entre nós; 5 seres de individualidade que respeitarão a vossa.
Este projecto é um ser próprio. Nós somos os seus 5 sentidos.
Sejam vós o 6º, dêem-lhe profundidade, tornem-no consciente.
Leiam, comentem e participem
.

Os escritores residentes trazem-vos todas as semanas, no seu dia respectivo, uma nova história original:

Rui Diniz (Segunda-Feira)
Vivendo uma vida recheada de coisas para contar (e tantas vezes difíceis de explicar em palavras!), Rui Diniz é do tipo de pessoas que nos fazem pensar, que nos provocam. Ele incita-nos a ver com os nossos olhos tudo o que passamos a vida a ver com os dos outros.
Ao contrário do que podem deduzir, ele só tem 29 anos...
Cedo revelou qualidades literárias, entre outras. É um rebelde apaixonado, um filósofo, um poeta. Ele escreve procurando a lucidez que tanta falta faz ao ser humano. Passo a passo, a tem encontrado; passo a passo, se tem encontrado.

Francesca Cortez (Terça-Feira)
Francesca Cortez aka Belle Santos aka Frol, leitora compulsiva desde que aprendeu a ler, conhecida pelo sadismo próprio dos professores de Matemática e por ameaçar de morte os seus alunos, iniciou-se nas lides da escrita, tendo apenas como objectivo limpar a alma. Passou, então, a debitar palavras para o papel de forma tão compulsiva quanto as costuma ler.

Luís F. Alves
(Quarta-Feira)
Luís F. Alves gosta de histórias. Qualquer tipo de histórias, desde que bem contadas. É isso que vem tentando fazer nos últimos anos: contar histórias tão bem quanto possível. Poucos dos seus esforços vieram a público, estando esses disponíveis no seu site pessoal. Outros projectos incluem os podcasts O ARMÁRIO DAS CALÇAS (parte do site com o mesmo nome) e NA ESTRADA, para além de participações regulares no blog O OUTRO LADO DOS COMICS. Aguarda-se para breve o lançamento do livro que escreveu em 2006. Embora não se saiba bem quando ou onde.

Jorge Amorim (Quinta-Feira)
Em linhas gerais, Jorge é um ser humano.
Conhecido por despejar ideias em forma de letras por diversos espaços electrónicos, sem qualquer relação com a maçonaria, leitor de comics e super-herói em part time. Junta-se a projecto inovadores para procurar a fama fácil e os rios de dinheiro associados.
Em linhas concretas, Jorge Amorim é o maior do seu bairro (dizem os rumores que é o único a habitar o bairro no momento).

B.T. Estanqueiro (Sexta-Feira)
B.T. Estanqueiro estreia-se na escrita com este blog, depois de anos de ávida leitura de histórias, contos, romances, BD, sci-fi, fantasy e listas telefónicas.
"Quero contribuir para o mundo literário com algo de... escrito." Afirma B.T. Estanqueiro em entrevista.
Ficaremos à espera, com interesse, das suas contribuições, desde que estas não se prolonguem por mais de 300 palavras.


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