De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

28
Nov 08

Estava afastado do grupo quando sentiu o cheiro do predador no vento. Olhou à sua volta sub-repticiamente, mas não conseguiu vê-lo. Entretanto, o cheiro tornou-se mais forte, mais focado. Vinha de várias direcções. Todo o bando o vinha caçar. Sentiu os pelos a eriçarem-se pela espinha e o estômago gelar.

Já observava a presa há algum tempo. Estava nervosa, pois era a sua vez de iniciar a caçada. A besta listada é quatro vezes maior que ela e pode muito facilmente partir-lhe o pescoço. O vento traz-lhe o cheiro a medo da presa, quente e metálico. Está na hora.

A caçada começa com um salto da zebra, que em pânico se arremessa contra a leoa. Esta, saudável e experiente, desvia-se dos cascos do animal ao mesmo tempo que se propulsiona para a frente. Ferra as suas garras no pescoço teso da zebra e morde-lhe a garganta. O animal depressa perde a força nas pernas e cai sobre o peso das três leoas que entretanto se juntaram à primeira na acção.

O cheiro do sangue era inebriante e depressa se viu no meio de um frenético festim com os restantes membros do bando. A carne era fresca, doce e quente. A caçada tinha sido um sucesso. Estava feliz.

Esperavam que os gatos amarelos acabassem de se empanturrar com a besta listada. A estação tinha sido generosa e os restos eram abundantes, por isso não estavam preocupados. No entanto mantinham alguma distância do bando para que não parecesse que estavam esfomeados.

Voara de longe. A carcaça já tinha alguns dias e dela emanava o cheiro virulento da putrefacção. Restavam pequenos pedaços de pele e alguns ossos. Um festim.

Chega a vez do solo se alimentar. Serve-se dos restos mais básicos, os minerais que mais tarde vão, com o Sol, sustentar a erva.

publicado às 12:16
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27
Nov 08

Entre poeira e máquinas, reinava um ambiente cinzento. Os homens que ali trabalhavam, acordavam cedo e só paravam por uns minutos para fazerem as suas refeições e para irem para casa. Ruídos metálicos, cabos eléctricos, cheiros fortes a combustíveis. Por entre aqueles sinais da revolução industrial, passeava-se um rapaz de trinta e poucos anos, barba castanha, aparada. Ele caminhava por ali e deixava os seus olhos curiosos tocarem em tudo o que o rodeava. Registava tudo na sua impecável memória, surpreendendo com um sorriso aberto e olhos brilhantes. Era contagiante. Esse rapaz nunca tinha nascido, era uma personagem de ficção de um conto com apenas cem palavras, chamava-se Ulisses. Veio para a realidade das pessoas sérias para abrir um negócio, com o qual conseguisse estimular a imaginação das pessoas; em duas semanas iniciou o seu projecto e abriu uma loja de brinquedos.
Durante anos, a loja de brinquedos do Ulisses foi o palco de milhares de brincadeiras diferentes. Visitada por princesas em perigo, gigantes cósmicos, elefantes voadores e outras tantas personagens que queriam divulgar os brinquedos que criaram. Todos os miúdos procuravam convencer os pais que ali vivia o segredo da sua felicidade, garanto-vos que nenhum estava a mentir. Passados vinte anos, as pessoas começaram a comentar que o Ulisses não envelhecia, continuava a parecer um rapaz de trinta anos. As suspeitas sobre o dono da loja, influenciou a imagem do espaço e aqueles brinquedos passaram a ser menos visitados. Em três tempos, a loja ficou menos apetecível, as crianças da zona passaram a contar histórias umas às outras: Ulisses tinha feito um pacto com o Diabo para viver para sempre. A Loja fechou, foi vendida a uma grande empresa industrial, Ulisses voltou à sua realidade e, uma vez mais, toda a humanidade perdeu uma oportunidade de sonhar mais alto.

publicado às 12:32
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26
Nov 08

Pareceu mais um final oficial que um recomeço.
Apesar de tudo o que passámos juntos, agora não nos conseguíamos ligar a nenhum nível.
Nem sei porque pensei que fosse de outra maneira. Reencontros de amigos de infância raramente terminam bem. Mas quando, depois de tantos anos afastados, eu e o Manuel nos voltamos a encontrar no Twitter acidentalmente, decidimos encontrarmo-nos pessoalmente para uma cerveja.
Eu já nem me lembrava porque nos tínhamos afastado. Presumo que tenha sido daquelas coisas que simplesmente acontecem. Crescemos os dois, ele foi à vida dele, eu à minha.
E quando nos juntámos, por algum tempo, foi bom. Soube-me bem voltar a vê-lo (está quase na mesma, só que mais velho. E gordo). Demos um enorme abraço. Bebemos cerveja.
Trocámos meia dúzia de palavras sobre o que andamos a fazer actualmente, só mesmo fingindo que queriamos meter a conversa em dia. Mas depressa estávamos a falar das nossas desventuras em conjunto, a rir do nosso passado em comum. A revisitar os bons velhos tempos.
E quando todas as desventuras tinham sido revisitadas... Ficámos ali. A olhar um para o outro.
Eu não fazia ideia do que lhe dizer. Presumo que ele sentisse o mesmo. Tentámos voltar a falar das nossas vidas actuais, mas desistimos. Não encontrámos nada em comum.
Separámo-nos minutos depois. Com um aperto de mão, não com um abraço. E em vez de sentir que tinha recuperado um amigo, fui para casa a sentir que tinha perdido um.
De lá para cá, falámos online mais umas vezes, e até o encontrei na rua por acaso. Somos sempre cordiais um com o outro.
Mas não consigo olhar para ele sem sentir um enorme vazio.
E já não me dá prazer pensar no nosso passado.
Sem querer, tinhamos afogado os bons velhos tempos em meia dúzia de cervejas.

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25
Nov 08

Tudo começou com a compra do seu primeiro vinil, tinha ela 12 anos, lembra-se bem, o single “Portugal na C.E.E.” dos GNR. Desde então todas as migalhas que lhe sobravam da mesada eram gastas em discos. Havia dias que não lanchava e chegava a casa esfaimada tal qual um lobo, apenas para poder amealhar mais uns trocados. Um dos seus maiores prazeres era entrar numa discoteca, olhar à sua volta, dirigir-se à estante, agarrar num disco, olhar a capa, atenta aos pormenores, retirar o disco, cheirar o vinil e mirá-lo à contra-luz no ângulo certo e perder-se na espiral mágica que transporta a música.
Esse ritual tinha lugar no último dia de cada período lectivo, o que tornava o prazer ainda maior: vir do liceu, entrar na discoteca, escolher o disco, levá-lo para casa e ouvi-lo até à exaustão.
Foi assim durante alguns anos.
Foi assim até trabalhar e ter um salário certo ao fim do mês. Já não precisava de juntar as migalhas da mesada e podia comprar todos os discos que lhe apetecia.
Olhando para trás, ela pensa que foi nessa altura que começou a ser controlada por eles. Já não conseguia resistir. Sempre que passava por uma discoteca, algo a empurrava e forçava a comprar um disco, embora consciente que não o iria ouvir, porque já não tinha tempo, pois trabalhava até tarde ou as férias ainda demoravam, ou que já o tinha ouvido vezes sem conta, mas numa edição diferente e tinha que ter outra, ou que já não tinha espaço em casa para tantos discos, nada a demovia daquela compra. Comprava cada vez mais.
E os discos ocuparam toda a sua mente, vida e casa, espalhando-se pelas divisões, cada vez em maior número, afogando-a e enterrando-a, até que, desesperada, fugiu de casa.

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24
Nov 08

«Dão Bello Tinto, que nos diz?» - pergunta Frescco, o Dão Branco.
Bello, o Dão da família Tinto, dirige-se então à mesa:
«A sua família, Branco, em tempos não tão longínquos quanto isso, desafiou-nos, mas eu não guardo rancor. Ainda me lembro das batalhas duras que travámos pelo controlo das Adegas regionais, esses templos sagrados. É assim o negócio. Não foi pessoal, eu sei. É assim mesmo La Tosga Nostra.» - uma pausa - «Depois, com a chegada da família Verde, tivemos de aprender a conviver entre três poderes… conseguimos o equilíbrio.» - sopra fumo do charuto - «Mas agora, uma ameaça maior requer a nossa união. Depois da desrespeitosa invasão dos nórdicos, os Bier, a família Cola, liderada pelos irmãos Coca e Pepsi, e o clã Zevenuppe tem estrangulado violenta e impunemente o negócio das famílias antigas. Até o famoso Martino Rosso, mais conhecido por Ice Tino, anda no nosso encalço. Temos de lutar em conjunto. A nossa sobrevivência depende disso! Devemos aliar-nos.»
Os outros dois líderes entreolham-se. Por fim, os três estendem as mãos direitas e firmam a sua aliança proferindo em uníssono a sigla sagrada: «V.Q.P.R.D.»
«Doravante,» - Dão Branco toma a palavra - «somos os Verde-Branco, os Verde-Tinto e os Branco-Tinto…»
Dão Bello Tinto faz uma careta de desgosto - «Não gosto desse último… devemos encontrar um nome mais… mais…» - uma hesitação longa - «mais colorido.»
«Mais “Rosado”?» - coloca Dão Branco.
«Sim, boa ideia… Rosado… mas, falta alguma finesse, como dizem os franceses…»
Um dos seus jovens guarda-costas atreve-se a intervir:
«Que tal Rosé, Dão Tinto?»
Bello encara-o imediatamente com firmeza, mas depois descontrai.
«Rosé? Sim… Rosé… gosto. E tu, como te chamas, meu jovem?»
«Mateus, Dão Tinto… Mateus…»
E os três olham-no e começam a salivar como se estivessem perante uma lagosta suada.

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20
Nov 08

Aceitei ir a uma festa para não ser sempre visto como um bicho-do-mato. Perdi-me num labirinto de pessoas com copos na mão, encantei-me com as visões que tive de pessoas simpáticas e vistosas. Sorri de forma envergonhada ao cruzar-me com alguns olhares, obviamente estava a sentir-me como um peixe fora de água. Aquele salão magnífico, as pessoas que não conhecia e a bebida que já tinha ingerido, tornaram os meus pensamentos esvoaçantes.

Já não a via há séculos, literalmente. Estes pensamentos foram interrompidos por uma imagem que me pareceu irreal. Precisamente no lado oposto da sala.

A distância não era fácil de percorrer sem dar muito nas vistas. Reconheço aquela pele pálida e os seus olhos doces em qualquer realidade paralela ou plano existencial. Sorriu-me como uma menina simpática e os seus olhos brilharam de entusiasmo. Um reencontro muito desejado, depois destes séculos de afastamento.

Tenho seguido um caminho bem diferente dela, apesar de termos muito em comum. Ambos somos completamente apaixonados pela vida, temos sentido de humor e gostamos de conversar. Pessoalmente só a vi uma vez, mas nunca deixei de pensar nela, é uma presença inesquecível.

Sou daquele tipo de aventureiros que vive afastado da morte o tempo que consegue, apesar de ter uma paixoneta secreta (das grandes) por ela.

Se a minha avó descobre que me apaixonei pela Morte dirá, de certeza: só te apaixonas pelas mulheres erradas, uma delas será o teu fim. A minha avó sempre foi uma mulher muito astuta. Com harmoniosos movimentos aproxima-se de mim e sussurra: - A partir de hoje estaremos juntos para sempre. Quando te sentires preparado dá-me a tua mão.

Estende-me a sua bela mão e entrego-me a ela sem qualquer resistência. Damos as mãos e seguimos, juntos para a eternidade. É aqui que me reencontro com o Amor.

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19
Nov 08

- Siiiimmmm...
Ela estava habituada a alongar as vogais. Era um truque simples para parecer excitada. Na verdade, há muito tempo que ela não se excitava com os jogos deles ao telefone. O hábito começava a tornar-se desgastante. Mas ela entendia a necessidade.
E no fundo, não conseguia libertar-se completamente da expectativa do resultado.
- Siiim. Quero-te bem dentro de mim, uma e outra vez...
Quem a ouvisse diria que ela estava excitadíssima. Quem só a visse, veria apenas alguém com um telefone na mão, tentando despachar a chamada para se poder concentrar nos livros e cadernos espalhados à sua frente. Se lhe perguntassem, e ela tivesse coragem para ser honesta, diria que era uma habilidade de sobrevivência.
- Quero-te por trás, a puxar pela minha cintura, com força! - disse ela. - Gostas disso, não gostas?
- Sim - respondeu a voz do outro lado da linha. - Gosto. Sabes que gosto muito...
A voz dele pareceu mostrar algo que ela não ouvia há muito tempo, e por um segundo, sentiu a esperança a encher-lhe o peito. Largou a esferográfica, virou toda a atenção para o telefonema, e não resistiu a fazer a pergunta que já raramente fazia, muito menos daquela forma sôfrega.
- Estás excitado, querido? Estás, não estás?
- Muito mesmo...
Ela quase nem teve tempo para sentir o seu rosto a enrubescer. A excitação foi instantânea. Largou o telemóvel, correu para o quarto, e abriu a porta.
Ele estava sentado na cama, aparentando nem reparar na entrada dela. Tinha numa mão o comando da televisão, e na outra o telemóvel desligado.
- Então? - Perguntou ela, sem conseguir disfarçar a esperança na voz.
- Nada - respondeu ele. - Desculpa, amor, mas eu só estava a deixar-me ir. Ainda não voltou a resultar.
Ela não disse nada. Cabisbaixa, limitou-se a fechar a porta do quarto, e regressar aos estudos, amaldiçoando-se por se ter tido esperança, e ignorando a pequena lágrima a nascer no canto do seu olho.

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18
Nov 08

Passou a vida a esperar:

Sete meses para nascer, seis anos ler, dezoito para amar e a vida avançar.

Durante a sua espera, à sua volta, vozes alucinadas anunciaram:

O mundo vai acabar! O mundo vai acabar! Deus castigará os maus e salvará os bons! O mundo vai acabar! O mundo vai acabar!”

Passou então a esperar que o mundo acabasse.

“O mundo vai acabar e o não terminarei o sexto ano”, pensou ela, pesarosa.

O mundo… não acabou e a escola… continuou.

“O mundo vai acabar e não terminarei o décimo segundo ano”, pensou ela, desconfiada que andava enganada.

O mundo não acabou e na universidade ela entrou.

“O mundo vai acabar e morrerei virgem”, pensou ela em pânico.

O mundo não acabou e a vida avançou.

Então ela pensou:

“O mundo não vai acabar mas a morte irá chegar.

Vou então viver e tudo na vida absorver…”

Mas, todos à volta lhe diziam:

O mundo vai acabar, ó mulher de pouca fé!

Os ímpios irão sucumbir, apenas os justos viver!”

Romper com tal ciclo foi difícil.

Arrancou o seu primeiro grito de liberdade com suor, lágrimas e sangue. O seu nome rolou pela lama. E jurou a si mesma: “Jamais mentirei!” e nunca mais bateu às portas.

Conheceu o Amor, a Esperança nasceu e a Vida avançou mas a Espera recomeçou.

Esperou por ele para almoçar, para jantar, para a abraçar e para a amar.

Esperou por um olhar, por um toque e por uma palavra.

Cansada,sentido-se mais uma vez enganada, voltou a pensar: “A morte irá chegar, tenho que a aproveitar a vida!”

Arrancou o seu segundo grito de liberdade, agora com lágrimas, ódio e raiva. A si mesma jurou: “Homem algum me matará!”.

Agora, espera abraçar a vida

e que a morte demore!

 


17
Nov 08

Comecei nas escolas do Sacavenense. Fui colocado a avançado e tive uma integração fácil. Fomos campeões de juvenis comigo lá na frente.
Quando cheguei à idade de júnior, um olheiro do Belenenses observou-me e num instante dei comigo vestido de azul e com a cruz templária ao peito. O “mister” punha-me a jogar a segundo avançado, no apoio ao ponta-de-lança. Revelou ser a função em que me encaixo melhor.
Comecei a ser integrado na equipa principal aos poucos.
Numa noite de Novembro no Restelo a minha vida mudou. O Porto vencia por 1-0 e eu entrei a meio. Dei tudo, consegui dois golos e vencemos por 2-1.
Na eterna crise de Janeiro, o Benfica contratou-me para apaziguar os adeptos que falavam muito de mim e, claro, da saída do treinador. Consegui retribuir. Estávamos sete pontos atrás do Porto e cinco do Sporting, mas conseguimos dar a volta e vencer o campeonato.
Na época seguinte, apesar da cobiça de grandes clubes estrangeiros mantive-me junto da equipa. Conseguimos o bi-campeonato, apesar de a minha prestação ter sido menos regular. O mais importante é que, quase vinte anos depois, o Benfica chegava de novo a uma final da Liga dos Campeões.
E aqui estamos em Munique, ante uma equipa forte do Inter que nas meias finais eliminou o super-Manchester. 0-0 e nada que desate este nó.
Até que...
Começo a correr e tiro dois defesas do caminho. Passo ao avançado que tabela comigo. Estou isolado! O guarda-redes sai-se, eu desvio a bola, empurro-a para a baliza! Vai entrar!

PUFF!

Tudo fica escuro com um estalo do disjuntor.
«Oh mãe?! Ligaste outra vez a máquina de lavar ao mesmo tempo do aquecedor?!» - aplico um pontapé certeiro no computador. Golo...

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14
Nov 08

Paulo foi acordado a meio da noite por um leve restolhar, tão leve que por momentos não conseguiu decidir-se se tinha sido real ou se o tinha sonhado. Pouco depois, voltou a ouvi-lo, desta vez mais alto e real. Paulo abriu os olhos, e ergueu a cabeça. O quarto, vazio, estava semi-iluminado pela luz dos candeeiros da rua que lhe entrava pela janela. O restolhar voltou a soar, desta vez um pouco mais alto. Parecia-se com um molho de correntes de ferro enferrujadas a serem arrastadas por um chão de pedra no fim de um longo corredor, e estava a aproximar-se. Paulo sentou-se na cama e tentou perceber de onde vinha o barulho ou que criatura o estaria a produzir. O restolhar parou por uns instantes, deixando Paulo imerso em silêncio e confusão. Quando recomeçou, vindo da cabeceira da cama, era tão poderoso que engoliu todos os sons que lhe entravam pela janela com a pouca luz. Devagar, com medo a queimar-lhe o peito, Paulo virou-se nessa direcção.

A cabeceira, um banco de madeira a suportar um despertador digital e um candeeiro de secretária, continuava na mesma, inanimada. Mas a sua sombra, que se projectava pelo chão e na parede, estava… diferente. Paulo demorou algum tempo a perceber porquê. A sombra estava muito mais escura, de um negro líquido, como o alcatrão. Paulo não resistiu a tocar-lhe. A sombra agarrou-se-lhe à ponta dos dedos, gelando-os, e começou a cobrir-lhe a mão e depois o braço, o tronco e as pernas e a cabeça e finalmente Paulo estava coberto por aquela sombra, aquela escuridão, que o gelava.

 

Amanhece, a sombra desfaz-se, deixando o corpo gelado de Paulo estendido na cama. Ao acordar, Paulo não tem lembranças da noite anterior, mas a escuridão que o tomou, essa continuará para sempre consigo.

publicado às 19:35
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