De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

13
Nov 08

Como tem estado a tua saúde? O cabrão do cão já morreu? Tenho andado preocupado com o bicho, nem me consigo concentrar em matar pessoas. Hoje ia falhando o olho esquerdo do embaixador que tinha que atingir (por sorte o Horácio estava lá para me fazer assentar na terra). Estou sempre com a cabeça num sítio diferente do corpo, talvez seja assim que um dia a minha vida vai terminar.

Eu estou bem, sempre com a polícia a chatear. Tu sabes como é, tal como faziam ao pai. Invadem-nos a casa às tantas da noite, apontam-nos armas e retiram-nos as coisas que nos dão alegria na vida, como o pó. Por vezes, encontram as armas. Que grande porra, começam logo a stressar por ter lâminas com sangue e restos de cadáver debaixo da cama. Com tanta corrupção podiam deixar as pessoas que matam por dinheiro em paz. Estou sempre sem cheta para lhe pagar qualquer coisa e não me largam.

Ontem dei por mim a recordar duma noite de Natal (aquela em que a Alzira cortou o dedo), nessa noite disseste à família toda que eu era o maior monte de merda que conhecias, mas que seria sempre o teu filho, o único ser humano que realmente amaste. Na altura, não entendi muito bem. Aquilo fez-me confusão, esperava que tivesses algum orgulho em mim. Não sou como o mano, que é político e rouba sem ter chatices. Nesse dia, quando fiquei sozinho no quarto, chorei que nem um puto por amamentar.

Lamento que tenhas amado um monte de merda, apenas quero que saibas que sou dos melhores naquilo que faço. Poucos matam como eu.

Deixo-te aqui um muito obrigado por me teres permitido ser filho de alguém. E que nunca ninguém ouse fazer algum trocadilho com esta frase…

publicado jjnopants às 08:35
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12
Nov 08

A Grande Máquina saíra do céu, e estava directamente por cima dele. Os ângulos eram bizarros, por isso era difícil discernir, mas dir-se-ia que apontava para ele. Só teve tempo de pensar uma única palavra, a única que inconscientemente decidira estar à altura daquilo que via:
"Deus?"
Um raio cor de rosa, fino como o dedo de uma criança, saiu da Máquina e atingiu-o directamente no centro da testa. A palavra foi-se da sua mente. A informação que lhe estava a ser transmitida eliminou a sua capacidade de pensar em palavras. O Conhecimento que lhe estava a ser transmitido ia bem para além da linguagem humana.
Mas ele Soube. Soube o que era a Máquina, que não era Deus, nem Deus estava dentro dela. Soube a natureza do Universo, o propósito da Grande Máquina, e o da Máquina Maior a que ela, e ele, pertenciam.
Num instante, ele soube. Tudo.
E no instante seguinte, a Máquina fora-se, e ele estava outra vez reduzido à sua humanidade. O Conhecimento, no entanto, estava ainda com ele. Temeu por um momento que o viesse a esquecer, ou a interpretar mal, mas depois soube, dentro de si, que isso já não era possível. O Conhecimento fazia parte dele.
Olhou à sua volta. Não estava ninguém por perto. Sentou-se no chão, encostado a uma árvore, gozando a sensação da terra e da relva, tanto directamente na sua pele como através da sua roupa.
Tirou um cigarro do bolso, e acendeu-o. O gosto não mudara, mas soube-lhe melhor do que estava habituado.
Uma ligeira brisa levantou-se, e acariciou-lhe o rosto. Ele fechou os olhos, deu mais uma passa no cigarro, com a sua outra mão na relva, deixando-se levar pelas sensações.
Passou ali o resto da tarde, sorrindo. Sem pensar em absolutamente nada.

publicado jjnopants às 00:01
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11
Nov 08

Susana era uma verdadeira totó, pisada a torto e a direito por todos e incapaz de dizer não a quem quer que fosse, não conseguia impor nem um migalha da sua própria vontade. Havia quem dissesse que a sua bondade era imensa, o seu coração generoso, mas no fundo ela era simplesmente totó. Um dia, a morte chegou; inesperadamente para uns, aqueles que se aproveitavam dela; tarde de mais para si própria, exausta de tanto dar e nada receber.

Enquanto vivia, todas as suas acções eram observadas, ao pormenor, pelos deuses que se reuniam em Koylimpo. A sua totozice era o tema aglutinador das imensas conversas divinas regadas com o néctar de Bacolique.

Agora que estava morta era necessário decidir o que fazer com a sua alma. Grande discussão divina, sem acordo à vista, embora Bacolique se preocupasse, pois o fundo das ânforas já se via. 

De repente Dadolique lembrou-se de lançar um dado para decidir o futuro daquela alma:

- Seria reencarnada numa gata, filha, neta, bisneta e tetraneta de gatos semi-selvagens, nunca domesticados na totalidade.

Sakura nasceu, cresceu e foi adoptada por duas irmãs liberais e simpáticas. Os deuses escolheram bem o corpo onde voltou a viver. Nunca mais ninguém a pisou, nunca mais ninguém lhe impôs vontades, nunca mais disse sim, quando no fundo lhe apetecia dizer não; aliás, “não” era a sua palavra preferida, que soava aproximadamente a Nhãããuu. Passou a dominar todos ao redor. Quando dormia e alguém se atrevia a acariciá-la, acordava para arranhar e morder, apenas para lembrar quem Ela mandava.

 

Mas parte da totozice de Susana transmigrou para Sakura.

De noite, abandonava o calor e o conforto da sua casa no Areeiro e mergulhava na escuridão lisboeta, caçando ratos, osgas, pássaros incautos e outros bichos nojentos, limpando a cidade das suas pragas.

publicado Francesca Cortez às 00:03

10
Nov 08


Já nem sinto os passos. As pernas movem-se por si mesmas sem que eu tenha qualquer controlo sobre elas. Os pés estão pesados, sinto, e arrastam-se pelo alcatrão duro. Está tudo calmo na rua.
Ah! Ali está a minha casa... e sinto-me mais merecedor dela que em qualquer outro momento, depois de tudo o que passei para chegar aqui. Sinto que nenhum outro homem sofreu alguma vez mais que eu.
As minhas roupas são um farrapo. Tenho frio, tenho sede, tenho fome. Percorri quilómetros sem conta, olhado com espanto por onde passava. Não vi faces conhecidas, ninguém me conheceu. Caminhei como um fantasma por pastos verdes e colinas rochosas cobertas de flores agrestes.
Vi-me forçado a atravessar o rio que desce do norte e a enfrentar o grande lamaçal de um vale adjacente. Caí rebolando ao descer uma colina cujos calhaus pontiagudos rasgavam-me como lâminas.
Estou sujo. Estou gasto. Estou perto da morte. Ao menos morrerei em casa, num local conhecido, onde o meu cadáver será identificado imediatamente.
Ainda consigo abrir o portão do jardim, que agora me parece o santuário mais belo e entrego-me a esta benção, esta dádiva a uma pobre alma em decadência. Caio de costas, moribundo, na relva do meu jardim e sinto uma brisa suave na face. Depois, como que salvo por um anjo, sinto água nos meus lábios secos, água fresca, pura, salvadora.
Abro os olhos... é a minha mulher segurando uma garrafa de água na mão.
«Ai querido... tu és sempre o mesmo desorientado! Estás todo esfarrapado! Por onde andaste desta vez? Queres ver que te tenho de oferecer um GPS para a tua corridinha de domingo? Ai ai! Vá, anda lá que o almoço está feito...»
As mulheres são sempre insensíveis ao sofrimento profundo dos homens...

publicado jjnopants às 00:01
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07
Nov 08

Rafael conseguira chegar onde mais ninguém chegara antes dele (e possivelmente depois dele!): à ultima pergunta do concurso da TV “Quem Quer Ser Estupidamente Rico?”. Entre ele e uma pipa de massa estava apenas uma perguntinha. Já tinha esgotado todas as ajudas disponíveis, por isso ganhar ou perder estava inteiramente nas suas mãos. Rafael sentia a pressão da responsabilidade a comprimir-lhe os rins. O público fervia de antecipação na plateia e Mariana, a sua namorada, choramingava para um lenço de papel.

Tinha sido uma tarde esgotante de gravações e Rafael começava a sentir a falta de açúcar no sangue. Rafael naquele momento sentia tudo, o zunido do ar condicionado, o suor que lhe colava o rabo ao forro de napa do banco, que por sua vez era incrivelmente desconfortável, e fazia-lhe doer o rabo e as costas, um formigueiro que lhe crescia pelas pernas acima (provavelmente por causa da porcaria do banco!) e os olhos da namorada a queimar-lhe as costas com a promessa de passarem as férias a deambular por Nova Iorque.

Raios parta o Apresentador que nunca mais chama a pergunta!” pensou Rafael, que se começava a cansar da lenga-lenga incessante sobre o que faria ele com o dinheiro, se o ganhasse claro está!

Rafael! – começou o Apresentador – para poder ganhar o concurso “Quem Quer Ser Estupidamente Rico?” e levar para casa cem mil euros tem de responder a esta pergunta.

Finalmente!”

Rafael, para cem mil euros, diga-me: No blog “Palavras Contadas”, qual é a história que descreve a sua participação final neste programa?

Mas que merda de pergunta é esta?” Rafael sentia-se ultrajado pela injustiça e estupidez da situação “Filhos da mãe! P…”.

Inesperadamente, Rafael sentiu-se como se estivesse entre dois espelhos, a ver uma corrente de reflexos que se perdia no infinito. Então respondeu:

Ahhh… Centésima?!?

publicado jjnopants às 00:01
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06
Nov 08

A Luísa tinha um velho espelho de família mesmo à entrada da porta, adorava ver-se ao espelho. Com o avançar da idade passou a gostar menos de se ver. Já o seu marido Alberto era diferente, raramente olhava para um espelho mesmo quando era novo. Os espelhos mexiam com ele a um nível interno, como se quisessem ter uma conversa em particular. Ficou contente quando a sua esposa lhe pediu para o guardar na Cave.

Estava a descer as escadas, quando o espelho fugiu-lhe das mãos trapalhonas, e ao tocar no chão dividiu-se em pequeníssimas partes. Em vez de sete anos de azar ficaram ali dezenas de pequenos espelhos a reflectirem o corpo envelhecido do Alberto. Reflexos de diversas formas como se fossem diferentes formas de o olhar, talvez por isso se deixou ficar a olhar para eles. “Quantas vidas podem um homem viver?”, pensou e deixou-se responder, “Tantas como as estrelas no céu”.

Versões e versões de versões dos seus momentos poderiam existir em outras realidades sem que soubesse. E se as conhecesse pessoalmente? Seria bom?

Imaginou-se casado com uma diferente mulher, com outra profissão, com outros pensamentos, enfim outras vidas. E aquelas vidas pareciam-lhe tão próximas que se deixou ficar nelas até os seus olhos se fecharem ao mundo físico. Embalado com diferentes e doces experiências de ideias deixou-se sonhar com outros homens que podia ter sido.

Muitos destes possíveis recantos existenciais já tinham sido visitados por ele. Estremeceu ao pensar em tantas coisas boas que poderia ter alcançado sem grande esforço. Sentia-se desiludido pelo facto de ter gerido a sua vida com pouca imaginação. Assumiu a responsabilidade de desenvolver a sua imaginação e expandir a consciência para poder ter uma existência mais rica. Foi isso mesmo que aconteceu, mas vocês que têm imaginação já sabem como é.

publicado jjnopants às 08:32
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05
Nov 08

- É a minha mulher que os faz. - disse ele, com mais naturalidade do que eu esperava. - Já uso mp3 de percussão binaural, com ou sem mensagens subliminares, há anos. Tinha montes de fobias. De todo o tipo. E comecei a procurar maneiras de programar a minha mente, de romper o condicionamento avariado, por assim dizer.
- E foi logo para os mp3? - perguntei.
- Sim e não. A minha ideia era encontrar hipnotizadores baratos, mas entretanto, aconteceram duas coisas. Conheci a minha esposa, por quem me apaixonei logo, e descobri um mp3 de auto-hipnose na internet, que supostamente eliminava a timidez. Comprei-o, e foi o melhor investimento que fiz na minha vida! Depressa ganhei a coragem para a conquistar, e logo por sorte, um dos hobbies dela é a manipulação de sons. Ela gostou do conceito, e de lá para cá, tem-me feito os mp3 de que vou precisando para ir eliminando todos os meus problemas psicológicos, um de cada vez. Estamos a pensar comercializá-los, até!
Despedimo-nos, e ele foi-se. Eu fiquei na esplanada, à espera da mulher dele, para uma entrevista separada.
Ela chegou minutos depois. Respondeu às minhas perguntas, e basicamente contou a mesma história. No final, ocorreu-me algo que não resisti a perguntar.
- Portanto, você faz-lhe os mp3, com a sua voz, e sons programados por si, certo? Seja sincera: nunca lhe ocorreu condicioná-lo secretamente para algo que a beneficiasse a si?
Ela apontou para o meu gravador. Compreendi, e desliguei-o.
- Não faria diferença - respondeu. - Ele acredita que os mp3 têm mensagens subliminares especificas, mas não têm. Nem sequer têm voz nenhuma. Ele não sabe, mas usa o mesmo exacto mp3 há anos, para tudo.
- Então... Anda a enganá-lo desde o inicio?
- Não. Eu ajudo o meu marido a curar-se a si mesmo. E não terei remorsos se um dia isso me custar a confiança dele.

publicado jjnopants às 00:01
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04
Nov 08

Não se percebe.

É que não se percebe mesmo.

Toda a sua vida procurou o Tal - horrores que ensinam às criancinhas, mal acabam de tirar os cueiros!

Pensou tê-lo encontrado, casou-se e tudo - cozinhou todos os dias, lavou roupa, estendeu-a, apanhou-a e passou-a a ferro, arrumou e limpou a casa, tratou dele, amou-o, honrou-o e foi-lhe fiel todos os dias da sua vida, para o bem e para o mal…, tudo à espera de Amor…, tratou dele com a esperança que ele tratasse dela…

Mas afinal ele não era o Tal.

Afinal, aproveitou-se da inocência e ingenuidade dela e fez-se maior, superior a todos; pensou que era o maior lá da aldeia.

E ela deixou-o espezinhá-la, pois não o podia perder, porque pensava que ele era o Tal.

Comia restos de afecto, migalhas de amor e espinhas de atenção.

Com o coração magoado, muitas vezes o empurrou da cama quando ele chegava tarde. Ele ia para a outra cama do outro quarto. Ela, porque pensava que ele era o Tal, ia atrás dele, a suplicar-lhe perdão e a pedir-lhe, quase de joelhos, que voltasse para a cama.

A vida dela era insuportável, viver com aquele homem que a desprezava, sempre a pensar que era o Tal, pensando que a vida seria impossível sem ele, que mais ninguém a amaria do modo que ele o fazia, sim, porque durante este tempo todo ela estava convencida que ele a Amava.

Até que acordou do seu marasmo, da sua inércia e da sua estupidez amorosa. Acordou, olhou para ele e não viu o Tal, viu apenas um homem mesquinho e egoísta. Frustrada por ter dado décadas da sua vida a este homem, quase se suicidou. Enfiou-se, então, dentro de um casulo protector e quando teve força, divorciou-se.

publicado jjnopants às 00:01

03
Nov 08

«Ora então, o que sabe fazer?» - a pergunta da praxe.
Trabalho no Centro de Emprego desde que me conheço. Até, por vezes, parece que não sei fazer mais nada. Mas sei!
«Eu preciso é de pagar as contas, sabe? Veja lá uma coisa jeitosinha...»
Se eu tivesse um Euro por cada vez que ouvi isto já não trabalhava aqui. Estou farto disto. Eu também preciso de pagar as contas. Eu também preciso de “uma coisa jeitosinha”... e o que me desgraça é que já a tenho.
«Ora bem, temos aqui um contracto à experiência de seis meses para um armazém em Setúbal. É rijo, mas pagam bem. Começa por 600€ e depois logo se vê.»
Sinto sempre vómitos quando tenho de forçar esta máscara de “esmolista”. Sou nojento... vendo trabalho de merda a quem não tem alternativa de sobrevivência.
«Parece-me bastante bom!» - o homem sorri abertamente - «Acho que fico já com esse.»
Ao final de tantos anos já nem me devia surpreender - «Ah sim? De certeza que não quer ver mais nenhum?»
«Absoluta. A não ser que tenha aí algo que pague mais de 600 para quem só tem o 9º ano...»
Confirmo sumariamente no computador.
«Não há.»
«Fica essa! Eu até moro em Setúbal! Pago 250€ de quarto e ainda me sobram 350€. Daí pago a alimentação – sou homem de pouca comida – e nem preciso de comprar passe! É... esse trabalho vai dar-me uma liberdade maior. Ainda vai sobrar algum ao fim do mês.»
Repito: ao final de tantos anos já nem me devia surpreender. Ele está mesmo contente. Ele não sabe que é oprimido, ele ainda não libertou a mente! Eu sim!... Mas também tenho de pagar as contas...
Grandes cabrões... A civilização actual faz o escravo sentir-se livre e o livre sentir-se escravo...

publicado jjnopants às 00:01
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