De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

30
Jan 09

 Manuel Barroso é um homem regrado por hábitos. Levanta-se todos os dias às sete em ponto. Calça os chinelos, colocados com precisão no lugar, e dirige-se à casa-de-banho, onde inicia a sua higiene diária lavando os dentes. Seguidamente despe o pijama (que é cuidadosamente dobrado) e toma um duche rápido.

    Manuel seca-se sempre começando pela perna direita, seguindo-se a esquerda, depois o tronco, as costas e finalmente a cabeça e os braços. Depois de seco, barbeia-se. Segue-se o meticuloso ritual da vitualha após o qual, um respeitável senhor Barroso sai do quarto envergando o seu impecável Fato Cinzento.

    O pequeno-almoço, preparado pela mulher, Albertina, ainda de chinelos e robe vestido, é tomado segundo o estilo inglês, com um ovo cozido, torradas, marmelada e café.

    Às oito menos cinco, Manuel Barroso sai de casa para apanhar o autocarro das oito e sete, que o leva, por entre vilas e lugarejos, em direcção à cidade.

    Manuel adora a sua rotina. Adora a estabilidade que esta trás à sua vida e o resguardo que proporciona dum mundo que cada vez o desgosta mais.

    Certo dia, Manuel vê a sua preciosa rotina ser ameaçada. Esperava pelo autocarro na paragem quando ouviu duas senhoras comentar a supressão da carreira 251. A sua carreira. Manuel fez a viagem atormentado por imagens de manhãs diferentes nos seus mais variados pormenores. Na cidade, as suas pernas levam-no por um caminho diferente, até ao Departamento de Transportes Municipais da Câmara.

    “Bom dia. – diz Manuel - A carreira 251 vai ser suprimida?”

    “Sim.” – responde-lhe a atarefada jovem por trás da secretária, sem o olhar.

    “Não podem… é a minha carreira. É…” Manuel sente-se sufocar, tenta chegar à gravata, mas os dedos perderam a força. Sente uma dor terrível no braço e colapsa no chão de coração partido.

publicado às 14:11
Autoria::

29
Jan 09

A Marta rabisca pequenos contos desde que aprendeu a arte da escrita. Contos sobre sonhos nocturnos e diurnos, animais falantes e fadas misteriosas. Na adolescência dedicou-se à leitura e escrita da poesia. Encadeava palavras para ressoarem harmoniosamente na sua alma, para depois as tornar acessíveis a todos. E cada um que a lia ficava encantado e ficava com vontade de deixar a sua imaginação funcionar. 
 
Aos 30 anos passou a ser escritora profissional e com a sua escrita pagava as suas contas. Esforçava a imaginação para escrever. Obrigatoriamente tinha de escrever três romances por ano, como indicava o contrato com a sua editora, pormenor constantemente relembrado sempre que lhe apetecia parar. Pela sua escrita interminável arranjava tempo para estar com quem gostava. Nunca deixou de acompanhar os seus filhos na escola ou de ser romântica com o homem que tinha conquistado o seu coração. Simplesmente transformou a sua paixão de escrever num mal necessário.
 

Quando se sentava para escrever, sentia o peso da obrigação a penhorar as suas palavras, começava a pensar a ausência de euros na conta bancária se as suas palavras deixassem de ser escritas e as histórias deixaram de ter magia. 

E que eco deixam as palavras que escrevemos se as dizemos tão baixinho que mal as ouvimos? 
 
Ia muito bem no meio de uma frase ("Procurei-te em vão pelos bosques...") quando a sua mente bloqueou. A respiração tornou-se difícil e uma sinfonia repetitiva soou fortemente  nos tímpanos. Voltou a pensar seriamente em deixar de escrever, lá voltou a sensação de obrigação. Decidiu ser escrava da profissão.  

Dormiu sobre a sua decisão. No dia seguinte podia tê-la mantido mas esta é uma história sobre uma mulher corajosa. Para salvar o amor pela escrita, optou por deixar de escrever por obrigação e até hoje a sua escrita não conhece qualquer forma de grilhão.

publicado às 00:01
Autoria::

28
Jan 09

O carteiro chegou à hora do almoço. A altura não podia ser pior.
Ele bateu à porta, e a minha cunhada foi atender, deixando o resto da familia lá sentada. Quando voltou para dentro, trazia um envelope cheio e almofadado na mão.
- É para ti - disse-me.
Sem me levantar da mesa, peguei no envelope, algo desconfiado. Não estava à espera de nenhuma encomenda, e o remetente era de uma qualquer editora que não me era familiar.
Abri o envelope, e olhei lá para dentro, não mostrando o conteúdo, apesar da óbvia curiosidade do resto da família. E o conteúdo não me podia ter espantado mais.
- O que é? - perguntou a minha mãe.
- Hã, são coisas para mim, nada de especial. - Levantei-me da mesa, falhando em esconder o meu embaraço.
Dirigi-me para o meu quarto, onde poderia guardar discretamente o conteúdo do envelope, enviado sabia-se lá por quem. Mas movida pela sua costumeira curiosidade, a minha mãe seguiu-me.
- Pois, para não quereres dizer, deve ser linda coisa.
Pronto. Se ela queria saber, tudo bem.
- É uma caixa de 12 preservativos, um anel vibrador, e uma bisnaga de lubrificante, mãe.
Ela parou por um segundo, supreendida. Mas só por um segundo.
- Posso ficar com o lubrificante?
Agora surpreendido estava eu.
- Mãe, isto só dá para sexo. Mais nada.
- Eu sei. Posso ficar com ele?
Nem sabia que mais dizer-lhe. Dei-lhe a bisnaga, sem palavras, e ela levou-a sem dizer mais.
Eventualmente, pesquisei o nome da editora, e descobri que o envelope me tinha sido enviado por uma revista para homens, como prémio por ter respondido a um inquérito.
Foi simpático da parte deles, mas algo inutil, porque eu acabei por deitar tudo para o lixo.
Não ia conseguir usar nada daquilo sem pensar na minha mãe.

publicado às 00:01
Autoria::

27
Jan 09

Sempre me perguntei o motivo que levava um gato a atravessar a estrada a correr mesmo na altura em que um carro circulava. Poderia ser uma tendência suicida, talvez um desgosto amoroso ou urgência em chegar a casa com saudades da ninhada.

Confesso que matei alguns gatos desse modo, sem hipótese de travar. De repente, aparecia um gato, qual seta, a desafiar a velocidade do meu carro. Alguns venceram. Infelizmente, outros foram vencidos pelos cavalos incansáveis do motor.

Decidi, então, gastar algum tempo a descobrir a razão deste comportamento bizarro. A pé ou de bicicleta comecei a passear nas estradas onde apodreciam alguns cadáveres de gatos. E comecei a notar que nas bermas havia grupos de gatos. Barulhentos e irrequietos: um ou dois gatos no meio do círculo, tremendo com um ar assustado, acossados. À sua volta dançavam e riam os outros gatos. Quando me pressentiam, todos fugiam.

Curiosa, comecei a voltar a esses locais, ficando sentada horas, escondida, à espera dessas reuniões felinas. Assim, consegui ver (juro que vi!) por quatro vezes, o mesmo comportamento colectivo.

Um, dois ou três gatos novinhos, tremelicando de medo eram acossados pelos machos mais velhos, os alfa, beta ou gama. Estes andavam em círculos a miando-lhes histericamente. Pontualmente, um ou outro se aproximava dos mais novos e miava, rindo com vontade, perto da cara do outro, que não se atrevia a responder. O auge desta dança diabólica acontecia sempre que se ouvia o aproximar de um carro.

Então, em terror absoluto, um dos novatos atravessava a estrada, correndo pela vida, esperando que a sua agilidade fosse maior que a velocidade do monstro de quatro rodas que se aproximava e que os outros deixassem de lhe chamar MARICAS!

Às vezes a corrida acabava mal, os mais velhos encolhiam os ombros e iam embora.

publicado às 00:01

26
Jan 09

O pescador remenda uma rede, sentado na areia.

«Ora viva! Belo dia!»

«Os dias no meu quintal são todos belos.»

«Quintal?»

«Quando éramos miúdos vinham pescar-nos às aldeias para entrarmos nas lides. Era bom trabalho! Era digno! Toda a gente dizia. Quando lá, aguentávamos anos de aprendizagem suada, todos os dias, começando bem cedinho, com a miragem de, no futuro, termos o nosso próprio barco, ou mesmo uma pequena frota! Quando conseguíamos, por sorte e muito labor, ter o nosso barco, sermos patrões, eles vinham pescar a sua parte... impostos... mas deixavam que os poucos que aí chegavam, como eu, pudessem ainda assim prosperar e chegar ao sonho de ter uma frota de pesca, com uma empresa e um escritório e tudo... É só então que a verdadeira pesca vem. Com taxas para isto, quotas para aquilo, desculpas com a Europa... enredam-te, amanham-te, cozinham-te e comem-te! Ficas velho, como eu, agarrado às espinhas da tua vida, forçado a viver sem casa... mas eu sobrevivi e encontrei casa aqui.» - aponta para uma pequena gruta, levantando-se - «Segue-me.»

«Mora ali, é?»

«Sim, também.»

«O que faz agora?»

«Ainda sou pescador... é ofício que nunca se larga.»

A luz do dia não acedia à gruta. Um cheiro estranho emanava lá de dentro.

«Cheira a podre...»

«Pois cheira... é assim que ficas, é assim que te deixam... podre, após uma vida inteira de serviço.»

«Mas quem? O governo?»

«O governo? Esse também é pescado.»

«Então quem é que nos pesca a todos?»

O homem encolhe os ombros, sorri e acende um isqueiro.

A imagem grotesca de corpos humanos em decomposição invade os olhos do rapaz. Pânico. Os sons ficam presos na garganta.

«É aquele todo-poderoso a quem obedecemos dentro e fora de nós próprios!»

E mais uma vida caiu nas redes do pescador.

publicado às 00:01
editado por Rui Diniz em 07/01/2009 às 10:12
Autoria::

23
Jan 09

António, sentado no borralho, comia a janta do pobre, sopa e broa, não por necessidade mas por avareza, já que tinha um gordo maço de notas enterrado, ao lado da oliveira, dentro de um tacho. A divisão era iluminada pela fogueira. António só ligava a luz aos domingos, para poupar na conta da electricidade. Olhava o fogo enquanto comia. Lá fora o nevoeiro, espesso como natas, ameaçava infiltrar-se pelas frestas da janela e arrefecer-lhe a casa. Acabou o copo de vinho tinto e deitou mais uma cavaca à fogueira. Estendeu uma esteira à beira do borralho e ai se deitou aquecido pelo fogo.

    Acorda sobressaltado antes de amanhecer. Sonhara que alguém o olhava através da janela da cozinha, vindo do nevoeiro. António está com frio, já que da fogueira moribunda pouco calor se liberta. Levanta-se e recolhe as brasas escondidas por entre as cinzas. Olha pelo canto do olho para a janela, como que a confirmar que o sonho já tinha terminado. O sol começara a raiar, a sua luz ténue difundida pelo nevoeiro tornava-o menos desconsolado. António chega-se à janela. O coração ainda lhe pesa do sonho e agora começa a ser apossado pelas memórias da mulher. Foi a sua desgraça casar-se com uma mulher assim, que só gastava. Mas livrou-se dela a tempo.

    António assim fica, preso no passado, até ser despertado por um vulto no nevoeiro. Sai de casa disparado convencido que lhe tinham roubado o dinheiro. Corre atrás do vulto gritando impropérios. Aos seus ouvidos chegam-lhe gargalhadas e risinhos.

    “Estão todos contra mim. Todos! Tudo atrás do meu dinheiro!”

    

António, cego pela avareza, corre atrás de um vulto no nevoeiro. Corre até cair da mesma falésia de onde empurrara o irmão, a esposa e um vizinho. Matou-os por dinheiro, e por dinheiro morre António também. 
publicado às 11:46
Autoria::

22
Jan 09

Sussurraram ao ouvido do Ruben, de uma forma sedutora, que tudo tinha um preço. Podia ser um preço alto ou baixo mas tudo o tem. Ele tinha então 16 anos mas esta conversa ficou sempre a pairar na sua mente. Por reacção devolveu uma questão: As pessoas também têm preço? 

A resposta acompanhou uma gargalhada: "Quanto mais viveres mais vais conhecer a resposta à tua pergunta!" 

Viveu duas décadas a pensar no tema. Parecia um absurdo considerar pessoas etiquetadas com um preço, a comportarem-se de acordo com o pagamento (seja de que natureza for), a apagarem sonhos deliberadamente por valores numéricos. Os seus pais sempre lhe disseram que não era assim. De alguma forma o seu desenvolvimento sempre foi no sentido de acreditar no melhor das pessoas (mesmo sabendo, que nem sempre agem assim, decidiu acreditar na melhor possibilidade, porque ela também ocorre). 

Mas o que daria o Ruben para poder voar como um pássaro? O seu maior sonho. 

Já tinha reparado num melro que insistia em carregar uma pedra com o dobro do seu peso. Um pássaro tão elegante que raramente saía do sítio, só a sua mente continuava a viajar por diversos planos da existência (notava-se pelos olhos pretos cintilantes). 

Ruben ponderava como seria bom voar, perguntou ao melro como era essa sensação. A resposta foi um pouco desanimadora, nunca tinha voado pois não suportava o peso da pedra, voava apenas em sonhos. 

Porque não deixava a pedra? Fora uma responsabilidade que assumira e já nem se lembrava porquê. Que bizarro! Inventar uma forma de limitar a própria natureza. 

Acordou, olhou para o espelho, e viu o melro com pedra que tem sido. Pousou a pedra para aprender a voar, sem ter que vender a alma para o fazer. Havia preços que não estava disposto a pagar.

publicado às 00:01
Autoria::

21
Jan 09

Há dias em que mais vale não sair da cama.
Hoje, por exemplo, foi o dia da votação da legislação sobre a venda de brinquedos sexuais. Querem impedir que sejam vendidos em lojas genéricas, ou em estabelecimentos próprios, sob o pretexto de "preservar a sensibilidade moral do público". O que é ridículo, vindo do monte de devassos que nos governam. Mas eles gostam de armar-se, e quem sofre são os donos de sexshops, que têm que abrir falência, e os consumidores de produtos sexuais, que têm que passar a comprar na internet. Enquanto eles não proibírem  isso também!
Sendo um acérrimo defensor das nossas liberdades sexuais, juntei-me à manifestação de protesto desta tarde.
Éramos uns milhares de pessoas. Menos que o desejável, mas suponho que é complicado movimentar milhões em defesa dos brinquedos sexuais.
Mesmo assim, os ânimos estavam exaltados. Alguns tipos apareceram vestidos de genitália, e houve um ou dois que mostraram mesmo o material deles.
E a polícia cercou-os.
Eu passei-me. Sem pensar, subi a intensidade do protesto. Já percebo aqueles tipos que se imolam pelo fogo. Os calores sobem-lhes à cabeça. Foi o que me aconteceu.
Agarrei no meu pénis, peguei numa cerveja, reguei-o com ela, e deitei-lhe fogo.
Como protesto, percebem? A ideia era apagá-lo, mas porra, como é que eu ia pensar que NINGUÉM ia levar água para uma manifestação?
O certo é que toda a gente ficou a olhar para mim. Mas aquilo começou a doer-me, e eu entrei em pânico. Desatei a correr. Empurrei um tipo, que também tinha uma cerveja, e ficou com a roupa toda molhada. E as chamas da minha pila deitaram-lhe fogo à roupa. Ele entrou em pânico, e correu para a estrada.
Um carro passou-lhe por cima.
De forma que fui preso, acusado de homicidio involuntário. E com a pila queimada.
Devia ter ficado na cama...

publicado às 00:01
Autoria::

20
Jan 09

Bateram à porta.

Foi ver: era um homem magrinho, sem eira nem beira; deixou-o entrar, deu-lhe comer, vestiu-o e casou-se com ele. 

Bateram à porta.

Foi ver: era um gato bebé, não mais que cinco semanas, a miar com fome; deixou-o entrar, deu-lhe comer e chamou-lhe Tareco. 

Bateram à porta.

Foi ver: Era uma cadela, pequena, suja, com fome; deixou-a entrar, deu-lhe banho, escovou-lhe o pêlo, alimentou-a, chamou-lhe Xica e arranjou-lhe dono. 

Bateram à porta.

Foi ver: era uma menina com uma gatinha na palma da mão a pedir-lhe para salvá-la; tirou-lhe a gata da mão, deu-lhe biberão, limpou-lhe a barriga e chamou-lhe Riscas. 

Bateram à porta.

Foi ver: era uma cadela boxer, esfomeada, com feridas infectadas, que mal podia se por em pé; deixou-a entrar, deu-lhe comida, curou-lhe as feridas, tirou-lhe as pulgas e chamou-lhe Magui. 

Bateram à porta.

Foi ver: era uma menina bebé, dentro de um cestinho, sem pai nem mãe; agarrou no cesto, deu biberão à bebé, mudou-lhe a fralda e chamou-lhe Filha. 

Bateram à porta.

Foi ver: Eram as amigas do senhor magrinho que tinha inchado de importância; deixou-o sair e divorciou-se. 

Bateram à porta.

Foi ver: Era um cão, bebé, abandonado, com fome; deixou-o entrar, deu-lhe banho, mimou-o, alimentou-o, chamou-lhe Boby e arranjou-lhe dono. 

Bateram à porta.

Foi ver: Era um senhor a pedir atenção; deixou-o entrar e amou-o. 

Bateram à porta.

Foi ver: Era a vida à espera deste senhor; deixou-o ir. 

Bateram à porta.

Foi ver: Era o senhor da empresa de anúncios luminosos em néon que ela tinha encomendado para montar por cima da porta de sua casa: 

ASILO MARINELA

ESTÁ NA MERDA?

AQUI, SAIA DELA!!


19
Jan 09

O Cavaleiro de coração puro subiu os degraus de corpo cansado mas de alma invencível - determinado pelo magnânimo Amor à Princesa. Ele subiu os íngremes degraus da Torre onde outrora ecoava a voz doce da Deusa-Mãe.

Foi ao abrir a maciça porta que olhou, finalmente, nos olhos do Dragão, ao fim de anos de busca. Ele lá estava, instalado na sala do Trono, atormentando um Rei fraco, velho e cansado que governava para si. Expulsando o Medo com Amor, ele encarou o Dragão, mesmo quando a sua mão armada desferiu o golpe fatal no gigantesco antagonista. Um Deus-Dragão morrera, cuspindo sangue em chamas e soltando gritos ferozes.

O Cavaleiro ignorou o Rei e abriu a porta metálica no fundo da sala. Um sorriso resplandecente recebeu-o, os braços ternurentos da Princesa acolheram-no. Foi quando olhou para ela de novo, que viu nascer naqueles olhos, as lágrimas que pingavam para um peito saliente, onde o símbolo da Deusa estava marcado. O Cavaleiro, compreendeu.

Assim foi que a Princesa, nua de tudo, saíu da prisão e caminhou para o trono. O Rei, fraco, velho e cansado, ao olhá-la, rejuvenesceu e levantou-se imediatamente e curvou-se perante a figura perfeita da Mulher. Ela passou os dedos pelo cabelo grisalho do Homem, que recuperou a côr, e sentou-se no Trono.

A sua imagem aí se dissolveu, encandeando a sala com a luz que emanava, iluminando as paredes escuras. O Cavaleiro e o Rei viram à sua volta o Concílio de Sábias e Sábios que rodeavam aquele Trono, aguardando a chamada.

Quando de novo olharam o Trono, ele estava limpo e novo. O corpo da Deusa-Mãe desaparecera mas a sua alma residia, omnipresente. 

Assim vos contei como o Dragão morreu e o Rei puro regressou ao Trono da Deusa.

Quem me dera tivesse sido já ontem.


subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
blogs SAPO