De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

06
Fev 09

O céu parecia desabar naquele fim de tarde, tal era a torrente. Teresa, sentada no autocarro que a levava para casa, olhava pela janela com o mesmo desalento com que era premiada pelo cenário do outro lado do vidro. Sentia-se dissolver, aquosa como a chuva que escorria pelo para-brisas.

    Olhou o relógio de pulso; já passavam das sete e meia. Teresa pensou no que iria preparar para o jantar, que seria tomado a sós, em frente à televisão, enquanto esta vomita histórias irreais sobre famílias incoerentemente problemáticas e felizes.

    Não costumava andar de autocarro, mas tivera de deixar o seu Mini S Cooper na oficina para uma renovação completa do sistema de travagem. Teresa era advogada empresarial e dinheiro, ou a sua falta, nunca fora um problema.

    Teresa é bonita, elegante, tem uma casa fantástica, uma carreira de sonho e, até algumas horas atrás, um carro que gritava estilo. Teresa tem tudo. E no entanto, olhava pela janela, com a garganta a arder da vontade de chorar, para a água que escorria pelas valetas, a água que era Teresa, em que ninguém notava. Apenas mais um riacho de chuva.

    Saiu na paragem seguinte. Como não tinha guarda-chuva, em poucos minutos ficou encharcada, com a chuva a escorrer-lhe pelo rosto. Foi então que as lágrimas começaram a cair, tímidas de inicio e depois copiosamente. Teresa foi tomada por um choro furioso cortado por soluços e espasmos que lhe percorrem o corpo. No seu pranto as pernas perdem a força, e Teresa cai no passeio. Põe-se a gritar, com a força que ainda tem, a dor que a esgana. Teresa encharcada uiva e brada, chora e soluça e treme até não poder mais.

    

A chuva e o choro abrandam. As nuvens abrem-se, mostrando um Sol tímido. Teresa levanta-se e vai para casa.
publicado jjnopants às 00:01
Autoria::

05
Fev 09

Uma sala acolhedora, temperatura ideal (graças à lareira que fazia esquecer o frio de um Inverno rigoroso), Fanfas refastelado no sofá, pés em cima da mesa, sentia-se em casa... mas não estava. Os Velhos amordaçados a um canto e a meia que usava para tapar a cara diziam tudo.

Tudo se passou da seguinte forma, Necas de 84 anos estava a ver o "Preço Certo" quando tocaram à campainha. Pensou que era a moça nova do 3º andar a recolher assinaturas para as obras do prédio, magicou ser uma oportunidade de olhar para um decote fantástico. Abriu a porta sem perguntar quem era. Em vez da moça estavam três moços encapuçados, armados com caçadeiras. Sem conversas invadiram-lhe o lar, empurraram-no contra a parede e taparam-lhe a boca com a mão.

Gertrudes cozinhava um peixinho cozido para as dois e o agravar da sua surdez camuflou os ruídos do hall de entrada. Gritou várias vezes "Necas larga a televisão e vem pôr a mesa!" e por não ter resposta foi ver o que se passava. Esperava o pior quando ele não respondia, não esperava era ver três gandulos a cercar o seu homem. Gritou com toda a força que os seus pulmões deixaram (que não foi assim muito, a idade já pesava). O Casal foi amordaçado e Fanfas, líder dos gandulos deixou-se ficar a ver televisão, refastelado no sofá.

O que eles não sabiam é que a velha Micas morava também na casa. Ninguém sabia a idade dela, apenas que era perigosa. O primeiro que foi usar o WC, levou com o penico da Micas na cabeça, o segundo morreu com uma agulha de crochet. Fanfas adormeceu no sofá e já não acordou, o fogo da lareira não deixou. E é por isso que ainda hoje os gandulos têm medo de assaltar casas com Velhos.

publicado jjnopants às 10:18
Autoria::

04
Fev 09

- Espera lá, como é isso? - Perguntou ela, rolando na cama.
- Bom, - respondeu ele, fazendo por não se distrair com o seio mal oculto pelo lençol, - eu vejo Amor. É o meu super-poder.
Ela riu-se.
- Ai tu tens um super-poder, é? E como é que funciona?
Ele sabia que não estava a ser levado a sério, mas não viu mal em explicar ainda assim.
- É assim: quando olho para alguém, vejo automaticamente o amor dessa pessoa. Vejo se ama alguém, quem ama, se é correspondido, se já confessou o seu amor, as razões pelas quais pode não ter confessado, etc.. Vejo tudo isso. Quer dizer, é ver, mas é mais ver sem ser com os olhos. É mais ligado ao instinto. - Agora que as palavras lhe tinham saído da boca, parecia-lhe uma explicação algo parva. Coisa que ela confirmou, ao rir-se novamente. Mas ele tinha decidido ser honesto. - É um pouco dificil de explicar, mas pronto...
- Portanto, tu olhas para mim, e vês o meu amor por ti. É isso?
- É isso mesmo.
Ela parecia divertida, e lançou-lhe um daqueles sorrisos a que ele nunca resistia. Ele sorriu também, e acariciou-lhe o rosto com ternura, sentindo um arrepio agradável percorrer-lhe a espinha.
- És um tonto - disse ela, beijando-o. - Mas eu amo-te na mesma.
- Eu sei.
Ela virou-se, tentando dormir. Ele ficou a olhar para ela por mais uns momentos, e sentiu-se culpado. Não quisera mentir, mas não tivera escolha. Fez por afastar esses pensamentos. Sabia que não conseguiria dormir se não parasse de pensar no facto de que, por mais que olhasse para a mulher que amava, não via nela amor algum.
Então concentrou-se na lembrança dos momentos que passavam juntos, virou-se para o lado, e minutos depois, adormeceu.

publicado jjnopants às 00:01
Autoria::

03
Fev 09

A mãe dizia-lhe:

- Tira o cabelo da frente dos olhos!

Mas ela não tirava.

 

Os professores pediam-lhe:

- Afaste o cabelo da cara, quero ver-lhe os olhos. Quero ver essa cara linda, completa!

Mas ela não satisfazia o pedido deles.

 

A todos pedidos se recusava ceder. Rotularam-na de rebelde, de mal-educada, de adolescente tresloucada (vá lá, safou-se de frequentar consultas de psiquiatria ou psicologia).

Desde os oito anos que usava o cabelo à frente do rosto. Apenas a mãe se lembrava vagamente da cor dos olhos dela. De uma mania de criança, as pessoas passaram a ver uma atitude de afirmação de personalidade, típica da adolescência.

Ninguém conhecia o seu segredo. Usava o cabelo como máscara, para que ninguém soubesse que não tinha olhos, pois não tinha alma. E não ter alma é difícil, pois implica, para algumas pessoas, não ter vida. Mas ela conseguia viver bem sem alma. Apenas não queria que tivessem dó de si e, por isso, escondia o seu vazio.

Conseguia fazer a vida normal de todas as pessoas: apercebia-se das nuances da luz, das cores e das formas dos objectos que a rodeavam, até conseguia ler e escrever. Todos os outros sentidos funcionavam na perfeição: adorava cozinhar, delirava acariciar o gato e extasiava-se com ritmos tribais.

Ainda não conseguira sentir o ar na face ao andar de mota, pois não tinha descoberto o modo evitar que o cabelo esvoaçasse rebelde e sem controle, destapando-lhe o rosto e desvendando a escuridão onde deveria haver luz.

Dançar com os amigos dava-lhe prazer. Tinha treinado até à perfeição o modo de manter o cabelo como a cortina da suas janelas para o nada.

Mas, em casa, sozinha, dançava loucamente e conseguia ser feliz, porque se esquecia que não tinha alma e por isso, não tinha olhos.

publicado jjnopants às 00:01

02
Fev 09

Adão e Eva viviam felizes no paraíso. Tudo era providenciado. Não tinham tentações. Tudo perfeito. 
 

Aqui a história divide-se em duas interpretações: 
 

A espiritual – Adão e Eva (humanos primevos) viviam no paraíso da sua natureza. Os seus cérebros não tinham zonas ocultas ou sombrias, trabalhavam directamente com as almas, a essência natural pura da consciência. Depois, chegou um intruso (a Serpente) que destruiu o paraíso, o que provocou traumas que dão origem ao nascimento do Ego (o Demiurgo, o Sol Negro, Lúcifer, etc) na mente. O Ego, providenciando uma sobrevivência na emergência da destruição interna e externa do paraíso, necessita de apoderar-se dessa ligação directa entre a alma e o ser (persona, máscara, personagem) e passa a exigir obediência, agindo como sendo um intruso, uma voz externa, um Deus poderoso. 
 

A histórica – Adão e Eva são, após a destruição do estado primevo, fabricados genéticamente como os escravos perfeitos para laborar nos jardins paradisíacos dos auto-proclamados Deuses, os invasores, conhecidos como Mestres-Serpente. Eram perfeitos pois não tinham capacidade de compreender que eram escravos. Antes, no entanto, os Mestres-Serpente tinham tentado um cruzamento entre os seus próprios genes (elevado intelecto egóico, baixa empatia) e os dos humanos primevos (elevada criatividade e empatia, elevado intelecto comunitário). Isto falhou; os Filhos da Serpente revoltaram-se, abandonaram os criadores e provocaram a revolta Adâmica elucidando as Evas, as mulheres da raça escrava. Surge o segundo êxodo e os Deuses irados lançam uma guerra cataclismica. 
 

... 
 

Sinto um pontapé nas costas e uns braços fortes levantam-me. Sou atado e lançado a uma fogueira já acesa. No último vislumbre vejo o sacerdote, com o seu olhar frio e cruel, rindo-se da minha derradeira tentativa de despertar os escravos. Eles entreolham-se, sentem a ameaça... e acabam por aplaudir a minha morte. 

publicado jjnopants às 00:01
Autoria::

subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO