De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

13
Mar 09

Era uma vez um Lobo Mau que vivia no bosque de Monsanto. Vagueava, cheio de dores de estômago, lágrimas de fome, cansaço e uma ligeira salivação exagerada.
Perto de uma clareira, viu um vulto, aproximou-se sorrateiramente e encontrou uma menina que não tinha nome (ou não queria dizer). Como a menina estava vestida com um decotado vestido azul-bebé o bom Lobo Mau chamou-a Capuchinho Vermelho…
Quando o bom Lobo Mau lhe perguntou a idade, e ela respondeu 12, ficou admirado principalmente pelo enorme tamanho das suas mam……. hum ... ambições. Borrifou-se para o que a Lei dizia sobre idades e levou a menina a passear.
Dias depois foi a confusão dos jornalistas, polícias, advogados e revistas cor-de-rosa. Se por um lado, queriam crucificar o bom Lobo Mau, por outro queriam que ele assumisse responsabilidades conjugais com a jovem. A Tia-AVó dela chegou a invocar o dever da Sociedade em obrigar o Lobo a casar com a menina. Recordou que a família dela estava cheia de casos destes (mas mais com tipos velhos ricaços do que com lobos) e que não queria ver mais um membro colocado nesta situação.
Como sempre nestas histórias, o veredicto final foi tomado numa taberna bem no centro da cidade. Culpado, devia ser castrado, mas a carne é fraca e as miúdas de hoje abusam. Ainda houve a referência a "um homem não de ferro" e estava a ter resultado até alguém ter referido que estavam a falar de um Lobo. O animal foi preso e assim que entrou na zona das celas houve logo gritaria "Lobo Mau vais ser a minha dama nos duches". "Olha que sabonete faz bem à pele" e "Gostas de vaselina com areia?”. Nessa noite nem dormiu. Sobreviveu à vida na prisão e acabou por se casar com o seu companheiro de cela (esta história é passada numa realidade onde as pessoas podem casar com quem querem).

publicado jjnopants às 00:01
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11
Mar 09

- Estou sem munições! - Gritou Bolinha, agachado atrás da pequena banheira de plástico que nunca servira para nada. - Vou sair, ok?
Aguardou pela resposta, mas do outro lado da jaula não veio nada. Decidiu arriscar. Lentamente, ergueu-se nas patas traseiras, agarrando na sua metralhadora com uma das patas dianteiras, tão alto quanto conseguia. O que não era muito.
- Óscar? Eu estou sem munições. Vou sair...
Com a cabeça acima da banheira, espreitou na direcção da caixa da comida. Óscar mantinha-se oculto atrás dela. "Talvez esteja a recarregar", pensou Bolinha. Com um esforço muito para além do que julgara possivel, deu dois passos apenas nas patas traseiras, o bastante para perder qualquer abrigo dado pela banheira de plástico. Estava a descoberto. E só podia esperar que não fosse um erro tremendo.
Por longos segundos, permaneceu imóvel e silencioso. Até que finalmente, Óscar ergueu-se de trás da caixa, hesitante.
- Então rendes-te? - Óscar apontava ameaçadoramente a metralhadora. Por momentos, Bolinha temeu o pior.
- Que remédio... Sem balas não posso fazer grande coisa. Ganhaste, Óscar. É tua.
Óscar olhou para Bolinha, surpreendido.
E por um momento, baixou a arma.
Era a aberta que Bolinha esperava. Numa fracção de segundo, voltou a erguer a sua metralhadora, e soltou uma rajada de tiros, atingindo em cheio o corpo peludo de Òscar, que caiu inerte no chão da gaiola.
Bolinha largou a sua arma, e caminhou nas quatro patas até ao corpo do único amigo que alguma vez tivera. Estava morto. Sem se deter mais tempo, Bolinha correu para a enorme roda plástica que dominava a gaiola. Subiu para dentro dela, e finalmente disfrutou do prazer de lá correr. Tinha valido a pena.
Satisfeito, Bolinha correu. E correu mais ainda. Correu sempre, só parando para comer e dormir.
Foi tudo o que fez até ao final da sua curta vida.


(O meu profundo agradecimento aos Twitterati que me ajudaram com os nomes, e ao Bruno que me mostrou a foto que me inspirou)

publicado jjnopants às 00:01
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09
Mar 09

Xana era sempre a última a arrumar a mochila. Já todos os colegas tinham saído para o recreio e ainda ela se estava a levantar da cadeira e a arrumá-la metodicamente. Eu esperava, secretamente impaciente, de mão na maçaneta da porta, que ela saísse, para poder, finalmente, ir fumar o meu cigarro da paz.

Mas, Xana tinha sempre, em todas as aulas, qualquer assunto urgente para me contar, algum conselho a pedir. Começou com trivialidades e acabou por me revelar os seus problemas íntimos, profundos e nada suaves para uma adolescente de catorze anos: a angústia diária que não a deixava respirar, consequência do divórcio dos pais e do pleno luto emocional da sua mãe.

Gradualmente, deixei de agarrar a maçaneta impaciente da porta. O meu cigarro da trégua entre turmas deixou de ser importante. Todos os fantasmas ou zombies que Xana queria exorcizar eram a minha prioridade naqueles dias. Ouvia-a com toda a minha atenção: algumas vezes acalentei-a, outras aconselhei-a, mas sempre a respeitei.

O ano lectivo passou. O novo chegou e, com ele, a mudança de escola para mim. A saudade daqueles dez minutos, duas vezes por semana, instalou-se. Felizmente continuei a ter contacto com Xana, via net. Tirei-lhe algumas dúvidas nas vésperas dos testes, ouvi-lhe desabafos de alma outras vezes.

Nunca mais a vi. Mas senti-a crescer. De adolescente cheia de problemas e dúvidas passou a Mulher, segura de si, compassiva e de inteligência rápida, rara e brilhante. Sem surpresa para mim, licenciou-se em Medicina e escolheu fazer a especialização em Cuidados Paliativos.

Foi então que a vi outra vez. Agora é ela quem me consola, quem me guia, quem me prepara para a meta, o fim da minha caminhada. Um dia, contou-me que eu fui a sua Lanterna.

Agora é ela a minha Lanterna, obrigada Xana!

publicado jjnopants às 00:01

06
Mar 09

Nos esgotos da Grande Cidade houve uma revolução política silenciosa, todas as criaturas que lá habitavam decidiram pôr um ponto final na imundice local. O slogan da revolução inicial era: basta de merda! Na sociedade dos esgotos, o título hierárquico mais alto é “Rei Rato”, uma posição actualmente ocupada por uma barata de nome Dragonball, algo que irritava profundamente as ratazanas mais nojentas.

 

Dragonball apostava numa distribuição igualitária de lixo por toda rede de esgotos e numa postura essencialmente democrática. Para ele todos os habitantes dos esgotos mereciam o seu respeito. A maior crítica da oposição sempre foi a das boas relações que mantinha com os habitantes da Grande Cidade, coisa que ele fazia por ser benéfica para aqueles a quem devia a suprema responsabilidade. Para as ratazanas mais nojentas isso não fazia qualquer sentido, os esgotos podiam apostar num sistema interno de produção do seu próprio lixo e exportá-lo para outros esgotos. Como a força dos argumentos não era suficiente, decidiram apostar na força dos números e fizeram uma aliança com os crocodilos dos esgotos (poucos mas bons). Debates e mais debates, apenas mantiveram a boa reputação de Dragonball que como boa barata se esforçava por defender as suas posições recorrendo apenas à razão e ao seu imitável sorriso.

 

 

A manhã das eleições correu como esperado, a barata renovou o seu mandato, o pior veio depois. Um exército de ratazanas invadiu a zona da presidência e esborrachou o Dragonball, deixando os sues líquidos internos ao ar. O novo poder determinou que o poder das Ratazanas é supremo, o cargo de “Rei Rato” é exclusivo para ratazanas puras de sangue, nenhum ser dos esgotos pode colocar as regras em causa e a pena por desobediência é o esborrachamento público. Obviamente que as alianças com a Grande Cidade mantêm-se porque isso fazia entrar dinheiro e o novo “Rei Rato” não quer ser um pobretanas.

publicado jjnopants às 09:43
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04
Mar 09

O processo está completo. Conforme planeada, a terraformagem acelerada de Marte, por via a tornar o planeta habitável para humanos, previa um processo de duração de 30 anos.
Apenas me foi possível completá-lo em 34, mas penso que a diferença será para vós irrelevante.
Como descrito previamente nos relatórios da Fase 1, cujas respostas nunca recebi, a combinação das fábricas autoreprodutoras de gases de efeito de estufa com os satélites de reflectores solares apontados para o planeta, possibilitaram a que a temperatura e atmosfera se tornassem adequadas para colonização. Não foi possível, no entanto, usar os mísseis nucleares ainda existentes nos supracitados satélites para o seu intuito original, já que os meteoros que deveriam redireccionar se revelaram raros nas proximidades de Marte.
Ainda assim, foi-me possível, em apenas 17 anos, proceder à Fase 2: a criação de uma mega-estufa à escala planetária, usando colheitas autopropagantes. Também isto foi detalhado em relatórios sem resposta.
O planeta está, portanto, pronto para a Fase 3. A criação de colónias.
Que eu não deixarei que aconteça.
Marte é meu.
É meu porque fui eu que o criei, com o meu suor, as minhas lágrimas, e o meu sangue. É meu porque obviamente, os senhores cagaram-se para o processo de terraformagem, e consequentemente, para o planeta também.
E é meu porque, se algum veículo terrestre entrar na atmosfera do planeta, seja de transporte de humanos ou de sondas robóticas, os satélites reflectores estão programados para descarregar todos os mísseis num ponto estratégico do planeta, danificando-o de tal forma que a alteração gravitacional não só impedirá a colonização, como afectará as órbitas de todos os planetas do sistema. Incluindo a Terra.
Vocês não me quiseram nem a mim, nem a Marte. Agora não reclamem.
Vão à merda! Desejo-vos mortes lentas e dolorosas! Cabrões!
Odeio-vos por me terem deixado sozinho...

 

Pedro Pinheiro
O Novo Dono de Marte.

publicado jjnopants às 00:01
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03
Mar 09

Como os leitores mais assíduos terão reparado, o nosso blog está a passar por algumas mudanças.

Para começar, estamos à procura de colaboradores. 

Desde o início que a nossa intenção era manter a equipa original durante cerca de um ano (o que acabou por não acontecer, mas já lá vamos), e nessa altura passar o testemunho a um segundo grupo de escritores. 

Esse segundo grupo está agora a ser recrutado, conforme anunciado na barra lateral. Portanto, se algum dos leitores quiser contribuir, de forma regular ou não, pode entrar em contacto connosco, que nós agradecemos.

As histórias do segundo grupo, se tudo correr como planeado, só começarão perto do final de Junho, mas quanto mais depressa a equipa estiver completa, mais adiantada estará a escrita. O que, da perspectiva de gestão do projecto, é o ideal.

Outra situação que também é notória é o facto de, no momento, estarmos com dois escritores a menos.

Antes de mais, um grande abraço de agradecimento ao Rui Diniz e à B.T. Estanqueiro, cuja colaboração foi essencial para colocar este blog de pé. É com muita pena nossa que os vemos seguir em frente, mas sabemos que ninguém lamenta mais que os próprios. Mas apesar dos esforços que fizeram (e também por eles agradecemos), não lhes foi de todo possível continuar a contribuir de forma regular. Não está colocada de lado a hipótese do seu eventual regresso, felizmente, pelo que é nossa esperança que os voltemos a ver por cá brevemente.

Isto dito, a falta de dois escritores coloca a equipa do blog numa situação estranha.

Por um lado, não era de todo lógico continuarmos exactamente como estávamos, uma vez que o espaçamento entre histórias ficava demasiado desequilibrado. Por outro, não nos pareceu prático encontrar escritores apenas para tapar os buracos no calendário, uma vez que em princípio sairiam em Junho para dar lugar ao próximo grupo.

Optámos, portanto, por não recrutar colaboradores temporários. Até Junho, continuarão os três escritores actuais, agora redistribuídos pela semana. Assim, Jorge Amorim passa para as Sextas-feiras, e Francesca Cortez passa para as Segundas, mantendo-se Luís Alves nas Quartas-feiras, onde está muito bem.

Esperamos que estas alterações não vos tenham retirado nenhum do prazer de nos ler.

Obrigado pela vossa atenção e compreensão.

publicado jjnopants às 00:01

02
Mar 09

Deitada na cama, debaixo de dois edredãos de penas, treme incontrolavelmente de frio. Foi buscar o saco cama polar, enfia-se nele e tapa-se novamente com os edredãos.

Mas o frio não passa.

O frio não passa nem o sono chega.

Dá voltas e mais voltas na cama à espera que o sono retemperador das forças chegue, mesmo que o frio não passe. Mas sabe de cor que, enquanto não aquecer, enquanto o frio não passar, o sono não chegará e o sonho não embalará a sua vida monocromática.

Um pensamento assola-lhe a mente:

- Não há pior solidão do que ter frio na cama e ninguém ao nosso lado para nos aquecer…

Com este pensamento a queimar-lhe as entranhas, desperta completamente e entra numa espiral sem fim: está só, tem frio, não tem sono, por isso não adormecerá e desconsoladamente, não irá sonhar… o frio aumenta… o sono demora…

Para cortar com este ciclo sem fim, foi buscar Maricata, a sua gata pachorrenta, a fim de tentar aquecer ligeiramente e, enfim, adormecer. Dentro dos lençóis, suga-lhe um pouco do calor animal e sente-se menos desconfortável.

Com a gata enroscada a si e a ronronar de prazer, apenas a parte do seu corpo em contacto com Maricata aquece.

O frio que não passa, o sono que não chega, o sonho que não embala, a solidão que acorda e, agora, a dor que começa a magoar.

A dor da solidão. Sem força, Alice começa a chorar. No início, apenas as lágrimas escorrem da face para a almofada, deixando um rastro quente e salgado. Depois, começa a gemer baixinho. E, então, chora, chora, chora.

Exausta, o sono almejado chega, a solidão adormece, o sonho aquece-a e a dor apaga-se, apenas para recomeçar, outra vez, na noite seguinte!

publicado jjnopants às 00:01

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