De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

29
Mai 09

Domingo é dia de visitas da família, por isso é um dia de alerta para todos os funcionários da Casa de Repouso "Amigos dos Idosos". Um dia de muitas emoções, quer se receba uma visita, dez, ou zero. Um dia com muito mais confusão, muitas caras novas e, para o velho Carlos, uma possibilidade de fuga. 

Já tentara fugir inúmeras vezes, a maior parte das fugas durante excursões e festas de Natal. A Direcção da Casa de Repouso não conseguia compreender o motivo do Carlos querer fugir, faziam de tudo para que ele se sentisse bem e, mesmo assim, parecia que a mente dele só concebia fugas da instituição (sem nunca as conseguir concretizar).

Todos tinham família, a dele desapareceu. Ele sabia que estavam todos vivos, talvez em Espanha, simplesmente tinham-no abandonado ali para morrer. Precisamente naquele dia, o filho mais velho tinha decidido aparecer para pedir perdão ao pai. Um contratempo no seu plano de fuga, optou por fingir uma ira gigantesca e colocaram-no sala, mesmo pertinho da porta da rua. Andava ali um puto a brincar com um carrinho vermelho, Carlos não hesitou:

- Olá pequenino! Fazes-me um favor? Abre a porta para eu tomar um bocadinho de ar.

O puto abriu a porta e afastou-se. Carlos e uma porta aberta. “Ela” sempre a chamar por ele.
 

Deu consigo a acordar fora da Instituição, sem pequeno-almoço, sem sorrisos simpáticos, sem outros velhos. Sentiu-se em Paz. Olhou para o mundo em redor e sentiu-se maravilhado pela situação de incerteza. Procurou uma nespereira e sentou-se à sua sombra num estado de completa absorção pelo seu mundo interior.

A mente parou, a ilusão desfez-se.

Ao abrir os olhos, livre de qualquer nevoeiro da mente, tomou a grande decisão da sua vida: tornar-se um ninja. Foi assim que se iniciou o primeiro capítulo da Saga "Carlos, o ninja de bengala".

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27
Mai 09

Data estelar - 34782.19. Diário de bordo do Comandante Jerónimo Onn Jaks, da nave espacial Valentia.


Ainda não foi hoje que me suícidei.
Por mais tentador que seja, ainda não tive a coragem de seguir o exemplo da maioria da minha tripulação. Já vai na terceira morte desta semana.
É verdade que o índice de suicídio das naves exploradoras é sempre alto, mas o da Valentia parece destinado a bater todos os recordes. Olho para os rostos da tripulação, e vejo-os tristes, deprimidos. Sem vida. Daí ao suicídio não vai grande distância. E suponho que eu próprio não estou diferente.
Ás vezes, interrogo-me porquê. Mas basta-me olhar para fora da nave, e percebo.

O Espaço é tudo o que está lá fora. Enorme. Negro. E acima de tudo, vazio.

Mandam-nos da Terra para procurar novos mundos, novas terras, novas civilizações. E nós vamos. Inicialmente, penso que íamos pelo espírito de aventura, pela vontade de descobrir coisas novas. Mas isso foi há séculos. Agora vamos porque não sabemos mais que fazer, porque procuramos um propósito.
Mas nunca encontramos nada. Só planetas vazios. Nunca há sinais de vida, passada ou presente. E em vez de encontrarmos um propósito para as nossas vidas, somos confrontados com a verdadeira falta de sentido delas. Porque estamos aparentemente sozinhos no Universo. E no vazio do Espaço, essa solidão é insuportável.

Por isso o que realmente me espanta é que ainda alguém encontre forças para se agarrar à vida.

Pessoalmente, é porque tento ainda ter força para estar com a Valentia quando um dia ela voltar a casa permanentemente.

Quem dera poder fazer ver aos nossos líderes que é melhor desistir de uma vez. Esquecer que alguma vez explorámos o espaço.
Quem dera que percebessem que mais vale agarrarmo-nos à fé que teimarmos em matar a esperança.

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25
Mai 09

Cinquentão, bem parecido, a sua vida sexual andava pela “hora de morte”, como se queixava aos amigos: “Devagarinho ou mesmo parada!”.

Passavam-se tempos, uma eternidade para si, em que não tinha o prazer de fazer amor com a sua mulher, ou porque lhe doía a cabeça, raios partam as mulheres com as suas dores de cabeça ou porque estava cansadas, pois sim, cansado também andava ele, física e emocionalmente, cansado de tantas desculpas que a sua mulher arranjava para “não cumprir a sua obrigação de esposa” e ele que tanto queria dar-lhe a assistência devida ao homem do casal…

Nos encontros virtuais do MSN conheceu uma mulher divorciada, quarenta anos, embora aparentasse uma década a menos. Palavra puxa palavra, duna acima, duna abaixo, uma mão lava a outra, as duas lavam a cara, em menos que nada, começaram a falar de sexo.

Ele queixava-se da indiferença da esposa.

Ela queixava-se da falta de mimo ou atenção ou amor. Queixava-se também de ter tido umas quantas experiências sexuais fracassadas, de algumas erecções falhadas, outras rápidas de mais, que terminavam antes de começarem.

Ela não queria envolver-se com um homem casado. Não queria ser um vértice de um triângulo escaleno, de certeza. Mas ele convenceu-a. Ela foi ter com ele.

Era de facto, muito sensual. Dançou para ele. O corpo dela tocava e roçava no dele, deixando-o louco. Ele começou a ficar fora de si. Mas um pensamento invadiu-o lhe a mente: “Não posso falhar. Não posso falhar! Não posso falhar!!... Vai ser fabuloso, não posso falhar!!!”

Quando estava a colocar o preservativo, descontrolou-se e teve o orgasmo mais intenso e frustrante da sua vida!

publicado às 09:27

22
Mai 09

A turma do 6º A era a mais complicada de toda a Escola. Não havia um único dia que passasse sem que a directora de turma recebesse a queixa de algum professor. Justiça seja feita, nas aulas de História tudo corria bem, silêncio absoluto, aprendizagem perfeita. Podíamos perguntar a qualquer aluno uma questão teórica e ele sabia sempre responder. No entanto quando perguntávamos o que tinham feito nas aulas, eles simplesmente não sabiam responder. No final daquele ano lectivo, a Professora de História recebeu um forte reconhecimento profissional dos seus pares.

 

O Professor Mário de Ciências da Natureza nutria uma profunda admiração profissional pela colega de História, por questões próprias da sua personalidade ainda não tinha conseguido estabelecer uma amizade com ela. Ele gostava da ideia de poder perguntar-lhe qual o truque que utilizava para as aulas funcionarem tão bem. A oportunidade de se apresentar à professora surgiu após uma reunião de professores, em ficaram a trocar informações sobre um dos alunos e ela convidou-o para jantar. Impossível resistir a tão hipnotizador olhar, jantaram, conversaram e depois acompanhou-a até casa.

 

Foi em casa dela que o Mário comentou os feitos dela como professora. Ela sorriu e disse que era muito simples hipnotizar os alunos, forçar a mente deles a absorver a informação e torná-los simples marionetes. Terminou com uma gargalhada e saiu da sala para preparar um chá.

Inquieto, Mário olhou para as paredes. Estantes completas sobre funcionamento do cérebro humano, técnicas de comunicação interpessoal, hipnotismo, hipnotismo de grupos, hipnotismo existencial, hipnotismo animal e política social. Mário pegou no casaco para sair dali para fora e cruzou-se com ela. Olhos nos olhos ali permaneceram até uma enorme sonolência se apoderar dele; no dia a seguir acordou e sentiu-se bem mas não se lembrava bem do que tinha acontecido na noite anterior…

publicado às 00:21
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20
Mai 09

Pedro ainda não conseguira desviar o olhar dos copos de água. Eram absolutamente idênticos, até no nivel de líquido que continham. E isso perturbava-o. Bem mais do que gostaria.

Afinal de contas, ele devia estar radiante, não perturbado. Tinha conseguido, após anos de pesquisa e experiências falhadas, fazer o que todos julgavam impossível: abrir um portal para um universo paralelo.

Todos, claro, menos ele. Ele SABIA que era possível. Sabia que as suas capacidades singulares e o seu ponto de vista único triunfariam.

E tinha razão. Naquela tarde, Pedro bebeu um gole do copo de água que mantinha consigo quando trabalhava, ligou o gerador de energia negativa, e viu o ar a desdobrar-se sobre si mesmo, abrindo uma porta para outro universo.

E dessa porta semi-visivel, surgiu um homem. Exactamente igual a Pedro.

O Outro Pedro não falou, limitou-se a sorrir. Da sua parte, Pedro não sabia sequer o que pensar, quanto mais dizer. Sentia todas as suas fundações deitadas por terra, e nem sabia porquê.

O Outro não esperou por nenhuma reacção. Avançou até ao copo de água de Pedro, e colocou outro ao lado dele.

- Não stresses, ok? - Disse o Outro. E com isso, voltou a atravessar o portal, que se fechou atrás dele.

Por alguns minutos, Pedro ficou a olhar para o ar, onde o portal estivera aberto. Depois voltou-se para os copos.

Sentia-se derrotado. Toda a sua vida se considerara, de alguma forma, especial. Fora aquilo que lhe dera forças para o seu triunfo, saber que conseguiria o que mais ninguém conseguiu. E agora... Sabia que havia pelo menos mais um ser igual a si. Talvez mais! Talvez uma infinidade, um para cada universo!

Finalmente, com um suspiro, pegou no copo deixado pelo Outro. Bebeu um gole de água. Sorriu. E bebeu o resto.

O sabor era diferente, mas saciou-lhe a sede na mesma.

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15
Mai 09

O cenário de fundo é um país de terceiro mundo, local onde controlar as pessoas que lá vivem é mais importante que cuidar delas. A ideia sugerida é muito simples: introduzir escutas e câmaras nas casas de todas as pessoas. Máquinas cruéis inseridas em cada residência como um acto de bondade, mais precisamente, através de computadores oferecidos a crianças pequenas em idade escolar.

O Partido apresentou às massas a inovadora criação, o Xangalhães, o primeiro computador de baixo custo feito em território nacional. As pessoas aplaudiram. Quando foi acrescentado que este computador seria oferecido a todas as crianças, desde a primeira classe ao 9º ano de escolaridade, a multidão foi ao rubro. A alegria era tanta que já ninguém queria saber de resultados de futebol, telenovelas, crises económicas ou mesmo de pornografia.

Com os Xangalhães espalhados por diversas casas, a ouvirem e a verem tudo, começaram a ser emitidos mandatos de prisão às mais inesperadas pessoas. Ninguém sabia como tinham sido capturados tantos “intelectuais anti-partido” no mesmo mês. Ninguém desconfiou daquele computador com que os filhos brincavam, daquele ar de lancheira infantil, tudo tão bem camuflado.

Por ignorarem o que passava, é que as multidões continuaram a aplaudir as medidas do Partido, principalmente quando foi anunciado que os Xangalhães iam começar a ser exportados para o resto do mundo. Para alguém que ame o caos deve ser difícil conceber a beleza deste plano, mas para quem ama a maravilha de uma sociedade ordenada pode deliciar-se com alguns pormenores. Não foram só as escutas que foram introduzidas, foi todo um sistema informático que irá consumir a imaginação e tempo das gerações que se estão a formar. Um dia a imaginação será uma patologia num sistema de classificação de patologias da mente e aí sim o nosso Partido atingirá o seu propósito.

publicado às 00:23
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13
Mai 09

Há certas músicas que não consigo ouvir, por mais que goste delas. Uma delas é a minha música favorita.
Lembro-me de me ter apaixonado pela primeira vez quando era ainda adolescente. Ela era a minha melhor amiga, e também a única. Um dia, beijei-a. Ela riu-se, pensou que eu estava a brincar. Disse-lhe que não, que a amava. Fui tão melodramático quanto é suposto ser naquela idade. Ela pediu-me desculpa, disse que não sentia o mesmo por mim. E não voltou a falar no assunto. Depois disso, não voltei a conseguir olhá-la nos olhos sem sentir o meu coração partir-se. Afastámo-nos rapidamente. Ainda hoje não sei o que é feito dela.
Anos mais tarde, apaixonei-me novamente. Fui correspondido, desta vez. E durante alguns, poucos, meses, fomos felizes. Eventualmente, ela disse-me que me amava, sim. Mas amava mais outro homem. Pediu-me para continuarmos amigos. Não consegui.
Ainda hoje pensei em telefonar à mulher que amo, mas não o fiz. Já me chegou ter que aguentar a raiva dela da última vez que falámos. Mas eu tinha que lhe dizer o que disse. Ela está prestes a cometer a maior asneira da vida dela, e tive que lho dizer. Ela sentiu-se magoada, traída. Esperava o meu apoio, como sempre, e não o teve.
Não sei se teria feito o mesmo se não a amasse. Provavelmente tê-la-ia deixado cometer as asneiras que quisesse, mesmo estando preocupado. Acharia que ela teria que aprender por conta própria. Mas como as coisas são, tive que lho dizer, mesmo sabendo que isso garante que nunca lhe direi o que sinto por ela. Mesmo sabendo que ela nunca vai sentir o mesmo por mim.
A minha música favorita acaba de passar na rádio. E por tudo isto, e muito mais, não consigo deixar de chorar.
Love will tear us apart, indeed…

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01
Mai 09

Uma família feliz completamente comum vivia alegremente numa casa bonita de se ver. Os cortinados da janela da sala davam directamente para a rua e eram lavados de 15 em 15 dias, tal como o tapete de entrada e o sofá da sala-de-estar. Às sextas-feiras era o dia das limpezas gerais e o som do aspirador nesse dia era a única banda sonora da casa. A hora de jantar marcada era às 20h, coincidia com a do Telejornal, forma de toda a família ficar informada do que se passava no mundo.

Aos fins-de-semana ocorriam eventos familiares como conviver com um primo afastado que ninguém gostava ou ir ao hospital uma tia-avó que de 3 em 3 meses ficava às “portas da morte”. Uma família feliz que via todos os horrores a acontecer no mundo (principalmente às 20h) e que seguia a sua vidinha (para quê arranjar chatices?).

Um dia o filho mais velho apresentou a namorada à família, a Soraia. Gostaram imenso dela, muito educada e bonita. Descendente de uma família infeliz, onde os pais tinham apenas como objectivo viver novas experiências e estavam sempre a viajar. Até deixaram a filha em casa da Avó para irem viajar para o Canadá. Isto era muito estranho para a família feliz. Um dia num almoço de fim-de-semana a Soraia comentou “Apetecia-me mesmo um cigarro”. O ambiente ficou diferente. No dia seguinte, e após conferência com os pais, o filho mais velho decidiu terminar o namoro.

Um dia a vizinha perguntou, “O que se passou com aquela jovem simpática?”. Após um curto silêncio, a mãe dele confessou “Olhe uma desilusão, fumava, saía com rapazes para beber café e tinha uma daquelas famílias esquisitas. Felizmente o nosso rapaz está a sair com uma rapariga de boas famílias e catequista”. Toda a paz familiar se manteve e puderam continuar com a velha rotina.

publicado às 00:01
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