De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

09
Set 08

Eles apercebiam-se que ela não andava bem, aquela tristeza não parecia sua, não estavam habituados a vê-la sem sorrir. Já não os fazia rir com as suas piadas, limitava-se a dar a aula, debitar matéria e avaliar desempenhos. Não, aquela não era a professora a que estavam habituados.


Um dia, resolveram perguntar-lhe:
- Ó stora, anda tão triste porquê? Será por nos portarmos mal?
 

Surpreendida com esta solidariedade espontânea, este sentimento tão humano de empatia, Ana sorriu docemente e pensou, no seu íntimo, que mania têm alguns colegas de acharem que os alunos são mal educados, que os jovens são insensíveis ou egoístas, que raiva tem desses colegas, pois estes pimpolhos, tão novinhos, estavam preocupados com a sua tristeza, que belo. Resolveu fixar aquele momento, aquela pergunta doce, no seu livro da vida, numa página, que não vai querer apagar, nem rasgar, nunca!
 

Então, para tranquilizar os meninos, Ana disse-lhes:
- Não, meus lindos. Vocês não se portam assim tão mal. Aliás, vocês não se portam mal, vocês são uns doces. Não se preocupem… O problema está em mim.
 

E contou-lhes o que lhe atormentava a alma e lhe escurecia o semblante. Falou-lhes do processo de divórcio que estava a atravessar. Explicou-lhes que, por vezes, as relações amorosas acabam e há um sofrimento tão grande que é impossível esconder.
Quando parou de falar, olhou para os seus meninos e todos estavam tristes, cabisbaixos e entreolhavam-se timidamente.
 

De repente, inesperada e surpreendentemente, um aluno caladinho, daqueles a quem é difícil arrancar uma palavra, resolveu aconselhar a professora:
- Ó stora, se resolver comprar um vibrador, não o esconda na gaveta das cuecas, porque foi lá que encontrei o da minha mãe!...

publicado às 00:01
editado por Francesca Cortez em 03/07/2008 às 02:35

comentário:
em32bOhhhhhhhh Francesca…
É inegável que ninguém estaria á espera de tal finalização, e acaba mesmo por um smile inesperado aflorar e compor os nossos rostos tantas vezes taciturnos.
Na verdade as crianças surpreendem-nos, quer pela decisão imediata quer pela conclusão das suas atitudes. Elas são o espelho das nossas posturas, e podem mesmo ser umas pestinhas, mas de qualquer forma emolduram de uma forma gratificante o quadro das nossas vidas, e são estas breves “inocências” que nos fazem adorar todos os momentos que juntos compartilhamos.
Mas este aluno fez-me recuar no tempo, em que eu na minha meninice deambulava pelo quarto dos meus pais buscando segredos. Foi numa destas incursões ao mundo dos crescidos que eu descobri numa gaveta dum móvel qualquer e dentro de uma caixa de fósforos algo que pareciam uns balões, que julgava ser para o meu pai me oferecer no natal.
Claro que naquele tempo os brinquedos eram escassos pelo poder monetário reduzido, e fiquei agradecido aos céus por futuramente ser agraciado por uns balões que o meu pai compraria com algum custo.
Mas com a inocência própria da idade, vangloriei-me a um amigo mais catedrático da pretensa oferta que iria ter no futuro. Como grande sabedor da vida, este meu amigo que teria mais um ou dois anos que eu, esclareceu-me que não seriam balões, mas sim algo que seria para encapotar o órgão, e que para alem da protecção em pisos molhados, as chamadas camisas ditas de Vénus, serviam também para o controlo da natalidade, e não emprenhar as fêmeas.
Caramba fiquei estupefacto perante a sabedoria do meu amigo, e fiquei grato por me ser permitido absorver tais ensinamentos.
Mas na minha inocência e recolhendo ao aconchego do meu colchão de folhelho, deparei-me com uma manifesta desolação.
Catano não iria ter balões para assoprar, mas divagando fiquei a pensar o porque do meu pai ter escondido as ditas numa caixa de fósforos? Aí a resposta aflorou na minha jovem mente, e seguindo a linhagem do ensinamento do meu amigo catedrático, logo imaginei que tinha a sua razão de ser, e que afinal o meu pai era muito inteligente.
A caixa de fósforos estava intimamente ligada. Afinal o conteúdo era usado para atear e controlar o fogo da minha progenitora, ou de outras moçoilas mais afoitas/esquentadas que deambulavam o moinho onde o meu pai trabalhava.
Agora percebia tudo, afinal aqueles pozinhos que se viam no fundo da caixa de fósforos, deveriam ser farinha centeia que por qualquer motivo tinha caído sem que o meu pai desse por ela.
Hoje na minha meninice de jovem ancião, concluo que afinal era pó de talco para conservar em bom estado aqueles disfarce/protecção dos órgãos…

Francesa, espero te ter roubado também um smile, e aproveito para dar os parabéns a todos que compõem este blog, agradecer pelos belos textos que nos são facultados.
Obrigados e continuem.
Carlos a 9 de Setembro de 2008 às 11:47

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