De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

19
Nov 08

- Siiiimmmm...
Ela estava habituada a alongar as vogais. Era um truque simples para parecer excitada. Na verdade, há muito tempo que ela não se excitava com os jogos deles ao telefone. O hábito começava a tornar-se desgastante. Mas ela entendia a necessidade.
E no fundo, não conseguia libertar-se completamente da expectativa do resultado.
- Siiim. Quero-te bem dentro de mim, uma e outra vez...
Quem a ouvisse diria que ela estava excitadíssima. Quem só a visse, veria apenas alguém com um telefone na mão, tentando despachar a chamada para se poder concentrar nos livros e cadernos espalhados à sua frente. Se lhe perguntassem, e ela tivesse coragem para ser honesta, diria que era uma habilidade de sobrevivência.
- Quero-te por trás, a puxar pela minha cintura, com força! - disse ela. - Gostas disso, não gostas?
- Sim - respondeu a voz do outro lado da linha. - Gosto. Sabes que gosto muito...
A voz dele pareceu mostrar algo que ela não ouvia há muito tempo, e por um segundo, sentiu a esperança a encher-lhe o peito. Largou a esferográfica, virou toda a atenção para o telefonema, e não resistiu a fazer a pergunta que já raramente fazia, muito menos daquela forma sôfrega.
- Estás excitado, querido? Estás, não estás?
- Muito mesmo...
Ela quase nem teve tempo para sentir o seu rosto a enrubescer. A excitação foi instantânea. Largou o telemóvel, correu para o quarto, e abriu a porta.
Ele estava sentado na cama, aparentando nem reparar na entrada dela. Tinha numa mão o comando da televisão, e na outra o telemóvel desligado.
- Então? - Perguntou ela, sem conseguir disfarçar a esperança na voz.
- Nada - respondeu ele. - Desculpa, amor, mas eu só estava a deixar-me ir. Ainda não voltou a resultar.
Ela não disse nada. Cabisbaixa, limitou-se a fechar a porta do quarto, e regressar aos estudos, amaldiçoando-se por se ter tido esperança, e ignorando a pequena lágrima a nascer no canto do seu olho.

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