De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

06
Nov 08

A Luísa tinha um velho espelho de família mesmo à entrada da porta, adorava ver-se ao espelho. Com o avançar da idade passou a gostar menos de se ver. Já o seu marido Alberto era diferente, raramente olhava para um espelho mesmo quando era novo. Os espelhos mexiam com ele a um nível interno, como se quisessem ter uma conversa em particular. Ficou contente quando a sua esposa lhe pediu para o guardar na Cave.

Estava a descer as escadas, quando o espelho fugiu-lhe das mãos trapalhonas, e ao tocar no chão dividiu-se em pequeníssimas partes. Em vez de sete anos de azar ficaram ali dezenas de pequenos espelhos a reflectirem o corpo envelhecido do Alberto. Reflexos de diversas formas como se fossem diferentes formas de o olhar, talvez por isso se deixou ficar a olhar para eles. “Quantas vidas podem um homem viver?”, pensou e deixou-se responder, “Tantas como as estrelas no céu”.

Versões e versões de versões dos seus momentos poderiam existir em outras realidades sem que soubesse. E se as conhecesse pessoalmente? Seria bom?

Imaginou-se casado com uma diferente mulher, com outra profissão, com outros pensamentos, enfim outras vidas. E aquelas vidas pareciam-lhe tão próximas que se deixou ficar nelas até os seus olhos se fecharem ao mundo físico. Embalado com diferentes e doces experiências de ideias deixou-se sonhar com outros homens que podia ter sido.

Muitos destes possíveis recantos existenciais já tinham sido visitados por ele. Estremeceu ao pensar em tantas coisas boas que poderia ter alcançado sem grande esforço. Sentia-se desiludido pelo facto de ter gerido a sua vida com pouca imaginação. Assumiu a responsabilidade de desenvolver a sua imaginação e expandir a consciência para poder ter uma existência mais rica. Foi isso mesmo que aconteceu, mas vocês que têm imaginação já sabem como é.

publicado às 08:32
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