De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

14
Nov 08

Paulo foi acordado a meio da noite por um leve restolhar, tão leve que por momentos não conseguiu decidir-se se tinha sido real ou se o tinha sonhado. Pouco depois, voltou a ouvi-lo, desta vez mais alto e real. Paulo abriu os olhos, e ergueu a cabeça. O quarto, vazio, estava semi-iluminado pela luz dos candeeiros da rua que lhe entrava pela janela. O restolhar voltou a soar, desta vez um pouco mais alto. Parecia-se com um molho de correntes de ferro enferrujadas a serem arrastadas por um chão de pedra no fim de um longo corredor, e estava a aproximar-se. Paulo sentou-se na cama e tentou perceber de onde vinha o barulho ou que criatura o estaria a produzir. O restolhar parou por uns instantes, deixando Paulo imerso em silêncio e confusão. Quando recomeçou, vindo da cabeceira da cama, era tão poderoso que engoliu todos os sons que lhe entravam pela janela com a pouca luz. Devagar, com medo a queimar-lhe o peito, Paulo virou-se nessa direcção.

A cabeceira, um banco de madeira a suportar um despertador digital e um candeeiro de secretária, continuava na mesma, inanimada. Mas a sua sombra, que se projectava pelo chão e na parede, estava… diferente. Paulo demorou algum tempo a perceber porquê. A sombra estava muito mais escura, de um negro líquido, como o alcatrão. Paulo não resistiu a tocar-lhe. A sombra agarrou-se-lhe à ponta dos dedos, gelando-os, e começou a cobrir-lhe a mão e depois o braço, o tronco e as pernas e a cabeça e finalmente Paulo estava coberto por aquela sombra, aquela escuridão, que o gelava.

 

Amanhece, a sombra desfaz-se, deixando o corpo gelado de Paulo estendido na cama. Ao acordar, Paulo não tem lembranças da noite anterior, mas a escuridão que o tomou, essa continuará para sempre consigo.

publicado às 19:35
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