De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

18
Nov 08

Passou a vida a esperar:

Sete meses para nascer, seis anos ler, dezoito para amar e a vida avançar.

Durante a sua espera, à sua volta, vozes alucinadas anunciaram:

O mundo vai acabar! O mundo vai acabar! Deus castigará os maus e salvará os bons! O mundo vai acabar! O mundo vai acabar!”

Passou então a esperar que o mundo acabasse.

“O mundo vai acabar e o não terminarei o sexto ano”, pensou ela, pesarosa.

O mundo… não acabou e a escola… continuou.

“O mundo vai acabar e não terminarei o décimo segundo ano”, pensou ela, desconfiada que andava enganada.

O mundo não acabou e na universidade ela entrou.

“O mundo vai acabar e morrerei virgem”, pensou ela em pânico.

O mundo não acabou e a vida avançou.

Então ela pensou:

“O mundo não vai acabar mas a morte irá chegar.

Vou então viver e tudo na vida absorver…”

Mas, todos à volta lhe diziam:

O mundo vai acabar, ó mulher de pouca fé!

Os ímpios irão sucumbir, apenas os justos viver!”

Romper com tal ciclo foi difícil.

Arrancou o seu primeiro grito de liberdade com suor, lágrimas e sangue. O seu nome rolou pela lama. E jurou a si mesma: “Jamais mentirei!” e nunca mais bateu às portas.

Conheceu o Amor, a Esperança nasceu e a Vida avançou mas a Espera recomeçou.

Esperou por ele para almoçar, para jantar, para a abraçar e para a amar.

Esperou por um olhar, por um toque e por uma palavra.

Cansada,sentido-se mais uma vez enganada, voltou a pensar: “A morte irá chegar, tenho que a aproveitar a vida!”

Arrancou o seu segundo grito de liberdade, agora com lágrimas, ódio e raiva. A si mesma jurou: “Homem algum me matará!”.

Agora, espera abraçar a vida

e que a morte demore!

 

publicado às 00:01

2 comentários:
Enquanto houver estradas para andar, a gente não vai parar.
Anónimo a 18 de Novembro de 2008 às 11:14

Se seguires a rota das aves voando sobre os lagos dos nevoeiros e sobre a letal vegetação dos pântanos, encontrarás o nítido perfil dos cerros e das cordilheiras, com a crua exposição dos ângulos e das arestas contra o céu.
E nada quererás de nenhuma eternidade, para além desta que te floresce nas mãos por um instante, nem da ressurreição com que te ameaçam, como um suborno de luz ou uma chantagem de sombra, para que aceites a morte sem pestanejar.
Ofereceram-te, como quem te ameaça, uma terra árida, o afluente de um rio, o laço de um nome, e esses silêncios hão-de gritar aos teus ouvidos a vida inteira e na larga hora da tua morte, a tua culpa, a tua omissão, sem que possas sequer esboçar um gesto de defesa.
Permanece nas alturas, não cedas à visão dos holocaustos, nem à espada do teu retrato à cabeceira da tua mãe.
Morre no ar sem deixar rasto.
Carlos Ventura a 18 de Novembro de 2008 às 11:23

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