De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

01
Jan 09

Verão demasiado quente, tão quente que parecia queimar.

Chamas a consumirem as residências de dezenas de crianças, um fumo espesso a envolver as vias respiratórias desses mesmos catraios e muitos gritos. As pessoas que assistiam ao evento pensavam no pior e secretamente agradeciam não ser directamente com elas. Um cenário desagradável aos olhos comuns.

No prédio em frente, alguém observava atentamente. Um homem bem parecido na casa dos trinta anos saboreava todo aquele caos, acompanhando os momentos flamejantes com pequenos gemidos de prazer. Era o segundo fogo que pegava naquela semana, andava muito mais calmo, talvez da idade. Desde os 17 anos que se dedicava a um hobbie incompreendido, começou por pequenas matas, depois passou a florestas, chegou a ser bombeiro (onde aprendeu a lidar realmente com o fogo). No seu vigésimo aniversário queimou um sem-abrigo, desses que ninguém se preocupa se desaparece. Continuou a contemplar a sua última obra, nada de bombeiros, aquela chama consumia tudo como uma língua de fogo. Alimentava-se de tudo o que encontrava. O brilho superava qualquer fogo de artifício de fim-de-ano , como desejava ter o poder de uma chama. Abençoado Prometeu que nos deu a conhecer essa magia.

Desceu as escadas e envolveu-se na multidão, ninguém desconfiava dele, perfeito anónimo entre outros tantos. Olhou de novo para as chamas que criara, que orgulho, que feito, que vivo que se sentia.

Sentiu um cheiro a queimado e viu uma rapariga sorridente a fugir da zona. Uma alma gémea! Correu desalmadamente numa tentativa de a apanhar para poder trocar ideias dos próximos sítios a incendiar. Por um instante parvo, imaginou os dois a serem pais de pequenos e engenhosos incendiários. Seriam uma família para incendiar o mundo. Com a confusão atravessou a estrada sem olhar e foi atropelado pelo carro dos bombeiros que seguiu para apagar o incêndio que tinha começado.

publicado às 14:57
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