O pescador remenda uma rede, sentado na areia.
«Ora viva! Belo dia!»
«Os dias no meu quintal são todos belos.»
«Quintal?»
«Quando éramos miúdos vinham pescar-nos às aldeias para entrarmos nas lides. Era bom trabalho! Era digno! Toda a gente dizia. Quando lá, aguentávamos anos de aprendizagem suada, todos os dias, começando bem cedinho, com a miragem de, no futuro, termos o nosso próprio barco, ou mesmo uma pequena frota! Quando conseguíamos, por sorte e muito labor, ter o nosso barco, sermos patrões, eles vinham pescar a sua parte... impostos... mas deixavam que os poucos que aí chegavam, como eu, pudessem ainda assim prosperar e chegar ao sonho de ter uma frota de pesca, com uma empresa e um escritório e tudo... É só então que a verdadeira pesca vem. Com taxas para isto, quotas para aquilo, desculpas com a Europa... enredam-te, amanham-te, cozinham-te e comem-te! Ficas velho, como eu, agarrado às espinhas da tua vida, forçado a viver sem casa... mas eu sobrevivi e encontrei casa aqui.» - aponta para uma pequena gruta, levantando-se - «Segue-me.»
«Mora ali, é?»
«Sim, também.»
«O que faz agora?»
«Ainda sou pescador... é ofício que nunca se larga.»
A luz do dia não acedia à gruta. Um cheiro estranho emanava lá de dentro.
«Cheira a podre...»
«Pois cheira... é assim que ficas, é assim que te deixam... podre, após uma vida inteira de serviço.»
«Mas quem? O governo?»
«O governo? Esse também é pescado.»
«Então quem é que nos pesca a todos?»
O homem encolhe os ombros, sorri e acende um isqueiro.
A imagem grotesca de corpos humanos em decomposição invade os olhos do rapaz. Pânico. Os sons ficam presos na garganta.
«É aquele todo-poderoso a quem obedecemos dentro e fora de nós próprios!»
E mais uma vida caiu nas redes do pescador.