De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

13
Jan 09

Bonita, mas sem consciência disso. Era olhada com desejo pelos homens. Ela não se apercebia. A idade da inocência ainda não lhe tinha estragado a boa-fé. 

Um dos seus prazeres era correr ou andar de bicicleta. Outro era estar sentada na margem do rio, apenas a ouvir a água a correr para o mar ou os pássaros a pipilar. E sentir o calor do Sol.

As miúdas da sua idade não partilhavam os mesmos prazeres, o que a tornava numa solitária. 

Na Primavera, os toiros da ganadaria próxima costumavam pastar na margem alargada do rio onde a erva era viçosa. Quem controlava a manada era o pastor, um homem de trinta e poucos anos, marido de uma matrona pesadíssima e pai de dois petizes ranhosos. Sempre de cigarro na mão, tinha olhos azuis, faróis na cara escurecida de tanto fumar.  

Como de costume, ela foi para a margem do rio juntar alguns dos seus prazeres, correr, sentir o calor primaveril do Sol e ouvir a água do rio a escapar pelas pedras. Apercebeu-se da presença dos toiros e do pastor, cumprimentando-o em passada de corrida. No fim da sua volta rápida, sentou-se mesmo na beirinha da água. Nessa altura a presença dele tornou-se incómoda, pois ele veio sentar-se mesmo ao lado dela. Assustada, ela levantou-se e desatou a correr, correr pela sua integridade. Chegou a casa exausta. 

Sentiu-se privada da liberdade.

Privada do seu prazer.

Acorrentada. 

Um dia venceu o medo e ela voltou para o rio.

Agora de bicicleta.

Não viu os toiros.

Pensou que estava sozinha.

Mas o pastor apareceu, também de bicicleta.

Ela pedalou pela vida, perseguida por ele e pelo seu riso escarninho.

Pedalou. Pedalou. 

As risadas foram morrendo.

Ela avançava, mais livre a cada pedalada.

Ele desistiu, cansado. 

Ela pensou: “De facto, fumar faz mal!”

publicado às 00:01

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