Sussurraram ao ouvido do Ruben, de uma forma sedutora, que tudo tinha um preço. Podia ser um preço alto ou baixo mas tudo o tem. Ele tinha então 16 anos mas esta conversa ficou sempre a pairar na sua mente. Por reacção devolveu uma questão: As pessoas também têm preço?
A resposta acompanhou uma gargalhada: "Quanto mais viveres mais vais conhecer a resposta à tua pergunta!"
Viveu duas décadas a pensar no tema. Parecia um absurdo considerar pessoas etiquetadas com um preço, a comportarem-se de acordo com o pagamento (seja de que natureza for), a apagarem sonhos deliberadamente por valores numéricos. Os seus pais sempre lhe disseram que não era assim. De alguma forma o seu desenvolvimento sempre foi no sentido de acreditar no melhor das pessoas (mesmo sabendo, que nem sempre agem assim, decidiu acreditar na melhor possibilidade, porque ela também ocorre).
Mas o que daria o Ruben para poder voar como um pássaro? O seu maior sonho.
Já tinha reparado num melro que insistia em carregar uma pedra com o dobro do seu peso. Um pássaro tão elegante que raramente saía do sítio, só a sua mente continuava a viajar por diversos planos da existência (notava-se pelos olhos pretos cintilantes).
Ruben ponderava como seria bom voar, perguntou ao melro como era essa sensação. A resposta foi um pouco desanimadora, nunca tinha voado pois não suportava o peso da pedra, voava apenas em sonhos.
Porque não deixava a pedra? Fora uma responsabilidade que assumira e já nem se lembrava porquê. Que bizarro! Inventar uma forma de limitar a própria natureza.
Acordou, olhou para o espelho, e viu o melro com pedra que tem sido. Pousou a pedra para aprender a voar, sem ter que vender a alma para o fazer. Havia preços que não estava disposto a pagar.