De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

23
Jan 09

António, sentado no borralho, comia a janta do pobre, sopa e broa, não por necessidade mas por avareza, já que tinha um gordo maço de notas enterrado, ao lado da oliveira, dentro de um tacho. A divisão era iluminada pela fogueira. António só ligava a luz aos domingos, para poupar na conta da electricidade. Olhava o fogo enquanto comia. Lá fora o nevoeiro, espesso como natas, ameaçava infiltrar-se pelas frestas da janela e arrefecer-lhe a casa. Acabou o copo de vinho tinto e deitou mais uma cavaca à fogueira. Estendeu uma esteira à beira do borralho e ai se deitou aquecido pelo fogo.

    Acorda sobressaltado antes de amanhecer. Sonhara que alguém o olhava através da janela da cozinha, vindo do nevoeiro. António está com frio, já que da fogueira moribunda pouco calor se liberta. Levanta-se e recolhe as brasas escondidas por entre as cinzas. Olha pelo canto do olho para a janela, como que a confirmar que o sonho já tinha terminado. O sol começara a raiar, a sua luz ténue difundida pelo nevoeiro tornava-o menos desconsolado. António chega-se à janela. O coração ainda lhe pesa do sonho e agora começa a ser apossado pelas memórias da mulher. Foi a sua desgraça casar-se com uma mulher assim, que só gastava. Mas livrou-se dela a tempo.

    António assim fica, preso no passado, até ser despertado por um vulto no nevoeiro. Sai de casa disparado convencido que lhe tinham roubado o dinheiro. Corre atrás do vulto gritando impropérios. Aos seus ouvidos chegam-lhe gargalhadas e risinhos.

    “Estão todos contra mim. Todos! Tudo atrás do meu dinheiro!”

    

António, cego pela avareza, corre atrás de um vulto no nevoeiro. Corre até cair da mesma falésia de onde empurrara o irmão, a esposa e um vizinho. Matou-os por dinheiro, e por dinheiro morre António também. 
publicado às 11:46
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