De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

19
Fev 09

Numa rua fria e movimentada, vivia o Homenzinho. Rodeado pela poluição de mais de mil tubos de escape, ele comia uma refeição ligeira dentro do seu quiosque com livros manuseados. Nada da sua vida espelhava as suas mais perfeitas ideias de como seria viver bem. Durante anos a ouvir buzinadelas de carros,lamentar de pessoas, rixas e outras cegadas, levaram a que a sua mente passasse a ler o mundo com novos níveis de entendimento. 

O rendimento obtido no quiosque não tapava o buraco negro da ganância. Como qualquer amante de leituras de contracapas sabia como puxar a atenção de quem por ali passsava. Com o tempo desenvolveu um instinto apurado para reconhecer coisas que davam dinheiro. 

O contacto com o grupo  “Arquitectos" ampliou a área de acção, passou a ter uma rede de contactos com o submundo do crime literário e a aceder a livros baratíssimos. Concebeu um esquema genial, vender banda desenhada usada a adolescentes com acne. Comprava a 10 escudos, vendia a mil. Comprava a 50 escudos, vendia a 5000. Rios de dinheiro encheram os seus bolsos. Por desconfiar dos Bancos, guardava o dinheiro no colchão, sempre em segredo da família. O seu poder tornou-se lendário, do quiosque controlava a economia do país e a comunicação social. 

Dois jovens, cujas identidades temos de manter em segredo, trabalharam disfarçados fingindo-se interessados nas sugestões literárias do Homenzinho. Reunidas provas comprometedoras, a polícia avançou um cerco ao quiosque. Num acto de desespero, pegou fogo ao seu prórprio quiosque e desapareceu nas cinzas. Nenhum corpo foi encontrado, nem nenhuma pista sobre os “Arquitectos” foi sólida para os apanhar. Todo o submundo do crime literário ficou em brasa com as chamas daquela noite e assim começou  a guerra pelo legado do Homenzinho, mas isso é uma outra história para outra altura.

 

Este conto é dedicado ao meu amigo Rui G. e às nossas aventuras com o verdadeiro Homenzinho.

publicado às 00:01
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comentário:
Um conto notável, e só te direi que falta toda uma descrição umberto-ecoiana desse verdadeiro templo a Mammon, que era o quiosque do Homenzinho. Descrição de que eu não sou capaz; porém, farei um plágio de mau gosto.
O quiosque era um paralelepípedo, aparentemente reluzente (para além de reles e vulgar), que ocultava em si toda uma elaborada rede de distracções e subdistracções, destinada a entreter e a encapuçar os profanos e os meta-profanos, que fossem lá desperdiçar o seu tempo e capital, em troca de mistério e de fascinação.
As prateleiras, axadrezadas, tinham uma arquitectónica de mil facetas, mil pontos de luz, com bds sobre super-humanos, tomos vigarísticos sobre mistérios egípcios, segredos das eras, e ascensões atlantes, e até algumas revistas da playboy. Mas, e por detrás dos mil pontos de distracção, o Homenzinho conhecia o verdadeiro segredo, que era o de não existir segredo. Por debaixo de si próprio, para se suportar, o Homenzinho ocultava nomes - Pike, Mackey, Weishaupt. E revelava-os com Bergier e outros pequenos meliantes.
Qual feiticeiro de Oz, com a sua barba repleta de manha e banha, o Homenzinho entretia o público, e projectava a realidade que lhe dava, moldando percepções para miúdos e graúdos. Durante todo o tempo ria-se, concorvado, preso pelas linhas perfeitamente desenhadas, que moldavam o seu próprio segmento, o seu próprio casulo, da pirâmide de cujo topo acreditava estar tão próximo.
Rui a 26 de Fevereiro de 2009 às 10:27

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