De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

20
Ago 08

- O meu corpo é o meu templo! Raios me partam se vou viver num templo igual ao dos outros!
Ele não estava a brincar. Era bem possível que raios o partissem. Não só pelos piercings abundantes, mas também pelos cornos implantados por baixo da pele da testa. Só tinham uns três centímetros de altura, mas se fossem metálicos, até podiam atrair relâmpagos. Pensei em perguntar-lhe, mas ele levava as filosofias da modificação corporal a sério, e não o queria ofender.
Serviu-me o jantar, que estava excelente. Fui comendo enquanto ele falava.
- Não acho que o nosso corpo seja perfeito. Os transsexuais são o exemplo mais extremo de que o corpo com que nascemos é-nos dado por defeito. Cabe-nos explorá-lo e melhorá-lo, até ás últimas consequências, para que exprima melhor quem realmente somos.
Ele colocou o prato dele na mesa, só com um pequeníssimo pedaço de algo no centro.
- Só isso? - perguntei.
- Só. Quer provar?
Ele cortou um pedaço de uma das pontas, e colocou-o no meu prato. A textura era estranha, mas não sabia mal.
- Que tal sabe? Admito que estou curioso.
- Podia ser pior. Mas curioso? Porquê?
- Porque nunca provei. É uma ocasião especial. Hoje faz uma década desde que abracei a minha filosofia de body-modding. E sendo um marco importante, decidi fazer algo que só pretendo fazer mais uma vez.
Sabia que não ia gostar da resposta, mas tive que perguntar.
- Isto é o quê, afinal?
- O meu testículo esquerdo.
Não me lembro do resto da noite. Sei que saí a vomitar, e passei horas mal disposto.
Ele passou semanas a tentar contactar-me, sempre a desculpar-se, que não tinha sido por mal. Eu acreditei, mas nunca respondi.
Meses depois, soube que ele tinha morrido. Atingido por um relâmpago.

publicado às 00:01
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