De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

30
Mar 09

No último piso do Centro Comercial, sentada num sofá de napa azul índigo, entretida com o Novo Livro que acabara de comprar na livraria do piso de baixo e a aproveitar a luz natural que espraiava da clarabóia, estava à espera dos amigos para ir almoçar.

Um movimento anormal, apenas adivinhado ao fundo do seu campo de visão, chamou a sua atenção: na clarabóia, um vulto mexia-se. Um homem sentado numa tábua presa por dois cabos seguros a um principal, preso num local invisível, munido de um balde e de uma escova para limpar vidros, fazia acrobacias impensáveis a 50 metros de altura.

Da atenção indivisa ao Novo Livro, passou a estar atenta ao Sr. Lavador dos Vidros da Clarabóia do Centro Comercial. A cada passagem da escova, o sujo desaparecia e a sombra da água a escorrer criava imagens que lhe alimentavam a imaginação. Absorta nestes desenhos e pelos malabarismos do Sr. Lavador de Vidros, que se esticava, sentado na ponta da tábua, para chegar ao ponto mais distante do vidro, quase que ia morrendo de susto quando ouviu um apito de alarme no lado de dentro do Centro Comercial.

Um homem baixo, quarentão, vítima de Trissomia 21 divertia-se a assobiar o aviso de marcha-atrás da maquinaria pesada. A diversão dele passou a ser a sua e ela saboreou a alegria do Homem Apito durante uns minutos.

Entretanto, olhou para cima e o Sr. Lavador de Vidros desaparecera: a tábua baloiçava pendurada…

Aflita, olhou à sua volta, procurando olhares cúmplices do seu, mas apenas viu o olhar vazio dos lojistas desocupados.

Ia chamar socorro e…

- Aí estás! - disse um colega. - Já tocou e tu a inventares histórias como de costume…

E ela foi, mais uma vez, dar uma aula na Escola Velha e Cinzenta, com vidros sujos e sem clarabóias.

publicado às 00:01

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