De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

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Jun 09

Sempre que conseguia acordar cedo e ir para a rua desfrutar do nascer do sol, lá estava ela, a Velha, a caminhar curvada sob o peso dos seus muitos anos, com um balde de laranjas, cada ano mais vazio e com um pau comprido na outra mão.
O que estava bem preso numa das pontas deste pau sempre me fascinou: Parecia um vaso de flores, feito de lata de flandres, apenas cortado na base o suficiente para encaixar sob pressão no pau e, na parte superior, recortado em triângulos pontiagudos. Assim, sempre que a Velha queria apanhar alguma laranja mais alta, bastava-lhe estender o pau, colocar a laranja no vaso e rodá-lo, até partir o pé da fruta e colocá-la na boca escancarada do balde faminto.
Conheci a Velha quando fui morar naquela aldeia. De todas as vezes que me cruzei com ela, me interroguei com o que faria a tantas laranjas. Numa manhã de nevoeiro, em pleno tempo das laranjas, esperei por ela e segui-a: E ela foi pelos eitos fora, quintais adentro, visitar cada laranjeira da terra. Apenas apanhava duas ou três laranjas, das mais altas, aquelas onde ninguém chegava, mas eram mais doces, pois apanhavam mais sol.
A Velha roubava as laranjas! Andei uns tempos a magicar no assunto, mas mais ninguém se preocupava com o assunto e como a vida se encarregou de ocupar a minha mente com assuntos prementes, nunca mais pensei nisso.
Então, a Morte visitou a Velha. Ninguém a chorou, pois a solidão era a sua família chegada. Talvez os donos das laranjeiras festejassem secretamente, se alguma vez tivessem desconfiado das visitas dela.
Nessa semana, no mercado da Vila, outra Velha que vendia laranjas abeirou-se e perguntou: “Então, a Ti’Amélia lá morreu, não é? Que ricas laranjas ela me trazia. Devia ter cá um laranjal!...”

publicado às 00:01

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