De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

10
Set 08

Chorámos os dois, sentados na cama.
- Posso dar-te só mais um abraço? - perguntei.
Ela continuava a não olhar para mim, mas acenou afirmativamente. Dei-lhe um abraço, com todo o amor que consegui, preparado para que fosse a última vez que nos tocávamos.
Eu sabia que seria difícil, mas nunca pensei que a despedida doesse tanto. Nem podia. Não obstante algumas paixonetas ocasionais, ela tinha sido a primeira mulher que eu realmente amara. E por muito que me custasse, ela não tinha culpa de não sentir o mesmo.
E certamente não merecia estar a sofrer também, mas eu sabia que precisávamos de cortar laços para seguir em frente.
Ela interrompeu o abraço, ainda sem me olhar nos olhos. Ela nunca me olhava nos olhos, acho que lhe doía demais.
- Está na hora de te ires embora - disse, trémula.
Acedi, e dirigimo-nos para a porta. Parei.
- Tenho uma coisa para ti - disse-lhe, tirando o quadrado de plástico do bolso.
Por mais que tencionasse cortar todos os laços, eu sentia uma estranha necessidade de lhe dar algo. Não uma prenda comum. Algo de meu, de mim. Não tinha grande coisa que encaixasse na descrição, por isso decidi-me pelo meu CD do Nebraska, do Springsteen. Tinha-o comprado quando era miúdo, ainda antes de ter sequer onde ouvi-lo, mas queria-o na mesma, de tal forma gostava do álbum.
Sabia que ela não gostava, mas não me interessou. Era importante para mim, por isso dei-lho. Ela aceitou-o. Junto à porta, dei-lhe mais um abraço lavado em lágrimas, longo em tempo, mas curto demais. Disse uma piada péssima, não me lembro qual. Ela riu-se na mesma.
Dissemos adeus. E deixei-a para trás.
Não sei se chegou a ouvir o CD. Nem quero. Acho que prefiro isso a saber que não gostou.

publicado jjnopants às 00:01
Autoria::

Bom dia Luis

Tenho-te a dizer que deveria ser proibido escrever posts como este que acabam por nos arrancar alguma lágrima mais solitária e ao mesmo tempo solidário com o autor e das personagens sofredora.
Em abono da verdade, escreves muitíssimo bem, e esta história que poderá acontecer com personagens várias é bem real.
Tenho-te a dizer que quem lê este post “só não chora quem não tem coração”.
Acontece que fiquei um tanto sensibilizado, mas ao mesmo tempo revoltado com a dama, mas eu explico:
- É que isto de amar uma mulher, sem esse amor ser retribuído (o que acho uma grande injustiça), ainda por cima oferecer-lhe um Cd que ele adorava, é demasiada ingratidão para ser suportado por um ser humano.
- Sabes? Um dia quando era mais jovenzito, também ofereci a uma idolatrada namorada um serviço de café de uma loiça típica aqui na minha região, e que me custou um balúrdio, podes crer que hoje estou arrependido, pois quando tomo café em casa, a minha Maria serve-me a bica em chávenas made em China.
Mas nesta globalidade, onde cada vez mais as mulheres se assemelham aos machos, perdendo toda a feminilidade que induzia o nosso libido na busca incansável dessa distinta qualidade, é aceitável que elas com o passar dos tempos fiquem com o coração cada vez mais empedernido, recusando o amor, mas aceitando ao mesmo tempo algo que sabia que para ele tinha muito valor.
Quem sabe se a seguir ela não o foi vender à loja da esquina onde vendiam Cd´s em 2ª mão, e cujo empregado de balcão já há uns tempos que lhe andava a catrapiscar o olho.
Mas em jeito de opinião, deve este personagem tentar esquecer este nefasto episódio da sua vida, que compre um Cd da Madonna, que está quase na casa do 50 anitos, diz fazer 300 abdominais por dia e tem uma silhueta de que muitas mais novas se invejam.
E olha ele deve apaixonar-se muitas vezes, mas catano, que não ofereça o Cd, salvo se não gostar desse género de inspiração.
Continua Luis e obrigado por nos permitires ler esta pequena história de vida.
Carlos a 10 de Setembro de 2008 às 09:58

Obrigado, Carlos, pelo excelente comentário. Em dois dias, acho que te assumiste como o nosso melhor comentador. :D
Obrigado também pelos elogios. Há dias em que concordo com eles, outros (a maioria) em que não concordo de todo. Mas sabe sempre bem ouvi-los.
Quanto o resto do teu comentário, espero que me perdoes, mas acho que não devo responder em pormenor. Há elementos verídicos neste texto, e não me sentiria bem em falar de terceiros. Espero que compreendas.
Mais uma vez, obrigado. Espero continuar a ver-te por aqui.
Abraço!
Luís F. Alves a 10 de Setembro de 2008 às 12:38

Luis

Como da discussão nasce a luz, segundo método empregue pelos nossos representantes no hemiciclo, (todos sabemos que por vezes nem é assim, mas para ficarem contentes, até tentamos digerir o batráquio, mas deixemos as perninhas de fora, para eles verem que não somos assim tão lorpas). Julgo que ainda será muito cedo para se tirarem conclusões acerca deste vosso blog.
É inegável que esta muito bem estruturado, que contem bons textos com assuntos diversos, dignos de serem comentados, mas como sabes neste cantinho da Ibéria onde se dá mais valor ás revistinhas cor de rosa, ou melhor dizendo do cabaneiredo, é normal em se não valorizar aquilo que sabemos fazer com qualidade.
Ainda ontem, e lendo um texto acerca da implementação do Plano Nacional de Leitura, introduzido pelo Ministério da Educação, incentivando os jovens a ler mais, ou seja a valorizar a parte cultural que contribui para a boa formação cultural e pessoal do cidadão, conclui-se que os jovens não estão de forma nenhuma vocacionados para a leitura.
Culpas???
Existem decerto muitos culpados, a sociedade em geral, a decadência do tempo passado em família, planos escolares mal direccionados, e muitos mais que poderíamos enumerar, que foram introduzidos pelo nome sonante, mas que em campo, não deram resultados alguns.
Sabes que presentemente a miudagem (os homens e mulheres de amanha) tem tudo á velocidade de um simples click. Clicam na tecla do “celular” (já estou a empregar e a superar o acordo ortográfico, que desde já me nego a aceitar), clicam na tecla da Playstation, clicam no rato do computador (mas maioritariamente na versão – Jogos), e claro clicam na tecla do comando da Tv.
Coitados, não tem culpa. Vivem rodeados de muitos meios que consomem avidamente, mas que ao mesmo tempo também são consumidos.
Os pais, na sua manifesta corrida olímpica, inerente aos requisitos profissionais, cedem e proporcionam todo este “bem-estar” balofo em que manifestamente inserimos os nossos pimpolhos.
Aliado a este manifesto “bem-estar” incutido e proporcionado aos jovens, verifica-se uma iliteracia por parte dos progenitores, que não possuem a motivação de incutir nos seus filhos a necessidade de leitura.
Daí que os mais jovens não tenham a curiosidade de explorar o livro e o seu conteúdo, e todos sabemos que a leitura é a pedra basilar para o crescimento interior, tornando o indivíduo mais rico e completo a todos os níveis, e contribuindo desta forma para gerações vindouras mais homogéneas, mas cultas e mais solidárias.
Parafraseando e comungando da opinião expressa pela pedagoga Dora Batalim, que nos diz que “Serão precisas muitas e muitas gerações para que os portugueses «desdramatizem» a sua relação com o livro”, então não será de estranhar que a leitura seja relevada para um plano secundário.
Já dizia um imperador romano que “existe uma terra para os lados da Hispania, habitada por um povo que nem governa nem se deixa governar”, daí já o nosso ancestral desleixo.

Um abraço
Carlos a 11 de Setembro de 2008 às 12:36

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.


subscrever feeds
pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

blogs SAPO