De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

24
Jun 08

Cristina ouviu chamar ao longe. Prestou mais atenção e, de facto, alguém a chamava. Levantou-se do sofá, onde lia e saiu. O ruído da rua não a impedia de ouvir o chamamento. Alguém, ou algo, a chamava:

Crissttttiiiiiinnnnnnnaaaaaaaaa…. Crissttttiiiiiinnnnnnnaaaaaaaaa …..

e ela foi.

Dirigiu-se para o rio, de onde vinha o chamamento.

Chegada lá, procurou, mas não viu ninguém.

Intrigada, sentou-se na margem e ficou atenta. Concentrou-se. Desapontada, apenas ouvia a água a correr entre as pedras aquecidas pelo sol. O pipilar da passarada esvoaçante também era audível.

Tão concentrada nos sons que a rodeavam, à espera de ouvir o seu nome outra vez, Cristina não reparou na magia que acontecia ao seu lado. Todas as plantas cresciam ao ritmo da sua pulsação: por cada bater do coração dela, os caules pulavam e as folhas alargavam.

Um sentimento desconhecido invadiu-a, provocando-lhe um arrepio que percorreu o seu corpo todo. Teve urgência de abraçar o mundo.

Deixou o seu corpo deslizar na erva fresca e macia e ficou deitada a olhar o céu. Um bando de gaivotas dançava em sua honra. Estonteada, voltou-se de rosto para o chão, abriu os braços lentamente e abraçou a Terra. Sentiu-se comungar com a Natureza e desejou nunca mais se separar. Este sentimento de comunhão foi tão forte que desmaiou.

Entretanto, a flora à sua volta continuava no seu crescimento desmesuradamente e começou a enrolar-se nos braços e pernas da jovem inanimada. Debaixo do seu corpo as ervas afastavam-se para dar lugar à terra limpa e esta, por sua vez, abria-se para ajeitar uma cama para Cristina que ia afundando.

Embora desmaiada, um calor apoderava-se do seu corpo e ela sentia um conforto absoluto. O prazer era tão intenso que derretia, húmida.

Cristina abriu os olhos e descobriu que estava no ventre Mãe.

 

publicado jjnopants às 00:01
editado por Francesca Cortez às 16:47

6 comentários:
Maravilhoso, empolgante e surpreendente!
Rui Diniz a 24 de Junho de 2008 às 09:44

Lindo!
Barbi a 24 de Junho de 2008 às 10:24

:) Mágico. bjo
Jorge a 24 de Junho de 2008 às 11:19

Não quero ser o único palhaço do grupo a não comentar, por isso repito o que já tinha dito pessoalmente:
Gostei muito :)
Luís F. Alves a 24 de Junho de 2008 às 11:25

Lurdes ou Victória...pouco importa o nome. Há coisa mais aconchegante que uns belos decilitros de líquido amniótico?

Rui Ferreira a 24 de Junho de 2008 às 13:16

Uinnnnnnnnnnnnndoooooooooooo.....a fauna à sua volta não seria trigo que servia de cama a ela e ao seu fiel amigo ....:-)
Um beijo, até faz "pular" o coração
Ccarfinos a 24 de Junho de 2008 às 14:56

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