De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

15
Jul 08

Toda a gente já sabia, menos Amélia, que foi a última a saber. Lenta e inexoravelmente, a morte fria e insensível aproximava-se, rondava-lhe os calcanhares e, mesmo assim, ela não a via.


O primeiro sintoma foi a falta de ar. Para Amélia, respirar era penoso.
Depois, surgiu a dor no peito.
Dor intensa.
Dor imensa.
Dor interminável.
Dor infinita, sem fim visível, que se alastrava para os braços, para as mãos, tornando-as dormentes.
 

De seguida, apareceram as tremuras e a falta de força.
 

Finalmente, a exaustão total. A falência emocional. O vazio.
 

Foi só nessa altura que Amélia a viu:
A morte.
 

Amélia viu a morte ali, à sua espera.
Tentou ignorá-la, fechou os olhos, pensando que, quando os abrisse, a morte já não estivesse lá, como se de um pesadelo se tratasse.
 

Tentou evitá-la, fugir, fintá-la:
vestiu-se com outras cores,
maquilhou-se,
cortou o cabelo,
deixou crescer o cabelo,
mudou de penteado,
mudou de perfume,
mudou de casa,
mudou de cidade,
mudou de emprego,
mas a morte continuava à sua espera.
 

Então, sem escolha, Amélia, resignou-se, preparou-se, na esperança de não sofrer demasiado. Esperança que a morte fosse rápida, meiga e indolor.
Cheia de coragem, Amélia preparou-se para o inevitável.
 

Foi ontem que a morte chegou. João veio a casa buscar a roupa emalada, os sapatos encaixotados, as camisas penduradas, jantou, bebeu um café, beijou os filhos, deu um beijo cheio de ternura na testa de Amélia e, foi-se embora. Saiu de casa, de vez.
 

À medida que João descia as escadas, à medida que os passos dele pisavam os degraus, a terra começou a tapá-la, o ar fugia-lhe e ela sufocava. Quando João saiu e fechou a porta, Amélia já estava enterrada, debaixo de dezasseis palmos de terra.

publicado às 00:01
editado por Francesca Cortez em 03/07/2008 às 02:54

5 comentários:
Muito bom.
Gostei muito, mesmo.
Hermengarda a 15 de Julho de 2008 às 00:09

Obrigada Hermengarda.
Um elogio vindo de quem vive das letras é muito bom.

Parabéns! Gostei!
xana a 15 de Julho de 2008 às 20:52

A ficção baseada na dura realidade que foi o teu passado.
A limpeza da tua alma.
Espero que um dia abraces novas histórias e que relates os teus sonhos na busca da tal felicidade.
É como aquela senhora doutora disse um dia, o divórcio fez-te bem: começaste a escrever, se calhar já devias te-lo feito há mais tempo.
Beijinhos Francesca!
Rosinha a 16 de Julho de 2008 às 17:05

Obrigada Rosinha.
Pelas palavras e, principalmente, pelo apoio incondicional que me deste.
És uma bela Rosinha no jardim da minha Casa.
Sou feliz por ter tantas flores no meu jardim.
Mais uma vez, obrigada...

Adoro-te!

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