Sempre que algum aluno atravessava a linha da normal irreverência da adolescência e passava a ser mal educado, rude ou violento com ela, Francisca tinha um truque. Imaginava-se a matá-lo de forma violenta, sangrenta e dolorosa. Assim, conseguia acalmar a sua fúria e humilhação. No entanto, tinha vergonha de o fazer e tal estratégia era o seu segredo mais bem guardado.
A sua imaginação livre era povoada por flashs sádicos de arrastar o aluno, pendurá-lo numa varanda pelos pés e ficar um tempo a apreciar o seu feito: um aluno ex-big bad wolf a gritar por misericórdia e a chorar pela mãe. Adorava imaginar-se a olhá-lo com o mesmo olhar com que costuma ser olhada. A seguir um ligeiro bullying: rir-se na cara dele, insultá-lo e dar-lhe calduços. Nada de novo.
De seguida, desatava à pancada com um taco de baseball.
Batia nas pernas e batia nas costas.
Batia nas pernas, uma, duas, três, quatro vezes até partir a tíbia.
Voltava às costas até sentir uma costela estalar.
Continuava, até rebentar-lhe o fígado e o sangue verter pela boca.
Finalmente, desferia a tacada de misericórdia: rebentava-lhe a cabeça!
Todo o chão em redor ficava vermelho de sangue. A sua roupa acabava empapada do mesmo sangue que minutos antes dava vida àquele aluno e do suor exsudado por ambos os corpos, um de medo, outro de excitação. Na sua imaginação ficava suada e ofegante mas vingada na sua dignidade e honra.
Esta catarse funcionava. Conseguia sorrir para o aluno visado na sua imaginação e resolver a situação problemática com alguma calma.
Hoje, Francisca fez anos. Chegou à escola e recebeu algumas felicitações de colegas. Agarrou no livro de ponto e dirigiu-se à sala de aula. Entrou, os alunos entoaram Parabéns a Você e, como prenda, ofereceram-lhe um taco de baseball!