De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

17
Jun 09

Assim que a enfermeira deixou o quarto, Filipe deitou o cigarro à boca e acendeu-o com o isqueiro velho. Tossiu violentamente dois segundos depois.
Definitivamente, ele não era fumador. Mas pelo menos, agora tinha a certeza disso.
Era das poucas certezas que tinha desde o acidente, e agarrava-se a elas. Afinal de contas, quem não tem memória agarra-se às experiências que vai tendo. Especialmente as que lhe dizem algo sobre quem é.
Olhou para os montes de caixas de arquivo morto que lhe tinham trazido, supostamente da sua casa. "Não sei até que ponto a casa é minha, se não me lembro de alguma vez lá ter posto os pés, mas pronto."
Fez por afastar o pensamento da sua mente. Pegou numa das cerca de 50 caixas, e abriu-a.
"Pelos vistos gosto de escrever..."
A caixa estava cheia de folhas soltas, umas com ideias rascunhadas, outras com histórias. Pegou noutra caixa, e noutra, e noutra, e o conteúdo de todas era semelhante. Páginas soltas com textos claramente autobiográficos, recortes de artigos de revistas escritos por sí, histórias inteiras e por terminar. Tudo isto com assuntos dos mais diversos, desde sexo e amor até colónias noutros planetas, passando por meditações pessoais e entrevistas com gente estranha.
Muitos dos textos eram demasiado curtos ou genéricos para perceber se eram reais ou ficção. Mas Filipe sabia que perdido algures naquele puzzle de palavras, estava boa parte do seu passado. Não fazia era ideia de como o perceber...
Passou horas de volta das 50 caixas, até que tomou uma decisão. Despejou tudo no chão, e deitou fogo a todas as folhas.
E sem apagar o isqueiro, acendeu um cigarro.
Desta vez não tossiu. Pelo contrário, suspirou de alívio.
"Que se lixe", pensou, não contendo um sorriso. "Não fumava? Agora fumo. O resto já não interessa."


10
Jun 09

Ainda me recordo de ser criança, e ter medo de ser um lobisomem.
Costumava ficar acordado nas noites de lua cheia, receoso de que o monstro dentro de mim saísse se eu adormecesse. Assim que sentia alguma comichão, ou outra sensação fora do normal, entrava em pânico, com medo de que a transformação estivesse a começar.
Os medos eram infundados, claro. Nunca me transformei em nada, nunca saiu nenhum monstro de dentro de mim.
O medo passou eventualmente, mas acho que nunca desapareceu. Toda a vida fui o género de pessoa que evita conflitos a todo o custo, e que tenta nunca colocar-se em posição de perder o controle.
Talvez esteja relacionado, ou talvez sejam apenas dois reflexos distintos de um mesmo traço de personalidade.
O certo é que a lua cheia continua a deixar-me nervoso.
Mas não hoje.
Hoje, a luz prateada banha-me e sinto-me livre.
Sinto a cabeça leve.
Não me recordo bem\do que aconteceu. Só de passar em frente ao beco onde estou, e cruzar-me com um homem que nunca tinha visto antes. Depois disso, nada.
Olho para mim mesmo, e pergunto-me de onde terá vindo todo este sangue, até que vejo o corpo estendido no chão, de face quase disforme.
É o homem com quem me cruzei.
Não sei porque lhe fiz isto. Mas em vez de perder a cabeça, sinto-me mais livre do que nunca. Sinto-me feliz.
Olho para as minhas mãos, em dúvida. Mas não, são as minhas mãos, idênticas ao de sempre. Humanas. Manchadas de sangue, mas normais.
Apetece-me rir, pular!
Em vez disso, agacho-me, e com uma dentada, arranco um pedaço do braço inerte da minha vítima. Mastigo-o, engulo-o, e sabe-me melhor que qualquer outra coisa que tenha comido.
Rendo-me à minha natureza, e repito. Todo o medo que tinha de me libertar desaparece.
E finalmente, aceito-me como realmente sou.

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03
Jun 09

A primeira coisa que notei na casa de João foi o ar pesado. Todos os estores estavam fechados, e a sala onde me recebeu estava apenas iluminada pelo monitor do computador.
João contrastava com o ambiente. Sorriso aberto e bem disposto, roupa de cores vivas, embora simples, e um aperto de mão forte e animado.
- Há seis anos - disse, em resposta à minha primeira pergunta. - Não preciso de sair de casa. Tudo o que preciso posso encomendar, por computador ou telefone.
- Mas tem medo do mundo exterior, ou de germes, ou...
- Nada disso. Simplesmente habituei-me ao conforto de viver sempre dentro de casa, e conclui que não há razão nenhuma para sair.
- E não sente falta de vida social? Ou mesmo romântica? A maioria das pessoas tem dificuldades em viver sem o contacto com os outros...
- E eu também tenho. Mas sempre fui algo solitário por natureza, e por isso não sinto tanta falta como os outros. E a falta que sinto compenso online. Eu estou sempre em contacto com os meus amigos, seja por mail ou mensagens instantâneas.
- Bom... Perdoe-me, mas tenho que perguntar. E quanto a sexo?
João riu-se.
- Sexo também se pode encontrar online. Já tive uma namorada que conheci na net, e não é a primeira vez que... encomendo, digamos...
Ao longo de toda a entrevista, João surpreendeu-me com quão bem ajustado estava à sua vida isolada.
Eventualmente, senti a garganta seca, e pedi-lhe água. Ele foi à cozinha, e não resisti a olhar para o sempre aceso monitor, onde estava aberto o Messenger dele.
Todos os contactos dele eram bots, a publicitar sites de webcams eróticas, ou algo de semelhante. Nenhum deles tinha uma pessoa autêntica por trás.
Quanto terminámos, João despediu-se com o mesmo sorriso com que me recebera.
Ainda não sei se o sorriso era suposto enganar-me a mim, ou a ele.

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27
Mai 09

Data estelar - 34782.19. Diário de bordo do Comandante Jerónimo Onn Jaks, da nave espacial Valentia.


Ainda não foi hoje que me suícidei.
Por mais tentador que seja, ainda não tive a coragem de seguir o exemplo da maioria da minha tripulação. Já vai na terceira morte desta semana.
É verdade que o índice de suicídio das naves exploradoras é sempre alto, mas o da Valentia parece destinado a bater todos os recordes. Olho para os rostos da tripulação, e vejo-os tristes, deprimidos. Sem vida. Daí ao suicídio não vai grande distância. E suponho que eu próprio não estou diferente.
Ás vezes, interrogo-me porquê. Mas basta-me olhar para fora da nave, e percebo.

O Espaço é tudo o que está lá fora. Enorme. Negro. E acima de tudo, vazio.

Mandam-nos da Terra para procurar novos mundos, novas terras, novas civilizações. E nós vamos. Inicialmente, penso que íamos pelo espírito de aventura, pela vontade de descobrir coisas novas. Mas isso foi há séculos. Agora vamos porque não sabemos mais que fazer, porque procuramos um propósito.
Mas nunca encontramos nada. Só planetas vazios. Nunca há sinais de vida, passada ou presente. E em vez de encontrarmos um propósito para as nossas vidas, somos confrontados com a verdadeira falta de sentido delas. Porque estamos aparentemente sozinhos no Universo. E no vazio do Espaço, essa solidão é insuportável.

Por isso o que realmente me espanta é que ainda alguém encontre forças para se agarrar à vida.

Pessoalmente, é porque tento ainda ter força para estar com a Valentia quando um dia ela voltar a casa permanentemente.

Quem dera poder fazer ver aos nossos líderes que é melhor desistir de uma vez. Esquecer que alguma vez explorámos o espaço.
Quem dera que percebessem que mais vale agarrarmo-nos à fé que teimarmos em matar a esperança.

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20
Mai 09

Pedro ainda não conseguira desviar o olhar dos copos de água. Eram absolutamente idênticos, até no nivel de líquido que continham. E isso perturbava-o. Bem mais do que gostaria.

Afinal de contas, ele devia estar radiante, não perturbado. Tinha conseguido, após anos de pesquisa e experiências falhadas, fazer o que todos julgavam impossível: abrir um portal para um universo paralelo.

Todos, claro, menos ele. Ele SABIA que era possível. Sabia que as suas capacidades singulares e o seu ponto de vista único triunfariam.

E tinha razão. Naquela tarde, Pedro bebeu um gole do copo de água que mantinha consigo quando trabalhava, ligou o gerador de energia negativa, e viu o ar a desdobrar-se sobre si mesmo, abrindo uma porta para outro universo.

E dessa porta semi-visivel, surgiu um homem. Exactamente igual a Pedro.

O Outro Pedro não falou, limitou-se a sorrir. Da sua parte, Pedro não sabia sequer o que pensar, quanto mais dizer. Sentia todas as suas fundações deitadas por terra, e nem sabia porquê.

O Outro não esperou por nenhuma reacção. Avançou até ao copo de água de Pedro, e colocou outro ao lado dele.

- Não stresses, ok? - Disse o Outro. E com isso, voltou a atravessar o portal, que se fechou atrás dele.

Por alguns minutos, Pedro ficou a olhar para o ar, onde o portal estivera aberto. Depois voltou-se para os copos.

Sentia-se derrotado. Toda a sua vida se considerara, de alguma forma, especial. Fora aquilo que lhe dera forças para o seu triunfo, saber que conseguiria o que mais ninguém conseguiu. E agora... Sabia que havia pelo menos mais um ser igual a si. Talvez mais! Talvez uma infinidade, um para cada universo!

Finalmente, com um suspiro, pegou no copo deixado pelo Outro. Bebeu um gole de água. Sorriu. E bebeu o resto.

O sabor era diferente, mas saciou-lhe a sede na mesma.

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13
Mai 09

Há certas músicas que não consigo ouvir, por mais que goste delas. Uma delas é a minha música favorita.
Lembro-me de me ter apaixonado pela primeira vez quando era ainda adolescente. Ela era a minha melhor amiga, e também a única. Um dia, beijei-a. Ela riu-se, pensou que eu estava a brincar. Disse-lhe que não, que a amava. Fui tão melodramático quanto é suposto ser naquela idade. Ela pediu-me desculpa, disse que não sentia o mesmo por mim. E não voltou a falar no assunto. Depois disso, não voltei a conseguir olhá-la nos olhos sem sentir o meu coração partir-se. Afastámo-nos rapidamente. Ainda hoje não sei o que é feito dela.
Anos mais tarde, apaixonei-me novamente. Fui correspondido, desta vez. E durante alguns, poucos, meses, fomos felizes. Eventualmente, ela disse-me que me amava, sim. Mas amava mais outro homem. Pediu-me para continuarmos amigos. Não consegui.
Ainda hoje pensei em telefonar à mulher que amo, mas não o fiz. Já me chegou ter que aguentar a raiva dela da última vez que falámos. Mas eu tinha que lhe dizer o que disse. Ela está prestes a cometer a maior asneira da vida dela, e tive que lho dizer. Ela sentiu-se magoada, traída. Esperava o meu apoio, como sempre, e não o teve.
Não sei se teria feito o mesmo se não a amasse. Provavelmente tê-la-ia deixado cometer as asneiras que quisesse, mesmo estando preocupado. Acharia que ela teria que aprender por conta própria. Mas como as coisas são, tive que lho dizer, mesmo sabendo que isso garante que nunca lhe direi o que sinto por ela. Mesmo sabendo que ela nunca vai sentir o mesmo por mim.
A minha música favorita acaba de passar na rádio. E por tudo isto, e muito mais, não consigo deixar de chorar.
Love will tear us apart, indeed…

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22
Abr 09

- E isto é o quê?
- Isto é o seu mapa de processo, Sr. Amílcar. Uma vez que o seu serviço é repetitivo...
- É, sim, eu faço sempre a mesma coisa...
- Precisamente, só é necessário um mapa de processo.
- E que é que são esses bonecos todos?
- Isto é o fluxograma, que representa o seu método de trabalho. Cada símbolo destes representa uma operação, incluindo o preenchimento dos modelos, para além da tarefa propriamente dita.
- Modelos? Quais modelos?
- Estes aqui. Lá está, como a sua tarefa é sempre a mesma, só precisa destes.
- Mas que é que eu faço com isso tudo? Não estou a perceber nada...
- Bom, este é o modelo C1, serve para registar cada serviço efectuado, incluindo os dados da área preenchida. Este, o C2, regista o procedimento de trabalho normal. O C3 regista as operações de ajuste da matéria prima...
- Isso é o corte da pedra?
- Exactamente, e presumindo que há um número limitado de tamanhos, vai precisar de um C3 para cada um deles. Depois tem o C4, em quadriculado, para registar o padrão de cada trabalho. Há também o G1, que é o relatório de gestão que terá que nos apresentar trimestralmente, bem como aos auditores, e o G2, que serve para indicar ao gestor de processo onde estão guardados todos os documentos.
- Gestor de processo? Mas eu só trabalho com o meu irmão...
- Então terá que ser ele, porque não se pode gerir a si mesmo, não é verdade? Mas pronto. Acho que está tudo. Qualquer dúvida, não hesite em falar comigo.
- Então e fazendo estas coisas todas, fica tudo tratado?
- Fica sim, sr. Amílcar. Depois do processo completo, o senhor passará a ser o primeiro calceteiro certificado pelo Sistema Geral de Qualidade. Parabéns!

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15
Abr 09

O Lobo Solitário enrolou-se contra a rocha, tentando escapar ao frio. Mas o frio vinha-lhe de dentro, não da neve à sua volta, e o Lobo não sabia como se abrigar dele. Habituado à sua vida simples de caçar, procurar abrigo, e dormir, o Lobo não sabia reconhecer o frio pelo que era realmente.
Um dia, enquanto caçava um veado, o Lobo notou outro animal a perseguir a mesma presa. Era, também ele, um lobo. Nenhum deles conseguiu caçar o veado sozinho, mas quase por acidente, acabaram por saltar os dois para cima da presa. O Lobo Solitário lançou-se ao pescoço, e o outro lançou-se ao lombo.
O veado não teve como resistir, e poucos minutos depois estava morto.
Os dois lobos trocaram olhares, medindo-se mutuamente. Mas nenhum deles tentou impedir o outro de se alimentar. Pelo contrário, comeram lado a lado, sem qualquer problema.
Quando se achou satisfeito, o outro lobo começou a afastar-se, mas lançou um olhar para trás antes de partir. O Lobo Solitário entendeu, e seguiu-o.
Não tardou a que encontrassem uma alcateia. Evidentemente, o outro lobo pertencia ao grupo, pois nenhum dos animais estranhou a sua presença. Só quando viram o Lobo Solitário se ouviram alguns rosnares. Que desapareceram, quando o seu conhecido lado a lado com o recém-chegado.
O Lobo Solitário acabou por se habituar a caçar e a conviver com a alcateia. A sua presença passou a ser aceite sem problemas, embora nenhuma das fêmeas aceitasse os seus avanços, e nenhuma das crias brincasse com ele. Mesmo os machos adultos o ignoravam a maior parte do tempo.
À noite, quando o Lobo Solitário se aconchegava contra a costumeira rocha, sabia que no dia seguinte voltaria a estar com a alcateia, e que caçaria com eles.
Mas não lhe bastava para se abrigar do frio.

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08
Abr 09

A subida do elevador já ia em três horas. Roger debruçou-se ligeiramente, encostando a testa ao vidro virado para o interior do cilindro gigantesco. Nunca tinha subido tão alto. Estava tão próximo do topo, que o vidro a que estava encostado começou lentamente a tornar-se mais escuro, protegendo os seus olhos da proximidade da luz branca e artificial que sempre iluminou o seu mundo e a sua vida.
Sentiu pela primeira vez algo que presumiu serem "vertigens". Não gostou da sensação, e preferiu olhar para o outro lado do elevador de vidro. Do outro lado, estava a paisagem desolada do mundo exterior ao cilindro onde toda a vida vivera, com quase todos os luxos que podia imaginar.
Ao longe, viu a parte superior de mais cidades verticais erguendo-se acima do horizonte, perdendo-se nas nuvens. Entre elas e o "seu" cilindro, apenas terreno desolado. E a luz do dia.
Subitamente, o elevador parou. A porta não se abriu. Roger colocou a máscara de oxigénio, e introduziu no painel da porta o código que comprara ilegalmente, e a porta abriu-se para um corredor longo e deserto. No final do corredor, encontrou uma escada metálica, e no topo dela outra porta, que também respondeu ao código.
A porta fechou-se atrás de si. Roger estava fora do cilindro. Ou melhor, estava no topo dele, num enorme disco plano que se estendia por quilómetros.
Tentou olhar para o Sol, mas a luz era forte demais. Despiu a camisola, e deitou-se, deixando o calor do Sol acariciar-lhe a pele pela primeira vez.
Algum tempo depois, ergueu-se, e relutantemente, voltou a entrar. O período seguro de exposição não filtrada era reduzido, e não sabia se já o tinha excedido.
Mas tinha esperado toda a vida para sentir o Sol na pele. Mesmo que lhe custasse a vida, tinha valido a pena.

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31
Mar 09

- Como posso viver um dia de cada vez, se sinto que vivo todos ao mesmo tempo?
Era uma boa pergunta. O meu entrevistado, que pediu para manter o anonimato, tinha uma capacidade invulgar: o seu cérebro não eliminava memórias. Ele lembrava-se de tudo, de forma tão nítida e lúcida como se estivesse a acontecer no presente.
- Quantas pessoas já lhe disseram que desejavam ter o seu "dom"? - Era uma pergunta algo óbvia, mas não lhe resisti.
- 243 - respondeu sem hesitar. - As pessoas pensam que ter memória permanente é muito giro e útil. Mas não é. Elas não imaginam... Não sabem...
Pensei por segundos que ele ia chorar. O peso das memórias pode ser esmagador mesmo para quem tem a sorte de as poder esquecer. Mas para ele, elas estão sempre vivas, e o impacto dos acontecimentos nunca diminui. Não me teria surpreendido se a conversa comigo o tivesse confrontado com algo doloroso do seu passado. Mas de repente, olhou na minha direcção como se eu não estivesse ali, com um sorriso preguiçoso nos lábios.
Perguntei-lhe o que estava a "recordar".
- Heroína - riu-se. - Quando me sinto a focar-me... a focar-me sem querer em algo mau, a vez em que experimentei é porreira para reviver.
- É assim que consegue aguentar? É tudo uma questão de foco?
- Tento que seja. Muitas vezes, focar-me só no que quero funciona. A maioria das vezes, não.
Acabei por sair dali sentindo que mal tínhamos aflorado a questão. Havia muito mais por dizer sobre a condição dele, e combinámos que voltaria noutro dia, talvez para uma segunda reportagem, ou só para uma conversa amigável.
Não tive essa hipótese. Ele foi encontrado morto pouco depois, com um buraco na nuca aberto por um berbequim. Oficialmente, foi suicídio.
Eu acho que ele só queria deixar as memórias escapar.

publicado às 23:36
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