De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

02
Fev 09

Adão e Eva viviam felizes no paraíso. Tudo era providenciado. Não tinham tentações. Tudo perfeito. 
 

Aqui a história divide-se em duas interpretações: 
 

A espiritual – Adão e Eva (humanos primevos) viviam no paraíso da sua natureza. Os seus cérebros não tinham zonas ocultas ou sombrias, trabalhavam directamente com as almas, a essência natural pura da consciência. Depois, chegou um intruso (a Serpente) que destruiu o paraíso, o que provocou traumas que dão origem ao nascimento do Ego (o Demiurgo, o Sol Negro, Lúcifer, etc) na mente. O Ego, providenciando uma sobrevivência na emergência da destruição interna e externa do paraíso, necessita de apoderar-se dessa ligação directa entre a alma e o ser (persona, máscara, personagem) e passa a exigir obediência, agindo como sendo um intruso, uma voz externa, um Deus poderoso. 
 

A histórica – Adão e Eva são, após a destruição do estado primevo, fabricados genéticamente como os escravos perfeitos para laborar nos jardins paradisíacos dos auto-proclamados Deuses, os invasores, conhecidos como Mestres-Serpente. Eram perfeitos pois não tinham capacidade de compreender que eram escravos. Antes, no entanto, os Mestres-Serpente tinham tentado um cruzamento entre os seus próprios genes (elevado intelecto egóico, baixa empatia) e os dos humanos primevos (elevada criatividade e empatia, elevado intelecto comunitário). Isto falhou; os Filhos da Serpente revoltaram-se, abandonaram os criadores e provocaram a revolta Adâmica elucidando as Evas, as mulheres da raça escrava. Surge o segundo êxodo e os Deuses irados lançam uma guerra cataclismica. 
 

... 
 

Sinto um pontapé nas costas e uns braços fortes levantam-me. Sou atado e lançado a uma fogueira já acesa. No último vislumbre vejo o sacerdote, com o seu olhar frio e cruel, rindo-se da minha derradeira tentativa de despertar os escravos. Eles entreolham-se, sentem a ameaça... e acabam por aplaudir a minha morte. 

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26
Jan 09

O pescador remenda uma rede, sentado na areia.

«Ora viva! Belo dia!»

«Os dias no meu quintal são todos belos.»

«Quintal?»

«Quando éramos miúdos vinham pescar-nos às aldeias para entrarmos nas lides. Era bom trabalho! Era digno! Toda a gente dizia. Quando lá, aguentávamos anos de aprendizagem suada, todos os dias, começando bem cedinho, com a miragem de, no futuro, termos o nosso próprio barco, ou mesmo uma pequena frota! Quando conseguíamos, por sorte e muito labor, ter o nosso barco, sermos patrões, eles vinham pescar a sua parte... impostos... mas deixavam que os poucos que aí chegavam, como eu, pudessem ainda assim prosperar e chegar ao sonho de ter uma frota de pesca, com uma empresa e um escritório e tudo... É só então que a verdadeira pesca vem. Com taxas para isto, quotas para aquilo, desculpas com a Europa... enredam-te, amanham-te, cozinham-te e comem-te! Ficas velho, como eu, agarrado às espinhas da tua vida, forçado a viver sem casa... mas eu sobrevivi e encontrei casa aqui.» - aponta para uma pequena gruta, levantando-se - «Segue-me.»

«Mora ali, é?»

«Sim, também.»

«O que faz agora?»

«Ainda sou pescador... é ofício que nunca se larga.»

A luz do dia não acedia à gruta. Um cheiro estranho emanava lá de dentro.

«Cheira a podre...»

«Pois cheira... é assim que ficas, é assim que te deixam... podre, após uma vida inteira de serviço.»

«Mas quem? O governo?»

«O governo? Esse também é pescado.»

«Então quem é que nos pesca a todos?»

O homem encolhe os ombros, sorri e acende um isqueiro.

A imagem grotesca de corpos humanos em decomposição invade os olhos do rapaz. Pânico. Os sons ficam presos na garganta.

«É aquele todo-poderoso a quem obedecemos dentro e fora de nós próprios!»

E mais uma vida caiu nas redes do pescador.

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editado por Rui Diniz em 07/01/2009 às 10:12
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19
Jan 09

O Cavaleiro de coração puro subiu os degraus de corpo cansado mas de alma invencível - determinado pelo magnânimo Amor à Princesa. Ele subiu os íngremes degraus da Torre onde outrora ecoava a voz doce da Deusa-Mãe.

Foi ao abrir a maciça porta que olhou, finalmente, nos olhos do Dragão, ao fim de anos de busca. Ele lá estava, instalado na sala do Trono, atormentando um Rei fraco, velho e cansado que governava para si. Expulsando o Medo com Amor, ele encarou o Dragão, mesmo quando a sua mão armada desferiu o golpe fatal no gigantesco antagonista. Um Deus-Dragão morrera, cuspindo sangue em chamas e soltando gritos ferozes.

O Cavaleiro ignorou o Rei e abriu a porta metálica no fundo da sala. Um sorriso resplandecente recebeu-o, os braços ternurentos da Princesa acolheram-no. Foi quando olhou para ela de novo, que viu nascer naqueles olhos, as lágrimas que pingavam para um peito saliente, onde o símbolo da Deusa estava marcado. O Cavaleiro, compreendeu.

Assim foi que a Princesa, nua de tudo, saíu da prisão e caminhou para o trono. O Rei, fraco, velho e cansado, ao olhá-la, rejuvenesceu e levantou-se imediatamente e curvou-se perante a figura perfeita da Mulher. Ela passou os dedos pelo cabelo grisalho do Homem, que recuperou a côr, e sentou-se no Trono.

A sua imagem aí se dissolveu, encandeando a sala com a luz que emanava, iluminando as paredes escuras. O Cavaleiro e o Rei viram à sua volta o Concílio de Sábias e Sábios que rodeavam aquele Trono, aguardando a chamada.

Quando de novo olharam o Trono, ele estava limpo e novo. O corpo da Deusa-Mãe desaparecera mas a sua alma residia, omnipresente. 

Assim vos contei como o Dragão morreu e o Rei puro regressou ao Trono da Deusa.

Quem me dera tivesse sido já ontem.


12
Jan 09

«Quero levantar-me da cama...» - sussura-me ela, aninhada em mim.

Já estávamos acordados há um tempo, porque não levantar-nos?

«Porquê?» - pergunto num impulso intuitivo.

A minha pergunta repentina fê-la atentar-se e olhar-me, com os seus olhos grandes e meigos de princesa das Arábias. Durante uns segundos a sua mente considerou. Se a sua psique fosse um oceano (e é mais que isso: é um Universo!), durante esses momentos, uma tempestade intemporal se levantou – as ondas arranharam o céu com a sua magnitude, enquanto o solo que sustenta aquela imensidão tremeu e eboliu com vulcões de inimaginável incandescência.

«Porque há coisas para fazer...» - acabou por responder.

Eu sorri. Percebi então o verdadeiro e profundo motivo da minha pergunta. Virei-me de lado, encarei-a. Afaguei-a e passei a pente fino os seus lábios volumosos com o meu olhar e a minha língua. Depois, ainda sorrindo, perguntei-lhe:

«É essa razão suficiente para nos levantarmos desta cama e deste abraço?»

Ela desviou o olhar.

«Que outra há?» - perguntou.

Eu beijei-a outra vez, intensamente, apertando o seu corpo firmemente contra o meu e disse-lhe:

«Amo-te...»

Os lábios dela abriram, como uma flor ao sol, e a sua face desenhou um sorriso autêntico.

«Também te amo...»

Apertei-a de novo contra o meu peito e enrolei-a nos meus braços.

«Sentes?»

Ela moveu ligeiramente a cabeça, num aceno roçado contra o meu rosto.

«Sinto...»

Eu soltei o abraço e olhei-a bem fundo e disse-lhe com carinho:

«Então agora podes levantar-te e eu contigo, porque o nosso dia começará com Amor, não com dever, não com obrigação. Eu e tu, temos uma ilha, sabes? A nossa ilha de Amor que, no fundo, é de todos os que nela desejem entrar...»

Ela riu-se, feliz e levantou a coberta da cama, destapando-nos.

Um verdadeiro novo dia começara então.

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05
Jan 09

"Vivo de novo."
O único conteúdo da nota deixada no correio, assinada “Alina”. Brincadeira de mau gosto. A minha amada Alina morreu há dois anos. Ainda sofro pela perda. Brincadeira de extremo mau gosto... mas eu vou lá.

Chego à morada indicada no envelope. Toco e a porta abre-se.
Olhando, caio no chão de imediato - os joelhos cedem, sem força.
«Alina?»
«Entra, querido.»
Alina olha-me ternamente, como sempre - fazendo-me sentir um rei.
A força regressa e eu entro. Sorrio e abraço-a. Depois, sentindo de novo aquele seu cheiro, beijo-a. Depois dispo-a. Um fogo acende-se em nós e eu dispo-me também.
Contra a parede, penetro-a. Beijo-a e penetro-a de pé, as suas pernas enganchadas na minha cintura.
Os nossos olhos encontram-se… mas já não é a Alina! É a minha mãe! Não consigo parar o movimento sexual, nem quando ela ralha comigo.
«Puta!» - grito enquanto a minha mão agride a face dela.
E de repente ela é novamente a Alina e chora. Eu sinto pena e culpa invadindo-me.
«Alina... desculpa...»
A minha cabeça é impelida para trás pela força do estalo da minha mãe.
«Mãe! Não! Eu sou...» - e aí consciencializo-me do momento.
Ergo-me e esmurro-a com toda a força, toda a raiva, toda a culpa...

À minha frente jaz Alina, novamente morta. Matei a menina inocente e obediente que amava, junto com a severa mulher. Por qual delas choro?
Por nenhuma. Choro por mim.
Alina morreu há dois anos de leucemia, porque existiu apenas por mim. Aprisionei-a e dei-lhe todas as respostas que queria. Nunca viveu. Apenas existiu e morreu.
Hoje morro eu. Eu que, de tanto lutar, me transformei na mãe que odiava.
Hoje sigo em frente… e deixo para trás, sem memória, o cadáver da prostituta que alguém contratou para me agradar...

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24
Nov 08

«Dão Bello Tinto, que nos diz?» - pergunta Frescco, o Dão Branco.
Bello, o Dão da família Tinto, dirige-se então à mesa:
«A sua família, Branco, em tempos não tão longínquos quanto isso, desafiou-nos, mas eu não guardo rancor. Ainda me lembro das batalhas duras que travámos pelo controlo das Adegas regionais, esses templos sagrados. É assim o negócio. Não foi pessoal, eu sei. É assim mesmo La Tosga Nostra.» - uma pausa - «Depois, com a chegada da família Verde, tivemos de aprender a conviver entre três poderes… conseguimos o equilíbrio.» - sopra fumo do charuto - «Mas agora, uma ameaça maior requer a nossa união. Depois da desrespeitosa invasão dos nórdicos, os Bier, a família Cola, liderada pelos irmãos Coca e Pepsi, e o clã Zevenuppe tem estrangulado violenta e impunemente o negócio das famílias antigas. Até o famoso Martino Rosso, mais conhecido por Ice Tino, anda no nosso encalço. Temos de lutar em conjunto. A nossa sobrevivência depende disso! Devemos aliar-nos.»
Os outros dois líderes entreolham-se. Por fim, os três estendem as mãos direitas e firmam a sua aliança proferindo em uníssono a sigla sagrada: «V.Q.P.R.D.»
«Doravante,» - Dão Branco toma a palavra - «somos os Verde-Branco, os Verde-Tinto e os Branco-Tinto…»
Dão Bello Tinto faz uma careta de desgosto - «Não gosto desse último… devemos encontrar um nome mais… mais…» - uma hesitação longa - «mais colorido.»
«Mais “Rosado”?» - coloca Dão Branco.
«Sim, boa ideia… Rosado… mas, falta alguma finesse, como dizem os franceses…»
Um dos seus jovens guarda-costas atreve-se a intervir:
«Que tal Rosé, Dão Tinto?»
Bello encara-o imediatamente com firmeza, mas depois descontrai.
«Rosé? Sim… Rosé… gosto. E tu, como te chamas, meu jovem?»
«Mateus, Dão Tinto… Mateus…»
E os três olham-no e começam a salivar como se estivessem perante uma lagosta suada.

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17
Nov 08

Comecei nas escolas do Sacavenense. Fui colocado a avançado e tive uma integração fácil. Fomos campeões de juvenis comigo lá na frente.
Quando cheguei à idade de júnior, um olheiro do Belenenses observou-me e num instante dei comigo vestido de azul e com a cruz templária ao peito. O “mister” punha-me a jogar a segundo avançado, no apoio ao ponta-de-lança. Revelou ser a função em que me encaixo melhor.
Comecei a ser integrado na equipa principal aos poucos.
Numa noite de Novembro no Restelo a minha vida mudou. O Porto vencia por 1-0 e eu entrei a meio. Dei tudo, consegui dois golos e vencemos por 2-1.
Na eterna crise de Janeiro, o Benfica contratou-me para apaziguar os adeptos que falavam muito de mim e, claro, da saída do treinador. Consegui retribuir. Estávamos sete pontos atrás do Porto e cinco do Sporting, mas conseguimos dar a volta e vencer o campeonato.
Na época seguinte, apesar da cobiça de grandes clubes estrangeiros mantive-me junto da equipa. Conseguimos o bi-campeonato, apesar de a minha prestação ter sido menos regular. O mais importante é que, quase vinte anos depois, o Benfica chegava de novo a uma final da Liga dos Campeões.
E aqui estamos em Munique, ante uma equipa forte do Inter que nas meias finais eliminou o super-Manchester. 0-0 e nada que desate este nó.
Até que...
Começo a correr e tiro dois defesas do caminho. Passo ao avançado que tabela comigo. Estou isolado! O guarda-redes sai-se, eu desvio a bola, empurro-a para a baliza! Vai entrar!

PUFF!

Tudo fica escuro com um estalo do disjuntor.
«Oh mãe?! Ligaste outra vez a máquina de lavar ao mesmo tempo do aquecedor?!» - aplico um pontapé certeiro no computador. Golo...

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10
Nov 08


Já nem sinto os passos. As pernas movem-se por si mesmas sem que eu tenha qualquer controlo sobre elas. Os pés estão pesados, sinto, e arrastam-se pelo alcatrão duro. Está tudo calmo na rua.
Ah! Ali está a minha casa... e sinto-me mais merecedor dela que em qualquer outro momento, depois de tudo o que passei para chegar aqui. Sinto que nenhum outro homem sofreu alguma vez mais que eu.
As minhas roupas são um farrapo. Tenho frio, tenho sede, tenho fome. Percorri quilómetros sem conta, olhado com espanto por onde passava. Não vi faces conhecidas, ninguém me conheceu. Caminhei como um fantasma por pastos verdes e colinas rochosas cobertas de flores agrestes.
Vi-me forçado a atravessar o rio que desce do norte e a enfrentar o grande lamaçal de um vale adjacente. Caí rebolando ao descer uma colina cujos calhaus pontiagudos rasgavam-me como lâminas.
Estou sujo. Estou gasto. Estou perto da morte. Ao menos morrerei em casa, num local conhecido, onde o meu cadáver será identificado imediatamente.
Ainda consigo abrir o portão do jardim, que agora me parece o santuário mais belo e entrego-me a esta benção, esta dádiva a uma pobre alma em decadência. Caio de costas, moribundo, na relva do meu jardim e sinto uma brisa suave na face. Depois, como que salvo por um anjo, sinto água nos meus lábios secos, água fresca, pura, salvadora.
Abro os olhos... é a minha mulher segurando uma garrafa de água na mão.
«Ai querido... tu és sempre o mesmo desorientado! Estás todo esfarrapado! Por onde andaste desta vez? Queres ver que te tenho de oferecer um GPS para a tua corridinha de domingo? Ai ai! Vá, anda lá que o almoço está feito...»
As mulheres são sempre insensíveis ao sofrimento profundo dos homens...

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03
Nov 08

«Ora então, o que sabe fazer?» - a pergunta da praxe.
Trabalho no Centro de Emprego desde que me conheço. Até, por vezes, parece que não sei fazer mais nada. Mas sei!
«Eu preciso é de pagar as contas, sabe? Veja lá uma coisa jeitosinha...»
Se eu tivesse um Euro por cada vez que ouvi isto já não trabalhava aqui. Estou farto disto. Eu também preciso de pagar as contas. Eu também preciso de “uma coisa jeitosinha”... e o que me desgraça é que já a tenho.
«Ora bem, temos aqui um contracto à experiência de seis meses para um armazém em Setúbal. É rijo, mas pagam bem. Começa por 600€ e depois logo se vê.»
Sinto sempre vómitos quando tenho de forçar esta máscara de “esmolista”. Sou nojento... vendo trabalho de merda a quem não tem alternativa de sobrevivência.
«Parece-me bastante bom!» - o homem sorri abertamente - «Acho que fico já com esse.»
Ao final de tantos anos já nem me devia surpreender - «Ah sim? De certeza que não quer ver mais nenhum?»
«Absoluta. A não ser que tenha aí algo que pague mais de 600 para quem só tem o 9º ano...»
Confirmo sumariamente no computador.
«Não há.»
«Fica essa! Eu até moro em Setúbal! Pago 250€ de quarto e ainda me sobram 350€. Daí pago a alimentação – sou homem de pouca comida – e nem preciso de comprar passe! É... esse trabalho vai dar-me uma liberdade maior. Ainda vai sobrar algum ao fim do mês.»
Repito: ao final de tantos anos já nem me devia surpreender. Ele está mesmo contente. Ele não sabe que é oprimido, ele ainda não libertou a mente! Eu sim!... Mas também tenho de pagar as contas...
Grandes cabrões... A civilização actual faz o escravo sentir-se livre e o livre sentir-se escravo...

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27
Out 08


Final de tarde. Apesar do vento forte que atravessa aquele bosque na colina, o casal não se sente incomodado. Pelo contrário.
Chamar “casal” pode não ser apropriado – depende da perspectiva – dado que nada de oficial foi alguma vez declarado. Beijam-se todos os dias, dando de beber aos seus desejos; fazem amor com paixão, ainda que encarando os momentos ardentes com espírito jovial. Há uns anos que assim é. Apesar disso, eles nunca assumiram a palavra assustadora “namoro” e, consequentemente, muito menos “casamento”. Por isso, depende da perspectiva chamá-los de “casal” – deixo ao vosso critério.
Sérgio é músico. Consigo anda sempre a sua guitarra, instrumento já muito vivido e cicatrizado pelo uso. Filipa é estudante. Finalista do curso de Gestão, sonha com uma estável e recheada carreira empresarial. Talvez por isso, ultimamente, ela tem reflectido muito. Ama o Sérgio, quer viver com ele, conjugar aqueles dois mundos tão distintos. Talvez seja tempo de enfrentar as palavras das quais fogem. Mais até; Filipa deseja saltar o “namoro” e atirar-se à aventura de um “casamento”. Por isso sugeriu a colina ao pôr-do-Sol, este ambiente ventoso que torna tudo mais fácil...
As palavras, quando ela avança, soltam-se todas de uma vez, expelidas sob pressão.
«Quero casar contigo.»
Sérgio sorri; já esperava.
«Só há uma mulher com quem eu casaria.»
«Eu?»
Ele sorri abertamente - «Se adivinhares o que estou a pensar, respondo com uma canção.»
Ela olha-o, pensa um pouco e sorri - «Ahhhh...» - num olhar maroto.
Curva-se, desaperta as calças, afasta o cabelo que se rebela ao vento e saboreia-lhe o pénis.
Sérgio pega na guitarra e começa a tocar. Como prometido, entoa a sua resposta com um refrão conhecido:
«The answer my friend... is blowing in the wind... the answer is blowing in the wind...»

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