De Segunda a Sexta, 300 palavras por dia.

28
Mar 09

Saiu da casa e desceu as escadas atabalhoadamente. Tropeçou, não caíu. Equilibrou-se. Agarrou o corrimão, áspero, enquanto acendia o cigarro com a outra mão. “Vá lá, acalma-te.” No escuro, as imagens vieram claras. A savana. Foi a última coisa que viu do avião, a savana. Em direcção ao céu, em direcção às nuvens, e cá em baixo tudo calmo. Expirou uma nuvem de fumo e sentiu-se melhor. Os anos já eram muitos, pensou. Sim, devia ser dos anos. O coração já dava sinais e as pernas já não eram como dantes. O trabalho não era dificil, fazia o que lhe pediam e na maioria das vezes não eram demorados. Ficava com muito tempo livre, o que também se tornava um problema. Não gostava particularmente do que fazia, mas sempre dava dinheiro e era preciso que alguém o fizesse. Sem ilusões: se não fosse ele, era outro. E enquanto estivesse no lado certo, não haveria problema. No lado certo... bem, pelo menos no lado dos que viviam. Lembrou-se outra vez da savana e das caçadas. De acompanhar o pai, dos jogos de bola e da mãe que o fazia prometer que ia estudar. Para médico ou professor. Riu-se de como parvo parecia agora. Parece sempre, quando se olha para trás, dizia o Branco. E realmente não havia muitas coisas que parecessem certas. Talvez se tivesse ficado. Talvez se ele não tivesse visto o dinheiro e a promessa, estragada, de uma vida, bastante parecida com a ideia que tinha de morte, agora que pensava nisso.
Olhou para o relógio. Havia dez minutos que estava parado no meio das escadas. Puxou do telemóvel e marcou 112. Era preciso avisar a polícia dos corpos e aqueles não tinham sido fáceis de disfarçar.

publicado às 00:01
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